quarta-feira, 27 de abril de 2011

Madalena, a perdoada

Madalena, a perdoada


Esse cântico, repete-lhe Madalena as estrofes dolorosas ao pé da Cruz.

A tradição unânime e constante coloca o penitente nessa posição humilhada e amorosa. Parece que ela não se atreve a subir até o semblante do Senhor; e, entretanto, do pé da Cruz ser-lhe-ia bastante levantar a cabeça, e os seus olhos se encontrariam, através do seu véu de lágrimas, com os olhos cheios de sangue que o haviam fitado e transmudado outrora.

Madalena volve incessantemente a este outrora das suas recordações.

Onde e quando viu ela o Mestre pela primeira vez? Com que curiosidade, a princípio, a mulher leviana procurara achar-se em face do grande taumaturgo? Com que interesse depois? Com que temor secreto também, pois pretendem que Ele sabe ler no fundo dos corações? Como foi que, por esse misterioso encadeamento da graça, ela chegou a desejar rever aquele ente tão meigo e tão poderoso que a atrai estranhamente?

Quando, de volta de uma daquelas entrevistas que ela queria triviais e sem conseqüência, Madalena tornava a encontrar-se no cenário íntimo onde tudo só lhe falava das suas vergonhas públicas e secretas... de que desencantamento não devia ela sentir fulminarem-se uma a uma todas as coisas que amara, desejara, sofregamente buscara?

Toda volta a Deus começo por essa desilusão. A grande luz do alto põe a nu o vazio que está em baixo. Deus não violenta nada em nós; e nós somos transformados. O fruto tão doce do prazer assume então um travor singular: o lábio tende-lhe ainda, mas a mão logo o repele, e arranca-o àquele lábio trêmulo e desiludido.

Inconsciente do movimento que nela se opera, a alma se agita, vai de uma flor à outra: já não há mel.

Madalena recorda-se desse vago e antigo mal-estar quando, no fundo do horizonte da sua vida, via elevar-se lentamente o sol estranho do semblante humano e divino cujo esplendor a fascinava.

Um dia, ainda meio ataviada, mulher pecadora e pública, ela se levanta, sai com um vaso de perfume nas mãos: tem o andar ansiosa, precipitado... entra numa sala onde há  um festim, ao qual não foi porém convidada; são ricos que estão deitados nos divãs ao redor da mesa. Ela insinua-se pelo meio dos criados; é bastante conhecida para que lhe não embarguem o passo... e ei-la inopinadamente, ela, o orgulho e a volúpia, ei-la que cai de joelhos aos pés da divina e radiante pureza! Há virtudes que só se aprendem de joelhos: a pureza é dessas.

Entretanto um silêncio se fez subitamente na sala; toda gente se admira, o dono da casa, os convivas, os criados: e Madalena rega humildemente os pés de Jesus com as primeiras lágrimas de arrependimento. Depois quebra a empola de perfume e derrama-lhe o líquido precioso nos pés lavados pelo seu manto. Mas tarde ela ousará subir mais: irá até a derramar o óleo odorífero nos cabelos e na cabeça; por hoje, cinge-se aos pés, no chão, no seu lugar, no opróbrio e no pó. E tudo isso se faz com um rito augusto e sagrado, - pois não é a consagração da alma contrita?... – e no meio de um silêncio em que começam, entretanto, a ressumar alguns murmúrios de convidados os risos discretos dos criados.

Madalena não atenta nisto. Com um derradeiro gesto, como para completar a sua humilhante atitude, desnastra os seus longos e sedosos cabelos: assim fazia o sumo sacerdote sobre os ombros da mulher adúltera. Só por este gesto confessa ela, pois, toda a sua vida criminosa, e, com a fronte ruborizada de pejo, inclina-se, a modo de uma escrava, para enxugar com as suas tranças magníficas e onduladas os pés divinos que os seus perfumes, as suas lágrimas e os seus beijos tão ardentemente banharam.

A história, diz Lacordaire, em parte alguma nos mostra o arrependimento e o pecado a criarem juntos uma imagem tão tocante de si próprios”. (Vida de Santa Maria Madalena, c. III.)

Foi nesse momento que, no coração do fariseu orgulhoso da sua integridade, se elevou uma dúvida, uma irônica reflexão: “Se fosse um profeta, dizia ele de si para si, ele saberia o que vale essa mulher pública que o toca e o beija nos pés”. Madalena não ouviu este pensamento, mas percebia os murmúrios e até o silêncio que enchia a sala. E eis que, no meio dos murmúrios e do silêncio, ouve de repente uma voz que se eleva: Jesus defende-a; faz mais, desculpa-a; faz melhor, louva-a; e, coroando tudo com uma palavra, perdoa-lhe.

- “Vai, filha, todos os teus pecados te são perdoados, estás ouvindo? Vai, a tua fé te salvou, e fica em paz”.

Isto foi dito com tal tom, isto foi dito com tal olhar, que, através das suas lágrimas e dos cabelos esparsos, Madalena, fitando um momento aquele divino semblante, nesse mesmo instante foi ferida, abatida, derribada, reerguida, e tão alto que, doravante reabilitada, luminosa e pura, ela não mais deixará Jesus, segui-lO-á, apegar-se-Lhe-á, subirá com Ele a toda parte.

- “Vede, irmãos meus, o vôo dessa alma que o amor de Deus feriu”, exclama Bossuet falando das virgens: pelo seu arrependimento, Madalena entrou na ascensão das almas puras, e conclui hoje o seu vôo extático pela subida do Calvário. Ela lá está em lugar de honra, ao lado da Rainha das Virgens e do apóstolo casto.

Ó pecadores, ó pecadoras, almas perdidas, carnes desprezíveis e desprezadas, vinde e vede: no montão imenso dos vossos pecados, achai-me um só de que a bondade de Deus não possa fazer um degrau para vos elevar, se, iguais a Madalena, souberdes abaixar-vos, arrepender-vos e melhor amar.

Madalena, que caíra tão raso por mal e em demasia ter amado, só se alcandorou tanto por muito e bem ter sabido finalmente amar; e hoje, nesta hora do Calvário, ela dá ao seu arrependimento o derradeiro lustre, ao seu amor a suma intensidade.

Porquanto, se aquele grande silêncio, naquela escuridão do Gólgota, ela ouve, principalmente, nas suas recordações comovidas e perturbadas, naquela palavra que foi a alvorada da sua vida refeita: - “Tem confiança e vai em paz”... como, erguendo os olhos, não devia ela compreender a que preço cruel e doloroso lhe fora essa paz comprada! Era preciso nada menos do que aquela Cruz erguida, o horror dos cravos enfiados na carne, e a morte que avançara e cuja sombra pálida cobriu já aquela face adorável.

E Madalena olhava então como que furtivamente, de baixo, onde se achava ainda aos pés de Jesus, Madalena olhava o semblante do Senhor coberto de livor e de sangue, onde se escrevia impiedosamente a história dos seus pecados, a história do seu perdão.

Que olhares!

Há um olhar das almas perdoadas, como há um olhar das almas inocentes.

Em qual dos dois se aninha maior suavidade? Em qual mais alegria e gratidão?

Isto é segredo de Deus, e também desses privilegiados.

Afiguram-se-me, porém, ó meu Deus, que, nos olhos da minha alma tantas vezes perdoada, luzirá mais amor, porque com os destroços dos grilhões dos meus pecados, por Vós tantas vezes partidos, eu posso de ora em diante formar um elo tão forte e tão doce, que nada será já capaz de separar neste mundo da Vossa imensa caridade.

(A Subida do Calvário, pelo Pe. Luís Perroy, S.J.; Editora Vozes, III Edição, 1957. Continua com o post: As zombarias.)
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