quarta-feira, 30 de março de 2011

Flirtar é divertir-se com a alma

Flirtar é divertir-se com a alma


Denomino alma a fonte profunda e misteriosa da nossa atividade moral, intelectual e religiosa. É por meio dela que a graça de Deus chega até nós para nos santificar. É nela que Deus reside. É ela que estabelece uma admirável intimidade entre Deus e nós. É por ela que O chamamos Nosso Pai e por ela, efetivamente, é que somos Seus filhos. É o que temos de mais grandioso e imortal. Anima nosso corpo, mas também tem sua vida própria, vida esta que vale tudo. A fim de salvá-la, nenhum sacrifício é demasiado, e, para desenvolvê-la, nenhum esforço deve ser recusado.

Brincar com ela equivale, pois, a brincar com seu eterno futuro. Será uma sinistra brincadeira, se acreditarmos na palavra de Jesus Cristo: “De que vale ao homem ganhar o universo se vier a perder sua alma?

Ora, a alma está aderente ao coração e este, por sua vez, depende de algum modo dos sentidos. Também o “flirt”, brincadeira do coração e dos sentidos, pode, igualmente, transformar-se em brincadeira da alma.

A alma perde o gosto pelo invisível

Com essa brincadeira, a alma desenvolve insensivelmente o gosto pelo que é visível e, na mesma proporção, perde o atrativo pelo invisível, que, segundo o que diz São Paulo, é o verdadeiramente real.

Ela empreende uma viagem de ternura para as baixezas, aprende a deslizar e, depois, a rolar. Em vez de ser a coisa impelida pelas asas e que plana, torna-se a coisa puxada por patas pegajosas.

As imagens voluptuosas flutuam na paisagem interior. Os sonhos que antes divagavam no mistério recolhido, à procura de Deus, agitam-se, ansiosos e atormentados, nas nuvens de recordações suspeitas.

A Igreja não é mais o lugar abençoado em que se rezava, cantava, ouvindo a alma para amar, é o lugar sossegado em que se passa um longo tédio. Seu silêncio inquieta e faz fugir. Suas cerimônias cansam e logo nos desinteressam. Sua calma, em que Deus habita, parece vazia porque falta alguém, alguém cuja presença, cada vez mais indispensável, traz consigo a única felicidade que se espera para o futuro.

Certamente, a jovem mudou muito. Mais do que ela diz, mais do que pensa. Quando se lhe observa isso, protesta, talvez se zangue ou sorria. Mas de que valem esses protestos contra a evidência que irrompe de toda ela? Pode tentar salvar as aparências continuando exteriormente a ser “como era antes”, mas trai-se em mil outras ocasiões. Escapam-lhe reflexões, que põem a descoberto o segredo de sua alma “ausente de onde anima e presente onde ama”.

Mais tarde, nem mesmo as aparências consegue salvar. Quando as coisas nada mais significam, a espécie de sorriso que se lhes dá não pode continuar indefinidamente. Quando Deus é substituído por outro na vida e passa a valer cada vez menos, é preciso que isso se torne conhecido. Aliás, é uma questão de sinceridade.

A menos que sejais de uma hipocrisia revoltante, sentir-vos-íeis miseráveis por prolongar ainda mais tempo essa brincadeira de mentira. E, se a covardia auxilia a sinceridade, como não se tem mais a coragem de ser o que se parece, temos então a coragem de aparecer como de fato somos. Pelo menos é lógico, dirão. Sim, e infelizmente. Porque, para uma cristã, existe outra maneira de ser lógica. Somente essa maneira lhe custará um sacrifício e tal sacrifício não quer praticá-lo, não quer...

A alma perde o gosto pela piedade

Como conseqüência imediata dessa aversão pelo invisível, a alma se afasta da piedade, tanto pelo sentimento quanto também pela prática. Ora, pensando que é principalmente nas ocasiões perigosas que a piedade é ainda mais necessária, como não lamentar essa jovem que se afasta cada vez mais de Deus quando Seu auxílio lhe é mais útil?

No entanto, os fatos aí estão para o provar, ela se afasta de Deus. As comunhões “falam-lhe” menos, e diminui-lhes o número... As confissões, por timidez ou por vergonha, aborrecem-na, e então suprime-as. O exame de consciência só pode condená-la, e ela então deixa de fazê-lo. As meditações, as leituras religiosas entediam cada vez mais, ela então joga o livro para um canto e não o lê mais... Os retiros causam-lhe medo – é bem compreensível, - e ela então não os freqüenta mais... Os ofícios religiosos enfastiam-na, e ela então evita-os o mais que pode. Os sermões arrazam-na, e foge deles... As obras pias, as verdadeiras, são, para ela, trabalhos forçados, e encontra 33 razões suficientes para não mais aparecer...

Digam francamente: não é assim que se passam as coisas nesses períodos da juventude, provisórios ou definitivos, durante os quais o “flirt” ocupa a vida, a absorve e a consome?

Para não ver nisso um inconveniente, por pequeno que seja, é preciso ser bastante ingênuo ou cúmplice de fraquezas tão perniciosas. Mas aqueles que acreditam ser a vida espiritual a verdadeira e única vida não tomam partido assim tão facilmente. Pensam que, ao contrário, o mal é grande, que o séquito que o acompanha é funesto, e que a tranqüila inconsciência que muitas vezes vai a seu lado só pode agravá-lo, pois suprime, na doente, a vontade de curar-se.

Supondo que nada de mais grave aconteça e que, em continuação, depois de perdido o espírito de apostolado e a piedade, não se perca também a fé essencial, já não basta que a vida espiritual esteja em perigo? E que essa, em que antes se admirava uma jovem ardorosa em sua religião, ande agora por uma estrada cujo destino faz tremer? E em que estado se encontrará a filha de Deus já cansada de servi-lO e não tendo mais coração para amá-lO?... A religião pura de Salomão morreu por ter “flirtado” com a idolatria de Moloch e de Baal e de todos os deuses pagãos... O amor de Judas por Cristo acabou por ele ter "flirtado" com o dinheiro dos Fariseus. Quantas jovens cristãs morrem sobrenaturalmente porque sua alma flirta com o coração seduzido, enquanto o coração flirtava com o prazer sensual e, depois, com o pecado?...

A alegre brincadeira transformou-se numa brincadeira fúnebre. Aquela que era a virgem prudente e pura, talvez não mais seja nem virgem, nem prudente, nem pura. E, portanto, também a virgindade religiosa da alma é preciosa. Num sentido, é mais preciosa do que a outra virgindade. Mas, como, ao comprometê-la, se experimenta menos violentamente o sentimento da derrota, sofre-se menos tragicamente ao perdê-la...

Ilusão! Porque derrota existe, visto a fervorosa intimidade com Deus ser substituída por uma indiferença morna num coração entibiado.

Muda a alma para pior

Tudo isso, provoca uma transformação. Seria o caso de felicitações, se houvesse motivo... Mas haverá quem o ouse?

Com efeito, a jovem mudou muito. Ao redor, silenciosamente, o “flirt” teceu sua teia. Cada vez mais enraigados, os hábitos foram adquiridos.

Aquela que, durante tanto tempo, mantinha o equilíbrio, custasse o que custasse, não o mantém mais. Cansada ou enervada de tanto dançar a divertida dança, já atingiu o extremo da corda e é aí que estremece diante da poderosa atração do espaço. Então, rompendo as amarras, deixa-se arrastar pela onda e lança-se à vida na qual se abisma, o “tanto pior” fatal, que tudo aceita, mesmo morrer.

Assombros assustadores

Diante deste espetáculo, alguns se espantam e se aterram. Compreende-se que fiquem aterrorizados, mas não se compreende que se assombrem. Naturalmente, a criança está irreconhecível. Não é mais o que era. Ou melhor, é a mesma, porém estragada; a bela alma ficou-lhe por lá, não se sabe bem onde, nos países insalubres e misteriosos em que reina o “flirt” e onde, dominadas por seu encanto, as consciências apodrecem, os corações murcham, as almas se tornam carnais.

Ficam assombrados. E dizem, modernizando os clássicos: “Como é que o ouro puro se pode transformar num mísero chumbo? Como é que a alma real que, nos dias de sua pureza, voava, vestida de púrpura e coroada de lírios, por entre outras almas amantes e submissas, vai agora, pesada e mesquinha, desprezada e só, toda andrajosa? Que respondam os que sabem, porque explicação existe.

Esta criança chegou aonde chegou porque seguiu o caminho assas conhecido. Espantam-se, e por quê? Seria melhor chorar, pois é bem doloroso. Mas não se deviam assombrar porque aí não há mistério nem milagre. Clara como a luz do sol, o que existe é uma grande imprudência com suas conseqüências, em de deslize em deslize, como atraída pelo declive, desde as alturas para os subterrâneos, dos cumes cheios de neve para os barrancos cheios de lodo, do pico luminoso das águias para a cova dos répteis. A estrela fugiu do firmamento e sua luz embaciada arrasta-se pela poeira das estradas...

Flirtar é divertir-se com um outro

Flirtar é divertir-se com o coração, com a própria consciência, com sua alma, com seus sentidos, mas também é divertir-se com o coração, a consciência, a alma e os sentidos de outra pessoa ou de várias outras. E este segundo perigo é tão impressionante quando o primeiro. Porque se, no segundo caso, o perigo de queda é igual, a esperança do arrependimento é muito mais duvidosa. O tormento implacável das escandalosas, mesmo depois de convertidas, não derivará da sua impotência em converter o “outro”? O carrasco sobrevive à sua vítima. Ele levanta-se e ela permanece hirta...

Nunca poderemos apagar os incêndios por nós mesmos ateados. Seria necessária a miraculosa mão de Deus para que ressuscitassem as pessoas de cuja morte se é autor. Caim olha Abel, compreende e, desesperado, foge. Tendo obtido a graça do arrependimento e, aceitando-a, se recita um ato de contrição, isto não quer dizer que o outro também faça o mesmo... Eis aí razões suficientes para assustarem todo aquele que conserva ainda um pouco de senso moral e se atemoriza com toda razão em frente às responsabilidades que pesam sobre o que é eterno e, talvez, irreparável.

Guardadas as devidas proporções, tal é a situação, no “flirt”, de cada um dos dois com respeito a seu cúmplice... (Se a palavra “cúmplice” lhes parece muito forte, substituam-na por “companheiro da brincadeira”... É a mesma coisa...)

Imaginem a seguinte hipótese, que corresponde à realidade.

São dois. Iniciam junta a sessão. No primeiro ato, um deles, já inquieto e desapontado, não quer prosseguir... E se o outro, que tomou gosto pela coisa, desejar continuar? E se essa recusa em prosseguir só faz com que o companheiro prosseguir só faz com que o companheiro procure outra atriz para com ela continuar o diálogo? E se, a fim de evitar essa conseqüência ameaçadora, ele consente em prosseguir no seu papel, em qual dos casos, se sentirá mais seguro? Em qual deles a responsabilidade não estará empenhada?

São dois. Mas não têm a mesma temperatura sentimental. Com calor idêntico, a madeira queima muito mais depressa que o ferro. Sobre o forno acesso, o alumínio queima, ao passo que o cobre apenas se aquece...

No “flirt”, a mesma lei se verifica. Enquanto um ainda está no idílio, o “outro” já pode ter alcançado o drama.

Um anda com a velocidade de um ônibus, enquanto o outro talvez com a velocidade de um trem-rápido. Um plana no céu calmo, talvez o outro se debata no meio da tempestade. Um sorri amistosamente, talvez o outro tenha sonhos agitados... Um domina-se, talvez o outro se entregue. Um adormece sem sonhar, talvez no outro a febre suba. Um não enxerga mais longe do que a ponta de seu nariz. Talvez o outro pressinta a vida inteira...

São dois, mas não têm o mesmo apetite e não vivem sob o mesmo regime. Um, idealista, contenta-se com o perfume da flor, o outro, mais prático, quer provar o fruto...

São dois... Mas uma, piedosa, encontra na sua piedade uma salvaguarda, em sua fé, um cuidado, em seus princípios, uma luz... O outro, menos religioso, só vê barreiras abertas em caminhos permitidos que convirjam para lugares autorizados.

São dois... Mas um se confessa e se arrepende, o outro não se confessa e não tem remorsos.

São dois... Mas um, que ainda é puro, acredita em sua pureza e não quer perdê-la. O outro, que não mais a possui, não acredita nela e não teme perdê-la...

São dois. Mas um, tímido, não ousa tudo recusar receando pecar. O outro, audacioso, seria capaz de tudo, do pedido e da culpa.

São dois e ambos se divertem. Enquanto divertir-se para um deles consiste apenas em sorrir um pouco, para o outro, que talvez nem ria, quer dizer: brincar até o fim com o brinquedo da volúpia e da morte...

De maneira que dizer que são dois significa, não somente que existe um, depois outro, mas ainda que um não é igual ao outro e que, apesar das aparências oficiais, não é o mesmo problema real que tentam resolver. Esta verificação dá muito que pensar. E, como se impõe a quem deseja ser leal, vê-se bem a que angustiosas conclusões se chega diante da traiçoeira segurança em que se baseia sob pretexto de que “isso não lhes fará mal”... Pode ser que a elas não o faça... mas, e a eles?...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P., coleção moças, editora caravela LTDA, 1950, continua com o post: O "flirt" e suas falsas justificativas)

PS: Grifos meus
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