quinta-feira, 10 de março de 2011

XXX - A mortificação

XXX - A mortificação


I. – Depois de ter te escolhido para discípulo e ministro de um Deus crucificado, será muito que te diga, filho: Se queres vir após de Mim, abnega-te a ti mesmo toma a tua cruz, e segue-Me? (1)

Eu, por teu amor, não recusei levar a mais pesada Cruz, e tu não aceitarás por Meu amor a mais leve?

Tantos leigos com a penitência e austeridade Me sacrificam honras, riquezas, prazeres, até a mesma vida no meio dos martírios; e tu que, sendo Sacerdote, Me representas e fazes todos os dias na Missa comemoração da Minha Paixão e morte, e Me vês em tuas mãos, feito Hóstia e Sacerdote por teu amor, porque não queres imitar-Me, fazendo-te Sacerdote digno e hóstia aceitável, com a mortificação da carne e de suas concupiscências?

Se queres, filho, que a Minha Cruz seja tua redenção, abraça-a e leva-a como teu divino mestre. Não tive Eu mesmo de padecer, se quis entrar na Minha glória?

Quem quiser ser Meu, há de renunciara si mesmo. Quererás antes ser discípulo de Epicuro, que de Jesus? (2)

II.- Pertence-te, filho, ensinar a mortificação aos outros; mas como poderás dizer-lhes que reprimam a cólera, os caprichos, o interesse: que amem a mortificação dos sentidos, a renúncia da própria vontade, que fujam das conversações perigosas, se tu o não fazes?

Ainda que lhes pregues, que eficácia terão tuas palavras, desmentidas pelas tuas obras?

Ah! Quanta razão tem os povos de dizer de ti o que dizem de tantos outros: Que os Sacerdotes e Religiosos nada fazem senão comer, beber, divertir-se; ao que os pobres podiam acrescentar com vitupério: É nosso patrimônio o que comem estes valorosos soldados, que, em vez de trazerem a divisa da mortificação de Cristo, não respiram senão delícias e efeminada moleza! (3)

Que seria, pois se chegassem a dar à abnegação o nome de escrúpulos e melancolias de visionário?

Pobre da Minha Igreja! Houve tempos em que tinha ministros consumados na penitência, pobres em rendas, macerados pelos jejuns, desaprimorados nos vestidos, mortos para o mundo e para si mesmos; hoje está ela entregue a estes delicados paraninfos! (4)

Que farão os seculares, em um século tão aferrado aos prazeres, ao luxo e aos passatempos, vendo assim viver os Sacerdotes, que deviam ser os exemplares da mortificação?

Não deverei eu queixar-Me de que, em lugar de aumentares, como devias, o número dos discípulos da Minha Cruz, aumentas o de seus inimigos?

III. – Desengana-te, filho: sem abnegação nunca poderás desempenhar tantas obrigações que tens comuns como as dos leigos, e muito menos tantas que são próprias do teu estado.

És obrigado a fugir dos negócios do século e ocupações profanas; a fugir de litígios, e a ser antes o pacificador dos seculares; mas como o farás se não renuncias o desejo das riquezas e das honras? Como abominarás os divertimentos mundanos, jogos, banquetes, espetáculos, luxo, bailes, conversações, etc., proibidas especialmente a ti, se não refreias o desejo dos prazeres?

Vivendo no meio dum mundo tão corrupto, e tratando até com mulheres por necessidade de teu ministério, como te conservarás casto e puro, se não mortificas os sentidos e maus desejos da carne?

Como te aplicarás ao estudo, a oração, ao zelo e trabalho pelo bem do próximo e da Igreja, se amas tanto tuas comodidades, se não queres vencer os respeitos humanos, nem sabes sofrer um ditério, nem uma afronta por Meu amor? Toda a desobediência a Minha lei e aos cânones da Minha Igreja não procede porventura da repugnância que tens à mortificação?

Pesa-te a Minha Cruz? Mas tu sofres e padeces pelo mundo, e não hás de padecer nada por Mim? Não é pois o padecer que te molesta, será só o padecer por Meu amor?

E sabes o que rejeitas, rejeitando a Minha cruz, filho? rejeitas aquele conforto e consolação que sentirias em padecer Comigo e seguir-Me; rejeitas o auxílio da Minha graça que te tornaria o jugo não só leve, mas doce e suave; rejeitas o prêmio pelo qual, convertida a tristeza em gozo, e reinando já Comigo para sempre, bendirias a hora em que padeceste Comigo.

Quererás antes ser mártir do mundo, do que Meu? e não é isto um querer padecer miseravelmente nesta vida, e padecer depois ainda na outra eternamente? Vê pois qual te será melhor. (5)

Fruto. – Examina qual seja a paixão que te domina e te faz cair mais vezes, e procura domá-la com a penitência e a abnegação própria. Quanto maior violência fizeres a ti mesmo, tanto mais adiantarás na virtude.

Enche-te de coragem para vencer os ditérios e respeitos humanos, e não correres após as tuas comodidades. O luxo, a moleza e os respeitos humanos, dizia São Francisco Xavier, são a origem principal do deplorável estado da Igreja.

Santo Ambrósio, daquelas palavras do Apóstolo: Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão para não ser réprobo, deduz esta ilação: Logo, quem o não castiga, ainda que viva como o Apóstolo, é um réprobo.

Notas:

1-     Ubi Christus muletatur morte, cruce turpatur, quis suorum delicias, seu gloriam sustinere queat, nedum audeat quaerere...? Ceterum, si omnis, qui dicitur se in Christo manere, debet sicut ille ambulavit, et ipse ambulare. (I. Joan., II, 6) Multo magis qui pro eo manere se dicit, qui pro eo legatione fungitur, qui ei ministrat, si eum non sequitur, inexcusabile est. Sane nisi abnegaverit semetipsum, et tulerit crucem suam, sequi eum omnino non potest. Math. 16. (São Bern., Declam., XIV. 49).

2-     Qui Christi sunt, carnem suam crucifixerunt cum vitiis et concupiscentiis. (Ad. Galat., V, 24.) Non sic hodie, non sic: sed animae curam negligunt, curam autem corporis perficiunt in omni desiderio; nec virtuti cordis opera datur, sed valetundini corporis, immo etiam voluptati. De schola Hippocratis et Epicuri didicerunt haec: neque enim suis Christus horum quidquam tradit. (S. Bern., Declam., XII, n. 38.)

3-     Penuria pauperum clamat: clamant nudi, clamant famelici, conqueruntur et dicunt: nostrum est quod effunditis, nobis necessitatibus usurpatur quidquid accedit desideriis vestris... Et haec pauperes, modo quidem coram Deo tantum: ceterum in futuro stabunt in magna constantia adversus eos qui se angustiaverunt... (Bern., Ep. 44.) Vae, vae tibi, clerice! mors in ollis carnium, mors in deliciis tuis! Sumptus ecclesiasticos gratis habere te reputas? Cantando, ut aiunt, tibi provenire videntur. Ate a tibi noveris imputanda, quae modo inter delicias comedis. (S. Bern., Declam., VII, n. 20.)

4-     Et  horum quidem isti sortiti sunt ministerii locum, sed non zelum. Successores omnes cupiunt esse, imitatores pauci. Non omnes sunt amici aponsi, quos hodie sponsae hinc assistere cernis. Pauci admodum sunt, qui non quae sua sunt querant ex omnibus caris ejus. Intuere quomodo incedunt nitidi, et ornati, circumamicti varietatibus, tanquam sponsa procedens de tálamo suo. Unde vero hanc illis exuberare existimas rerum affluentiam, vestium splendorem, mensarum luxuriem, nisi de bonis sponsae? (Bern., In Cant. Sem. 77.)

5-     Durus multis videtus hic sermo: Abnega temetipsum, tolle crucem tuam, et sequere Jesum: sed multo durius erit audire illud extremum verbum: Discedite a me maledicti in ignem aeternum. Qui enim modo libenter aundiunt, et sequuntur verbum crucis; tunc non timebunt ab auditione aeternae damnationis. (Kemp., II, 12,1).

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)
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