terça-feira, 1 de março de 2011

O pecado do Sacerdote

O pecado do Sacerdote


I – Filho, entra em ti mesmo e considera quão grande mal é num Sacerdote o pecado.

Tu não pode negar que o conheces; mas, desgraçado! De que te serve dizer: eu bem o conheço, eu o sei dizer e pregar aos outros; e até vangloriar-te e jactar-se diante dos seculares: eu sei o que faço, e o sei melhor que vós, se a tua ciência te não aproveita?

Ah! É certo que o sabes, e tanto, que quase Me pesa de haver-te dado tantas luzes, haver-te feito depositário da Minha Lei, e interprete da Minha doutrina, visto que de tudo fazes o mais horrendo abuso!

Conheces, filho, a graveza do pecado, e comete-lo? Conheces que Eu sou infinito em todas as perfeições, e preferes-Me a uma vil criatura?! Conheces a vaidade do mundo, e ama-lo mais que a Mim?!

Conheces a grande divida que contraíste com o sacerdócio, e assim o desprezas e profanas?!

Tantos leigos, menos instruídos e de menor capacidade que tu, tremem só ao nome do pecado, e tu cométe-lo com tanta facilidade e satisfação?

Ah infeliz! Não vês que para te condenar basta-Me só produzir contra ti teu mesmo testemunho; e que tuas mesmas palavras acusam e condenam a tua grande iniqüidade?!

II – Filho, que mal te fiz Eu, para que assim Me injuries? Pelo contrário, que maior bem te poderia Eu fazer, que se não fizesse?

Dei-te mais talentos, mais comodidades, mais tempo livre para me servires, que aos outros, sabes que te escolhi, não só para Meu amigo e filho querido, mas também para Meu ministro, e despenseiro dos Meus mistérios, e até para Meu coadjutor na salvação das almas (1); sabes que te amo e considero como as meninas dos Meus olhos; e pagas-Me com pecados?! Agradeces-Me com ofensas?!

Se outros tivessem recebido as graças que te tenho feito na Minha Igreja; se do pó da terra tivesse levantado algum outro ao sacerdócio, como fiz contigo, com que fervor e gratidão Me teriam correspondido?

A só leitura dum livro santo, um só sermão, uma só Confissão, uma só Comunhão bem feita, abrasou tantas almas, e bastou para as fazer santas; e tu, mais favorecido que elas, com tantas graças, com tantos estímulos, com tantos meios, serás mais ingrato?!

III- Que Me ofenda um turco, um infiel, um herege, é um grande mal; que Me ofenda um católico leigo, é maior mal; mas quanto maior e mais horrendo é que Me ofendas tu, Sacerdote!

Tu, que devias empenhar-te em defender-Me de tantas ofensas que recebo no mundo, e devias conduzir os outros ao Meu amor; tu, que te obrigaste a combater o pecado, e amar-Me com especialidade; tu, dedicado a Meu culto na Prima-Tonsura, e a Mim ligado com voto solene no Subdiaconato; tu, que fizeste especial profissão de servir-Me; tu, a Mim inteiramente consagrado nos mais augustos ministérios do sacerdócio; tu... em vez de amar-Me e ter Comigo um só coração, na Minha presença, em Minha mesma casa, e alimentado todos os dias à Minha mesa, tens coração para ofender-Me?! E ofender-Me não uma só, mas tantas e tantas vezes, e até muitas vezes fazer que outros Me ofendam; e isto com sobeja advertência!... (2)

Ó perversidade! Ó ingratidão! Ó perfídia!

Merecias ser despojado de todas as Minhas graças, das Minhas luzes, do Meu sacerdócio; não obstante tenho-te sofrido, e ainda nesta hora te estou chamando a penitência; terás ânimo de continuar a ofender-Me?

Fruto. – Desperta o teu entendimento com freqüentes meditações, e excita o teu coração a uma sincera contrição e emenda com afetos e resoluções práticas; porque todo o teu mal nasce de não refletires nem meditares nas coisas santas com o coração.

Não abuse do tempo que Deus te concede. Aproveite-te deveras do grande benefício da santa Confissão, correndo pressuroso a lavar-te naquele divino Sangue.

Um sacerdote, que, favorecido com tantas luzes e com tantos benefícios particulares, não se melhora, de certo há de sofrer justissimamente maiores e mais duros suplícios na eternidade.

São Francisco de Sales, dizia, tremendo: "Ser Sacerdote é uma grande coisa; a qualidade de Anjo não merece tanto respeito. Oh! quanto convém examinar-me e provar-me atentamente antes de consagrar o Corpo e Sangue do Filho de Deus, afim de que (notai estas palavras) não encontre no fundo do Cálice sacrossanto a minha condenação!"

Notas

1-     Dei sumus adjutores. (1ª ad Corinth. III, 9.) – Ministros Christi, et dispensatores mysteriorum Dei. (Idem, IV, 1.) – Pro Christo legatione fungimur, tanquan Deo exhortante per nos. (2ª. Ad Corinth., V, 20.)

2-     Si sacerdotes fuerint in peccatis, totus populus convertitur ad peccandum. Quemadmodum vero cum videris arborem pallentibus follies marcidam, intelligis, quia aliquod vitium habet in radice; ita, cum videris populum indisciplinatum et irreligiosum, sine dubio cognosce, quia sacerdortium ejus non est sanum. (Chrysost., Op. Imp.)

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)

PS: Grifos meus.