domingo, 27 de março de 2011

Flirtar é divertir-se com a própria consciência

Flirtar é divertir-se com a própria consciência


 A consciência
O que é?

A consciência é, em nós, o sentido do bem e do mal, a guardiã da vida moral, o guia prático de nossa vida cotidiana. É a voz interior que diz: “Faça isso, não faça aquilo”... É a testemunha, talvez silenciosa, mas atenta, que nos vê viver, lutar, ceder, vencer, pecar. E o juiz impiedoso que, realizado o ato, absolve ou condena, repreende ou felicita, tranqüiliza ou maltrata. Segundo a circunstância, é por meio dela que sentimos o direito de nos orgulharmos ou o dever de corar. Por causa dela, a alma febril não pode dormir nas noites culposas. A alma contente dorme placidamente nas noites de pureza.

Tê-la a nosso favor, mesmo nas provações, é o segredo da felicidade. Tê-la contra nós, mesmo no meio dos maiores êxitos e dos mais rasgados elogios, é o segredo roaz que estraga toda alegria. Se Judas desespera, é porque sua consciência o condena. Se os mártires exultam, é porque a consciência os abençoa.

O que vale

É a única fortuna que possuímos, nosso mais precioso tesouro. Nada a substitui, porque nada lhe chega aos pés. Enquanto a possuímos intacta, é o supremo refúgio em que se encontra segurança e força para viver. Última estrela no céu interior, enquanto estiver iluminada, a gente vê como andar, e a estrada apresenta-se cheia de luz.

Uma vez morta, que importa que em nós tudo esteja iluminado?... Tal qual como, numa família unida, a morte da filha única deixa um tal vazio que não poderá ser preenchido por montanhas de dinheiro...

As pessoas honestas apreciam-na mais que a outra qualquer coisa. E tem razão. Seu valor é tão grande que, para salvá-la, deve-se preferir perder tudo e nunca se deve pensar em perdê-la, embora se ganhe com isso o próprio universo...

O único lugar digno dela é o primeiro. Porque é a dona da casa, a rainha do secreto reinado. Obedecendo unicamente a Deus, manda em tudo mais. Reduzi-la ao papel de empregada ou de simples dama de companhia, é desconsiderá-la e desonrá-la. Foi feita para levar o cetro e não para servir à mesa. Somos nós que nos devemos curvar diante dela e não ela diante de nós.

Suas grandes qualidades

Primeiramente, é ser clara, distinguir nitidamente as coisas, ver branco quando, de fato, é branco, ver preto quando é preto, sem o que não saberia para onde orientar a vida, nem o que deveria ordenar ou proibir deixando de ser o guia de confiança.

Em segundo lugar, ser leal, o contrário de mentirosa e hipócrita. Não se lhe pergunta o que agrada, tranqüiliza ou diverte. Pede-se-lhe que diga, seja agradável ou não, o que é e o que deve ser. Se se torna cúmplice das paixões, se lisonjeia quando deveria acusar, se dorme quando deveria vigiar, se tranqüiliza quando há perigo, trai sua missão, perde a razão de ser, e nada há que fazer com ela.

Finalmente, ser forte. Mais forte do que nossos caprichos e interesses, forte com a força do dever e da verdade. Se cede a nossos desejos, se se deixa apiedar de nossas lágrimas, se sempre nos aprova para não nos magoar, se, como meninota sentimental, se enternece com nossas carícias e, enfim, na luta íntima, deixa cair das mãos a bandeira que tem por missão erguer bem alto, custe o que custar, não é mais o que deveria ser e essa derrota, que significa a vitória das paixões, é a morte de nossa vida moral.

Flirtar é divertir-se com a consciência

Se assim é a consciência, tal sua nobreza e valor, vê-se bem o crime que se comete fazendo dela um brinquedo.

A consciência... um brinquedo! Se, depois de Deus, houvesse deusas, seria ela a mais divina de todas! Encarregada de nosso destino, indicadora de nossos caminhos, responsável por nós, que somos imortais, seria sobre um trono, entre lâmpadas, que a deveríamos instalar a fim de venerá-la respeitosamente, e não sobre uma raquete para no jogo a fazer dançar insolentemente.

Mais ainda do que o coração, do que é salvaguarda e lei, merece uma religiosa veneração e um trêmulo receio de não a deixar profanar. 

Ora, quem “flirta” diverte-se com a ela. Diverte-se com ela. Porque, comumente, previne as jovens puras que iniciam um “flirt”. Discreta ou violentamente, tem um protesto secreto que a interessada ouve perfeitamente bem e que é bastante significativo para que não se compreenda o que quer dizer. Como um tilintar de campainha na noite calma, o perigo se anuncia. Eis proposto o problema. Ei-lo resolvido para quem tomou como princípio nunca desprezar a consciência. Mas, para quem não coloca a consciência acima de tudo, eis a ocasião de se divertir com ela.

E a brincadeira se inicia. E a brincadeira continua. Brincadeira cínica e imprudente, durante a qual submete-se a consciência a todos os matizes do “flirt”. Se ela se inquieta, é logo serenada. Se amua, é logo amimada. Se protesta, tapa-se-lhe gentilmente a boca. Se chora, dá-se-lhe um bombom. Se fica zangada, dá-se-lhe de ombros com um sorriso. Diz: “Isso é mau!” e responde-se-lhe: “Ah! Não é tanto assim!” Se se queixa e diz-se-lhe: “Não é nada!” Insiste, e se lhe responde: “cala-te!

É assim ou não é? É ou não brincadeira com a consciência?

Resultados da brincadeira

A brincadeira prossegue. Para chegar ao que? É simples. E inquietador.

- Uma bela consciência é uma consciência clara. O primeiro resultado da brincadeira é sombrear a consciência e insensivelmente torná-la incerta, confusa, indecisa.

Cada vez menos distingue o bem do mal, o permitido do proibido. Perde o sentido das “nuances”. As cores não se destacam. As tintas não sobressaem. As linhas se misturam. Vê tudo turvo. Como na guerra, em noites de cerração, as sentinelas tomavam os salgueiros por homens, também ela quase que involuntariamente toma o prazer por dever.

Não sabendo muito que deve pensar, não sabe muito mais o que deve dizer. E, quando fala, palavras inarticuladas saem de uma boca pegajosa. No lugar dos “sim” ou dos “não” de antigamente, multiplica os “pode ser” que parecem aprovar, quando, de fato, condenam e condenar o que, de fato, aprovam.

É vida moral sob um regime vago e incerto. E para ela, é o pior dos regimes. Enquanto isso, na alma, qual paisagem brumosa, tudo se mistura e confunde, auxiliado pela obscuridade cada vez mais, o inimigo mortal pode insinuar-se sem mesmo se fazer notar...

Que pensam desse resultado? Sinceramente...

- Uma bela consciência é uma consciência é uma leal. A segunda conseqüência da brincadeira é tornar cúmplice aquela que deveria permanecer como juiz.

Confessem que se trata de uma coisa excepcionalmente grave. Na vida social, isso representa o fim da justiça, a impunidade assegurada aos culpados quando audaciosos, o direito recusado aos inocentes quando tímidos.

Na vida moral, onde os interesses são infinitamente mais sagrados, os resultados são ainda mais deploráveis.

No “flirt”, a pobre consciência, virada e revirada, seduzida e ameaçada, lisonjeada, comprada, acariciada, rodeada de súplicas, como uma primeira concessão, a ser obrigada a muitas outras. Adapta-se, um pouco por piedade, um pouco por fraqueza, um pouco por condescendência, um pouco na esperança de tudo amoldar. A princípio, um tanto dificilmente e atormentada por um secreto mal estar. Mas os sentidos, interessados no assunto, contam com um terrível poder de persuasão. A sua voz, embora grosseira, o coração junta a sua, meiga e bela. E como não se deixar cair na rede? A vítima tem um ar tão atraente! A acusada possui tal sorriso! E, pouco a pouco, sempre resmungando, a consciência ensaia os primeiros passos, formula algumas concessões sabiamente dosadas, autoriza “por algum tempo determinado”... “com certas medidas”... “mediante certas garantias”... etc., etc. Mas, por fim, consente. E era justamente isso o que não deveria ter feito, receando, por palavras de boa acolhida, vir a ser a vítima de sua sedução.

E é o que acontece, efetivamente. Inicia-se, assim, o período das acomodações, de benévolos acordos, das negociações suspeitas, em que o pecado é o comprador e a lei moral posta à venda.

Chega o dia em que o incorruptível se deixa corromper. Aquela que há pouco tempo proclamava: “Isto é proibido”, diz agora: “É desculpável” e, enquanto o coração, saboreando os prazeres, murmura: “Como é bom!”, a consciência contenta-se em suspirar: “Não é tão mau assim...”

- Uma bela consciência é uma consciência forte. A terceira conseqüência da brincadeira é enfraquecê-la a tal ponto que, inútil e impotente, é como se não mais existisse.

A consciência fortifica-se em cada vitória que alcança e enfraquece em cada derrota que sofre. Entre os criminosos convictos verifica-se que, a princípio, sofrem verdadeiras agonias de remorsos, passam por horas de tortura e vergonha, e depois, progressivamente insensíveis, acabam numa admirável serenidade. Diz-se, então, com referência a eles: “Não têm mais consciência”.

E é certo, não mais a possuem e, se a têm já está morta. É um cadáver inerte e dessecado que trazem consigo e neles se cala, imóvel, como calados estão os mortos. Moralmente falando, é um homem morto. Ora, acabar desse jeito é o pior modo que a alguém possa acontecer. Seu caso é desesperador, pois, para renascer, seria necessário arrepender-se; para arrepender-se, seria necessário sentir o mal cometido e, para senti-lo, é-lhe necessária uma consciência, consciência esta que não mais tem.

Guardadas todas as proporções, o “flirt” arrisca-se à mesma decadência, pelo decaimento moral. Ao menos nesse ponto, suas fraquezas são tais como suas concessões, transforma-se em consentimentos, seu hábito de ceder dá-lhe um temperamento de vencida, e, mais cedo ou mais tarde, em lugar de uma justiceira corajosa e franca, que se erguesse contra o mal, nada mais ficou, para dirigir a vida, de que uma doente cansada, resignada com sua impotência, e tirando tristemente partido dos erros que não ousa mais condenar porque não espera mais impedir. Em alguns momentos, tem sobressaltos de angústia ante a aproximação do abismo, instintivamente ainda ensaia tímidos protestos, que são os últimos lampejos do coração ou os últimos soluços da moral agonizante; nas horas mais loucas do iniciado “flirt” solta um grito que se perde entre o riso dos cúmplices; uma última vez, olhando para dentro de si, parece concentrar-se para expulsar e vencer o inimigo, depois detém-se, não o expulsa, e se estende preguiçosamente, como cadela submissa, aos pés da jovem soberana que lhe sorri.

Comparações poéticas, dirão, e que, para serem mais emocionantes, exageram os casos e os dramatizam tornando-os irreconhecíveis... E as que o sabem, se são sinceras, não confessarão que é assim que se passa comumente a história? E as próprias interessadas, se ainda resta uma luz na noite em que vivem, verão que, no campo da batalha íntima, há uma vítima que aí jaz e, na expressão dolorosa de sua pálida fisionomia, reconhece-se que já foi bela, que muito lutou e se, finalmente, sucumbiu, foi devido às inúmeras feridas provocadas por dois jovens loucos que se divertiam com ela. Ainda parece olhá-los. Mas seu olhar fixo não tem mais chama. Olhar morto imobilizado pelos prazeres dos vivos. Olhar de estátua sobre os dançarinos no baile e que não os intimida nem preocupa porque se sabe que seus olhos são de pedra não vêem e sua boca também de pedra não falará...

Certamente, daí ao crime a distância é grande. Mas é o seu caminho, pois trata-se, incontestavelmente, do caminho do prazer livre, do instinto desenfreado, da espontaneidade sensual entregue a si mesma e, uma vez nesse caminho, ninguém poderá dizer se, arrastado pelo declive e chamado lá e baixo por vozes ameaçadoras, não fará a viagem até o último metro do último quilômetro... Tantas amantes dessa brincadeira esportiva juraram parar e não o conseguiram! No entanto, eram sinceras. E também decididas. Mas nem a sinceridade as resguardou, nem a decisão lhes deteve os passos... Um rochedo cedeu sob suas mãos, uma pedra rolou a seus pés. Queda no abismo...

Se o perigo do “flirt” fosse imediatamente mortal, seria menos perigoso. Haveria recuos instintivos, súbitas emendas, bruscas meias-voltas... Porque, dentre as jovens cristãs, poucas eram as que aceitariam tornar-se de improviso grandes culpadas.

No entanto, muitas delas aceitam vir a sê-los aos poucos. A mesma consciência que deixou escapar um primeiro “sim” prepara-se para dizer vários deles...

Hoje, o sim a um olhar.
Amanhã, o sim a um beijo.
Depois de amanhã, o sim a um abraço.
Finalmente, o sim a qualquer coisa.
O primeiro sim para causar prazer.
O último para não causar tristeza.

 Do primeiro ao último, todos os sins que se dirão simplesmente, porque já e o disse alguma vez, e, tendo aparecido pela primeira aceitação para conferir direitos, uma última surge como cumprimento de um dever...

Aí chegando, pode-se esperar tudo e, de fato, a experiência o confirma, não se esperava tanto quanto realmente aconteceu...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Frei M. A. Bellouard O. P. / coleção moças; edições Caravelas LTDA, 1950, continua com o post: "Flirtar" é divertir-se com a alma)

PS: Grifos meus.