quarta-feira, 16 de março de 2011

Suzana ou a Louca que amua

Suzana ou a Louca que amua


É engraçado ver alguém zangar-se! Uma das coisas mais engraçadas da criação! Oh! esta cabeça! Estes olhos que lançam chispas semelhantes a um fósforo que nega fogo! Esse nariz trêmulo! Esses dentes cerrados que só se abrem para tomar a sopa! Levantar-se sem dizer bom-dia! Deitar-se sem dar as boas-noites! Esse queixo inerte! Esse ar ridículo que quer parecer temível! Essa boca fechada num silencio inútil! Esse sonho assassino que não matará ninguém! Essa face que rumina inofensivos projetos de vingança! Esse barulho de vulcão sem lava, que não intimida a ninguém!

É bonito alguém amuar... Um menino que se zanga! Uma meninota quando se zanga! Uma jovem zangar-se! Depressa, um espelho!

Que faz ela, minha senhora, a sua Suzana? – Ela está amuada, sentada à janela. Ela se aborrece lendo; lê aborrecendo-se. Tem um desejo louco de não mais se zangar, mas zanga-se assim mesmo, porque, quando se zanga, zanga-se e está acabado...”

Também as almas se aborrecem. E isso é mais grave, mais inquietante.

Moralmente falando, é estar descontente, querer mal a alguma coisa ou a alguém, recusar o “sim”, ser indomável, refugiar-se numa resistência que se sabe vil, agir sem entusiasmo, e murmurar embora se obedeça à autoridade que se amaldiçoa e, ao mesmo tempo, se respeita. Existe também despeito e como que uma censura amarga ao ideal que se alimenta.

É tudo ao contrário do que Deus ama naqueles de quem Se serve, Ele que pede generosidades espontâneas e não empregados mal humorados e imprestáveis...

Há quem amue com o dever

O dever é o que tem de ser feito em determinado momento, se é que se quer cumprir com a vontade de Deus. Em si mesmo, não é agradável nem penoso. Agradável ou penoso é o que tem que ser feito.

É aborrecido porque não pode ser escolhido

Ora, comumente, não se escolhe o dever. Aceita-se. E fica-se aborrecido por ele se impor assim, sem primeiramente se informar se agrada ou deixa de agradar. Vindo de Deus, será preciso que se peça permissão? Por acaso a doença, a chuva, a neve e a telha do telhado nos pedem licença para caírem sobre nossa cabeça?

O dever é uma telha? Sim, muitas vezes. Em todo o caso, seja telha ou codorna assada, como vem de cima, nada mais temos que fazer senão apanhá-lo e abraçá-lo respeitosamente.

Mas eis que surge coisa diferente do que sonhávamos. Havíamos organizado de modo diferente a vida. Eram outras as preferências e eis que ele chega, como um indiscreto, um mal educado. Com que direito?... Daí a vontade de mandá-lo para o diabo, esse mensageiro de Deus... Ou então, ao menos, deixá-lo ficar esperando na porta e, depois de fazer o que se quer, vir recebê-lo.

Mas a audácia não chega a tanto. Há educação. Abre-se a porta ao dever. Mas a impressão é de uma amabilidade forçada, que até deixa de ser amabilidade E, muitas vezes, nem chega a isso. A alma torna-se descontente, sem alegria, sem amor, e a criatura, sem poder libertar-se, age a seu modo.

E, no entanto, ele é realmente o mensageiro da vida, aquele que traz consigo o segredo da verdadeira beleza moral, do firme progresso. É o programa infalível. O caminho reto para Deus. Fora dele arrisca-se a encontrar ilusões, capricho, mentira. Para a alma esclarecida, que compreende, é a coisa sagrada que talvez não se tivesse inventado bem desejado, mas que, uma vez dada, se deve apanhar com vigoroso amplexo, deixando de lado tudo o mais.

É aborrecido porque não tem brilho

De fato, muitas vezes não o tem. E como o haveria de ter, se a vida da maior parte das criaturas se compõe de mil pequenos nadas reunidos, com os quais se tece uma existência inteira! Apenas alguns seres, no conjunto geral, têm um destino brilhante a cumprir, e são exceção os que contam com algo de sensacional. Instintivamente, prefere-se trabalhar no macio, no delicado. O fabrico contínuo de meias grosseiras, ao qual alguns estão condenados e resignados, outros, em determinadas horas, não seriam capazes de o suportar. Ah! Produzir alguma coisa notável! Não passar sempre desapercebido! Vir a ser alguém a quem se admira! Se uma artista aplaudida! Uma cantora! Um “giri” seja do que for! Uma rainha de beleza ou mesmo de feiúra, contanto que seja uma rainha, como retrato nos jornais e o nome num cartaz!

Então! São raras as rainhas! Ao passo que camponesas, costureiras, datilógrafas, empregadas, disso “estão cheias as ruas”. Quanto mais houver, menos importância se lhe dará. E assim a vida desliza na obscuridade, cheia de ocupações não de todo inúteis, mas cuja glória única está em ganhar o pão e só preencher o tempo.

Se nos pudéssemos libertar de tudo isso! Mas não é possível. Ainda não resignada, não compreendendo ou só compreendendo as coisas pela metade, a senhorinha fica aborrecida. Aborrece-se por ter que ser quem é em vez de ser de maneira diferente. Pobre dever, cinzento como o céu de Lyon...

É aborrecido por ser monótono

Evidentemente! A menos que se queira mudar de casa, de profissão e de marido todos os anos, assim terá que ser até o fim. É espantoso que o dever de hoje se assemelha ao de ontem, como se assemelhará ao de amanhã.

Apenas uma pequena interrupção, o domingo (uma vez por semana)... as férias (não para todos) uma vez por ano... O casamento (na maioria das vezes) uma vez na vida... E tudo recomeça novamente... Surgirá daí a frase: “A meada da vida?” Talvez. Nesse sentido, têm razão de assim de exprimir. A vida é isso: uma monotonia. E até a morte, que, afinal, não passa de uma novidade, ao menos para aquele que por ela é visitado.

Porque, para o conjunto da humanidade, também a morte age monotonamente. Imaginem seu gesto de ceifadora, seu balanceio contínuo, essa queda, sem igual, da cabeça inerte sobre os ombros...

O dever é monótono. Como ele o é e o será sempre, a sabedoria manda que se o tome como é e, se nada adianta zangarmo-nos, seria mais acertado aceitá-lo com coragem, caso não se possa fazê-lo com um sorriso.
Muitas, que o compreenderam, aceitam-no. E acontece que essa aceitação torna a monotonia menos monótona, elas acabam por amar a esse dever “sempre igual”.

Outras, no entanto, vingam-se ficando amuadas. Parece-lhes que, com tal proceder, desforram-se e compensam-se. A ilusão seria inofensiva se não prejudicasse moralmente a vida. Perde-se tempo, trabalha-se sem alegria e sem alma. O dever foi praticado sem que se obtivesse o benefício espiritual que daí poderia resultar.

Não é a variedade de dever que interessa. As vidas verdadeiramente belas não são essas em que se encontra o inédito, o imprevisto e o novo.

Aborrecer-se é coisa louca, porque é inútil e até mesmo prejudicial. Insensível à careta que lhe fazemos, a vida continua com seu programa. E acontece que, no fim, por termos ficado amuadas, quando era necessário agir, sofremos e pouco merecemos.

Na mesma essa pobre, a Virgem Maria, durante anos seguidos, fez, dia a dia, o mesmo trabalho, a mesma cozinha, a mesma oração. Ao lado, inclinado sobre tábuas da mesma madeira, Cristo aplainava. Ora, dizia Bossuet, “não existe nada de maior neste mundo do que Jesus Cristo”... Naturalmente que não!

Há quem amue com a consciência

Culpada, medíocre, covarde e um pouco envergonhada de ser tudo isso, a consciência não está do lado dela. Não é, pois, feliz. Ela está contra si, assustada. O interior de si mesma está dolorosamente divido. A consciência acusa o coração. O coração despreza a consciência.

Também a alma se aborrece, pois não é bastante generosa para descansar em sua vitória, nem bastante vencida para se conformar com a derrota. Ela se amargura ainda com a nobreza que lhe resta e a precisão de vistas que não a deixa ignorar.

Seria tão simples não ter remorsos, pecar sem constrangimento, deixar de ouvir a voz lancinante, lançar seus apelos! Porque esses golpes repetidos à porta da casa onde ela desejaria divertir-se desenfreadamente? Porque esse olhar penetrante no canto do quadro onde desejaria gozar livremente? Porque essa mão que desperta a alma quando seria agradável dormir tranquilamente? Porque esse sussurro no ouvido esquerdo, quando o direito escuta uma confissão de amor?

Existem, entretanto, algumas que riem a bom rir e, em seus prazeres, por eles ficam dominadas, não tendo nem um minuto disponível para se concentrarem um pouco e se julgarem.

Essas têm sorte!...
Mas não falemos nelas.

Ora, um minuto de clarividência, bendizem seu tormento – sinal de vida – ora, nas horas sombrias, o amaldiçoam. Há quem amua com a consciência, senhora tirânica, incorrutível testemunha. Aborrece-se com aquela que não deixa ninguém sossegado e cujo prazer se diria consiste em importunar as pessoas e cujo ofício está em irritá-las.

E nisso há um fundo de verdade. Existe, na consciência, alguma coisa do estudo atento, alguma coisa do juiz instrutor, e muita coisa da mosca que nos importuna em noites de calor.

Ela aborrece pelo que é, pelo que quer, pelo que proíbe. Mas, apesar de tudo, ninguém ousa abafá-la. Deixa-se que respire profundamente e isso impede de dormir. Receia-se expulsá-la. E ela aí permanece, pertinho, tão perto que chega a penetrar no íntimo da pessoa, o que impede de ficar só. Faltando a necessária coragem para entrar em acordo com ela, pelo simples ato de submissão, fica-se amuada com esse estranho mau humor espiritual de que muitas almas, nascidas para a bonançosa paz, se fatigam sem proveito algum.

E é justamente o contrário, o que deveria ser feito. Quantas vezes somos castigados pelas pessoas que nos amam! O médico que nos opera, cura; quem nos adverte, preserva; quem nos faz mal, faz-nos bem.

Querer mal à consciência pelo papel que representa e continuará representando apesar de todo o nosso mau humor, é querer mal ao próprio Deus porque Ele Se resigna com nossas mediocridades e porque quer arrancar do coração um estilhaço de granada. Há, portanto, de Sua parte, uma prova constante de interesse e de fiel amor. Preferir-se-ia que Ele se calasse, que a chama ardente das íntimas censuras esfriasse no fundo da alma. Mas, desejando-se isso, que é que se quer? O fim da única verdadeira vida.

Se nos tomassem ao pé da letra, que catástrofe! Se, uma noite, a consciência, cansada de tanto mau humor, desistindo de ver um sorriso corajoso em seus lábios e sentindo que ela vos aborrece, se dispõe a ir-se embora por uma vez e para sempre, será a morte para a alma! Tornamo-nos culpados sem o saber. Onde encontrar esse sagrado mal-estar que é o começo da salvação porque provoca arrependimento e esperança? De onde virá o pensamento de sair de um túmulo que se acredita seja um bom leito? Quando se é culpado e se está sossegado, covarde, mas altivo, desonrado, mas feliz, está-se mais perdido que nunca. Naturalmente, não se vai procurar uma corda para nos enforcarmos, pois “tudo vai indo muito bem” (?) e nisso se tem razão, mas, também não se chamará o Salvador para, do alto do precipício, lançar a corda da salvação, e isso é que é de lastimar.

Divina consciência, cujas mãos deveriam ser beijadas na hora mesma em que nos castiga! Louca, três vezes louca, a jovem que com ela se zanga. Não sabe o que faz, como também não o sabiam os fariseus quando criticavam a Jesus.

Entre vocês, jovens cristãs, quantas há que se aborrecem com a consciência? Se fossem marcadas com uma cruz negra pelo anjo do Senhor, quantas não trariam a cicatriz no fundo do pobre coração?

Há quem se aborreça com os chamados de Deus

A consciência é a angustia de se sentir culpado e a recusa oposta aos nossos desejos de ilegítima tranqüilidade. O chamado de Deus é, para nós, a culminância do progresso, o tormento do ideal, a passagem no fundo da vida, de um ser misterioso que, com um gesto, nos indica as alturas!

Não possui os mesmos sons, a mesma intensidade, nem insiste na mesma freqüência com todas as almas.
Porque os desígnios de Deus são individuais, individual é a missão de cada um, os caminhos são diversos, como diversas são as agruras da estrada.

Entre quinze e vinte anos, como soa nas almas o sino do Senhor! Sino dos domingos, chamando a vida à piedade. Sino das bodas, chamando à vida religiosa. Sino dos funerais, que ressoa ao apelo do sacrifício.

E, quando se é inteiramente generosa para com o sino de Deus, logo que ele bate, a jovem levanta-se e, sem hesitar, dirige-se alegre e confiantemente para onde Ele chama.

Quando não se tem coração para responder, embora o ouvido o tenha escutado, fica-se aborrecida.

É o caso do preguiçoso que reclama quando, nas manhãs frias de inverno, precisa deixar a cama. O caso da jovem leitora, encantada com o romance que tem nas mãos, e a quem a mãe pede para varrer a casa. O caso do coração que bate em compasso de amor e que, bruscamente, é interrompido.

Quando se está bem num lugar, porque não virar as costas a quem atrapalhar? E quando se está calmamente bordando num quarto ensolarado, como não indignar-se contra o vento que abre a janela num rompante e contra a voz longínqua que ordena andar só por um caminho coberto de neve?

Foi deste modo que o jovem do Evangelho se aborreceu quando Jesus disse: “Vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e segue-Me”.

Em se tratando dos outros, reconhece-se, teoricamente, que semelhante chamado é uma honra, que a vida melhor é a única digna de ser vivida, que o sacrifício enobrece, que é, até, o mais seguro caminho para a felicidade, e que aquelas a quem o Mestre chama devem ser invejadas. Desde, porém, que se é a escolhida pelo Mestre, quantas vezes não se muda de opinião? O olhar se entristece, os lábios tremem, a fronte cai. Pensa-se minuciosamente em tudo que se terá de sacrificar e em tudo que se terá de sacrificar e em tudo que não mais se poderá fazer. E sentimo-nos tão mal!

O apelo de Deus é exigente
Há quem amue com essas exigências

É coisa inevitável: corresponder a um primeiro chamado é expor-se a ouvir um segundo mais forte. Diante da alma abre-se a perspectiva de um “sempre mais” que atemoriza. Para que isto se verifique, não há necessidade de que o Mestre chame ao Carmelo. É suficiente que Ele, dentro ou fora do mundo, chame a uma vida menos medíocre, a uma vida cuja meta se desconheça, que a conduza por uma íngreme ladeira, coisa que fatiga e, de antemão, desencoraja. Pensa-se naquelas que não foram escolhidas por Cristo e, no entanto, Este, com Seu misterioso amor, parece satisfazer-Se com o pouco que Lhe oferecem. Fica-se com inveja delas. Apreciam-se as que Deus deixa tranqüilas e às quais permite comer, em amargura, o pão dos prazeres cotidianos. Elas dançam, sem que a consciência as acuse, amam, sem que uma voz as perturbe, semelhante ao grito de um ferido dentro da noite.

Pelo exemplo que têm das outras, estão certas de que se, ao invés de amuarem, aceitassem de boa vontade, seriam logo recompensadas. Mas, do saber ao querer, há um grande caminho a trilhar e, enquanto se espera passar de um para o outro, não existe outra coisa a fazer senão amuar.

Além disso, o chamado de Deus significa sacrifício... o sacrifício aborrece.

Se Deus quer transformar-se numa bela realização, quantas coisas, grandes e pequenas, se tornam obstáculos à sua obra!

Impossível é viver a verdadeira viva sem morrer aos poucos. Para se transformar em estátua, o bloco maciço terá de suportar os golpes do martelo. A alma só empreende o vôo para as alturas se arrancar o visgo que a ela adere, se desprezar o alforje pesado, cortar o fio que a aprisiona. Ora, o fio a cortar está preso na carne viva; no alforje está o pão cotidiano dos prazeres, suave de levar; e este visgo que a ela adere é a alegria humana de viver.

A lei do sacrifício é absoluta para aquelas que foram escolhidas por Deus, se aceitam.

Eis porque, na impossibilidade de modificar o programa e, ao mesmo tempo, não podendo transformá-lo a seu bel-prazer, torna-se o ser atormentado, abalado, não sabendo a qual dos dois senhores seguir. Nem a um nem a outro responde “sim” ou “não”. Espera, retarda o tempo. E, até chegar a hora do êxito generoso ou da derrota covarde, amua... Não poderia Ele levantar um método mais brando, menos rude?

De maneira que, nesse mau humor, há, ao mesmo tempo, a censura feita a Cristo por agir assim e nos ter escolhido, a nós, para realizarmos o que traçou.

Loucura, esse mau humor. Mas que adianta dizê-lo à interessada?... Ela bem o sabe. Sabe-o demasiadamente. E o sabê-lo torna-a ainda mais mal humorada porque, às duas razões que tem para se aborrecer, junta-se ainda uma terceira que é a de não ignorar sua loucura.

E até quando durará esta situação? Até que ela ceda inteiramente e, aceitando, encontre o segredo de ser feliz... Até que ela recuse inteiramente e, enfim, encontre o segredo da audaciosa tranqüilidade... São possíveis as duas conclusões. Mas ambas não se equiparam. A primeira é um passo triunfal para a sabedoria, ao passo que a segunda, jovem, é um passo a mais na loucura...

(Jovens: Vocês e a vida, coleção moças pelo Fr. M. A. Bellouard O. P, Edições Caravelas LTDA, RJ, ano de 1950)

PS: Grifos meus.
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