domingo, 3 de abril de 2011

O “Flirt” e suas falsas justificativas - Primeira parte

O “Flirt” e suas falsas justificativas


(Primeira parte)

Dizem: “Estou segura de mim mesma”.

Segura de mim”... Para pronunciar essa frase, é preciso ser bastante ingênua ou pretensiosa. Ninguém deveria dizê-lo, ninguém tem o direito de o pensar. Mas uma jovem, e principalmente quando se trata do “flirt”, tem muito menos esse direito do que os outros.

Também Eva, quando sorria para a serpente, estava “segura de si mesma”... E São Pedro também estava “seguro de si” quando jurava: “Se todo o mundo O trair eu não O trairei”... E sabe-se o resto da história...

Estar com o coração seguro aos vinte anos! 

Oh! E segura essa mocinha, a ponto de tirá-lo do refúgio secreto onde se encontra para fazê-lo dançar na mão!

Oh! Mas onde é que se está para permitir, sem pestanejar, tão impertinente segurança? Onde se adquire  tanta garantia? Os santos não estavam assim tão “seguros”. Não o estavam de modo algum e a emocionante desconfiança de si mesmos igualava ou excedia a merecida confiança que os outros tinham neles... Esquece-se de que nem sempre a vitória de ontem assegura a vitória de amanhã? Que a pureza moral exige mais prudência do que coragem e que, neste assunto, a verdadeira coragem consiste em impor-se a si mesma as necessárias prudências? Será que São Paulo é menos invencível, ele que não se envergonhava de ter medo da tentação e contra ela protegia sua trêmula fraqueza? A frágil roseira poderá vergar-se sempre sem quebrar? E não sabemos nós que ela também se quebra e que a mesma tempestade que arranca o carvalho do solo também a pode arrancar?

Quando se vêem, na história da humanidade, possantes cedros precipitar-se do alto de sua secular majestade, como crer que as fracas e pequenas hastes possam afrontar a tempestade?

Mas – dirão vocês – não existe tempestade. Faz um tempo tão lindo!”... Pode ser. No entanto, não sentem vocês, nas noites destinadas ao “flirt”, como o ambiente está pesado e como o ar tranqüilo e balsâmico está cheio de uma eletricidade voluptuosa? ...

E, depois, a carícia que amolece não é tão fatal como o golpe que mata? A própria criança que resiste à maldade não é muitas vezes vencida por um sorriso? A que se obstina diante da força fraqueja diante do carinho. Os mártires temiam menos os suplícios do que as delícias.

Não há tempestade... Não, mas há a calma dissimulada e traidora que convida o ente despreocupado a abandonar o leme e entregar-se deliciosamente à doçura dos sonhos, deixando a barca entregue ao balanço das ondas.

Não há tempestade... Mas, se o crocodilo espreita no rio calmo e este rio deslizar por terras sonolentas e febris, bastará trovejar para que haja perigo? Não será o drama ainda mais pungente quando se trata de almas que morrem com um grito selvagem no meio da tempestade ou de almas que agonizam silenciosamente, picadas pelo inseto da volúpia, no país dos “flirts” lânguidos?

Na verdade, não é em nome do passado, nem do presente nem do futuro, nem do da própria experiência, nem no da experiência dos outros que uma jovem poderá sinceramente proclamar-se “segura de si”. Não é em nome de coisa alguma, exceto em nome de suas interesseiras ilusões, de seu orgulho, de sua deslealdade.

No flirt, a única coisa de que pode estar segura é precisamente nunca ter segurança, e mostrar pretensões de tê-la, e expor-se infalivelmente a humilhantes desventuras. A vida não tem por missão endireitar nossos erros nem contentar nossas ilusões. Nós é que temos por obrigação utilizar suas lições respeitando as leis. De todos os fios com que se tece a volúpia, o “flirt” é um dos mais finos e um dos que mais realçam.

Dir-se-ia renda finíssima que um único golpe de unha romperia. E é esse sem dúvida o motivo porque a jovem se julga muito capaz de a poder rasgar à vontade. Mas o fio é forte, a renda unida e as malhas resistentes. E vêem-se, tais como moscas presas na teia de aranha, as namoradeiras emaranhar-se cada vez mais na rede em que lutam desesperadamente por se desvencilhar. A prudência seria aqui a única sabedoria, visto serem as “desconfiadas de si mesmas”, que, não se expondo, mais galhardamente se tiram de embaraços, enquanto que as “seguras de si mesmas”, por se exporem tolamente, se sentem presas. Que dizer, diante de tanta evidência? A única coisa que resta é inclinar-se e, humildemente, abster-se de tudo, receando, após algumas concessões feitas ao “flirt”, ser levada um dia a sacrificar-lhe tudo.

É um método radical. Mas se só ele existe com tal eficácia, não há outra alternativa: ou adotá-lo com todo seu rigor, e então o feliz resultado pagará generosamente os sacrifícios feitos; ou repeli-lo por causa de sua intransigência e, então, a derrota moral será o castigo do erro cometido e da falta de coragem que se lhe seguiu. Sacrifício – pois cedo ou tarde, sob pena de pecado, teremos que com ele nos resignar – melhor será fazê-lo de boa vontade, enquanto ainda é tempo, e é igualmente mais generoso, mais útil e mais belo.

Naturalmente que é aborrecido e quase humilhante termos de contar sempre com a própria fraqueza e não nos podermos basear numa absoluta segurança de nós mesmos. Se assim fosse, ficaríamos tão à vontade, suprimiríamos tantas hesitações, forneceríamos ao nosso orgulho instintivo um alimento tão apetitoso! Mas, que fazer? Também o doente preferiria ter saúde para não ser obrigado a sujeitar-se como doente, a menos que queira antecipar a viagem para o cemitério. Assim também, e em nome da mesma lei da saúde, deve-se agir com respeito à lei moral. Se a vaidade pessoal perde com isso, a segurança ganha.

É mais prudente salvar a colheita abrigando-a da chuva do que perdê-la expondo-a as intempéries. Antes de suprimir a prudência, seria necessário suprimir a fraqueza. Para nos podermos livrar dos golpes é preciso que antes estejamos protegidos por uma couraça impenetrável. E, enquanto se espera (e essa espera será longa como a vida) necessário é proceder como um ente fraco, como de fato se é, e desconfiar de si, visto não se ter nenhuma segurança. Contra tal tática não há argumentos que tenham razão de ser. “Fatos são fatos e a primeira conclusão a tirar é que, se assim são, é porque não são de maneira diferente.” Se um dia houver qualquer alteração, vocês adotam outro método mais amplo e mais brando. Mas, como certamente já estarão mortas antes que “essa alteração se verifique”, conclui-se que vocês, minhas jovens amigas, em matéria de “flirt”, ficarão na dependência do procedimento de sempre: realidade do perigo, como certeza; consciência de sua fraqueza, como convicção; rigorosa abstenção, como método.

Dizem: “Não investiguei muito... Não pensei que fosse mal.”

É bem possível, e, se é verdade, é uma desculpa para o passado, mas não para o futuro.

Não investigaram muito...”. No entanto, vocês bem que investigaram, ao menos um pouquinho, e receio muito que essa maneira de afirmar “não investiguei muito” seja um meio discreto de nos fazer cientes de que “investigamos muito”... Ora, não se trata de procurar muito, nem de “investigar muito”... Trata-se de investigar o necessário, sem um metro a mais, nem um metro a menos. É preciso ver o que há, de fato, porque, desconhecendo-o, expomo-nos voluntariamente a surpresas nada agradáveis. Fazemos mal em exagerar o perigo e vocês fazem mal em diminuí-lo. Mas, se não temos o direito nem que seja unicamente para assustar, de lhes mostrar uma víbora onde só existe uma serpente, vocês também não têm o direito de ignorar as conseqüências quase sempre fatais das imprudências cometidas e muito menos o têm de considerar como inexistente o que, na realidade, existe. Mas Deus sabe quando vocês notam a menor censura que vos fazem, quando notam qualquer ato de uma das companheiras, quando notam a menor aparência de maldade nas outras.

Então, como se compreende que, repentinamente – porque vosso interesse está em jogo – deixais de perceber o que era preciso notar? Porque a trave do olho da vizinha se transforma em argueiro no vosso? Em geral, vocês são tão atentas para as demais coisas e eis que de repente ficais tão moles justamente quando se trata de um assunto para o qual toda atenção e cuidados são poucos... Eis um problema, e vocês é que terão de resolvê-lo. Mas, antes de dizer: “Não examinei bastante”, reflitam e vejam, diante de Deus, se é bem verdade o que dizem...

Não pensei que fosse mal”. Mas também não acreditava ser uma coisa boa. Isso quer dizer que, pelo menos, estava incerta e que, ao invés de dissipar essa incerteza, a conservou, chegou mesmo a alimentá-la, pois com ela tinha um pretexto para ficar tranqüila e sem motivo aparente para ser censurada.

Você estava na incerteza, é verdade. Mais do que isso – não o negue – estava inquieta, tinha qualquer dúvida, pressentia vagamente um perigo e o constrangimento involuntário que minava seu íntimo era, para você, um significativo aviso. Nota-se a aproximação da tempestade ante o abafamento insuportável da atmosfera.

Pela maneira de baixar os olhos percebe-se um amor ou uma falta que não se ousa confessar. E a qualquer coisa que nos rompe a alma certificamo-nos de que o perigo ameaça... Não é verdade?

Se, realmente, você tivesse acreditado que ele era inofensivo e irrepreensível, teria por acaso ficado como ficou, hesitante antes do “flirt”, ansiosa durante e confusa depois? Teria sentido o gosto de mistério, coisa que não lhe é habitual? Teria tido tanto receio de ser vista ou apanhada em flagrante? Teria fugido sabiamente de qualquer confidência ou interrogação a essa respeito? Teria caminhado por estradas sinuosas? Finalmente, teria você ouvido dentro de si mesma como que golpes misteriosos contra o muro, em plena noite, protestos violentos da consciência comunicando-lhe seu receio? Você bem pode dizer que “não desconfiava de coisa alguma”, mas tudo está dizendo que você desconfiava de alguma coisa. Tudo se passou, não como se você fosse uma criança ingênua, de coração inocente, mas como se tivesse sido uma jovem inquieta, com a consciência agitada. Tanto quanto Eva quando estendia a mão para o futuro cobiçado, também você sentiu Deus a seu favor. E, tanto quanto ela, ao mesmo tempo que ouvia o assobio suspeito que iria seduzi-la, também ouvia a poderosa voz do Alto que deveria ter retido seus passos.

Existem sinais que não enganam. E esses sinais estavam bem visíveis quando de sua primeira imprudência. Não é razão suficiente deixar de tomar conhecimento deles por pretender não tê-los percebidos anteriormente, e, à sua fraqueza, não deve juntar a mentira de dizer que não “o fez propositalmente”... Você não gosta de ser tomada por uma ingênua, pelo menos aceite ser considerada como grande responsável! Você já atingiu a idade da razão, ninguém pensa contestá-lo, mas também não conteste você mesma que, naquela ocasião, você já tinha chegado à “idade da consciência”! A fraqueza é mais perdoada do que a lealdade. Dizendo “por minha culpa”, você se condena; maior, porém, será sua condenação se disser: “Não por minha culpa”, pois a voz da verdade clamará no seu íntimo: “Por tua culpa, por tua culpa, por tua grande culpa”... 

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças; Editora Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: O “Flirt” e suas falsas justificativas - Segunda parte)

PS: Grifos meus.