sábado, 5 de março de 2011

Donzelas cristãs: Vocês e a dança

Vocês e vossas leviandades


Virgens loucas

Numa noite do Oriente, sob as estrelas do céu, cinco jovens displicentemente sentadas num banco de pedra... Hora de sonhos e do primeiro sono que se insinua... Perto delas, a lâmpada apagada e sem azeite...

Esta cinco... Cada qual tem seu aspecto peculiar... Cabelos louros, cabelos negros... Olhos azuis... verdes... castanhos...

Uma grande... uma pequena... outra média...

A única coisa que nelas havia de comum é terem sido todas convidadas para uma festa nupcial, e, enquanto lhes crescia água na boca, ao pisarem no belo festim próximo, adormeceram... Mas como foi brusco o despertar... as lâmpadas estavam vazias, a senha era severa e não puderam comparecer à festa...

O Evangelho chama-as “loucas”... o que não significa “estúpidas”, mas “imprudentes”.

Chamemos a primeira Suzana, a segunda Marta, a terceira Raquel, a quarta Judite, a quinta Madalena... (Não existe aqui alusão alguma... Tanto tomamos esses nomes como poderíamos tomar outros quaisquer).

Numa noite do Ocidente, sob a luz do luar, as cinco ainda continuam no mesmo lugar... Daqui se percebe sua respiração...

Leiamos sua história e, desde que são loucas, tomemos conhecimento de sua loucura.

Marta ou a louca que dança...
Suzana ou a louca que amua...
Raquel ou a louca que ri
Marta!...
Suzana!...
Raquel!

Atenção! Leiam sem saltar uma palavra.

Marta ou a louquinha que dança

A esta palavra caída como uma pedra no lamaçal a jovem se ergue. Surpresa. Indignação. Semelhante a uma serpente espantada, semelhante a um soldado que ouviu o “alto lá!”, ela está de pé. Procura.

Quem é que pronunciou essa frase: “Louca que dança”? Uma voz lhe sussurra ao ouvido: “É o Padre X.” Então ela responde: “O Padre X! Ele disse isso? Ele, inteligente, espírito moderno, conhecedor da vida!... Não, não pode ter sido ele. Ele não faria uma coisa dessas!...”

E, no entanto, foi ele.

Senta-se então na cadeira e, enxugando com seu lencinho branco o suor que cai da testa, pensa tristemente que...

Que... o que?... Que todos esses padres e frades acabaram com a alegria humana... que até mesmo os mais inteligentes dentre eles não compreendem, que os mais indulgentes vêem maldade em tudo, que, com esse método de tudo proibir, despertam o desejo de tudo praticar, e que, justamente por serem por demais rigorosos, dão ensejo a que se lhes desobedeça...

E, tranqüilizada, refeita da emoção que sofreu, tendo “ajeitado a consciência”, levanta-se para o próximo tango.

No entanto, a expressão “a louca que dança” não lhe sai do ouvido. Ela desejaria aprender tudo o que essas palavras não revelam. Saber, também, porque são pronunciadas. Porque deve haver razões para isso. Na verdade, elas existem e bem graves.

Senhorinha Suzana, se é você a “louca que dança”, leia estas páginas com toda a calma, com toda a atenção. Elas não foram escritas nem com estreiteza de vistas, nem com dureza de coração, nem interessadamente. São verdadeiras.

Razões que a dançarina apresenta para se supor “virgem prudente”

Diz ela:

Imitar, a 3.000 anos de distância, os santos personagens da antiguidade, é coisa sábia. Davi, o “Santo Rei Davi”, dançou diante da arca! Acompanhado de tamborins! Punha nisso todo o seu coração, toda a alegria! E Deus se alegrava vendo-o dançar assim! Uma tal dança equivalia a um Te-Deum! Esse Magnífico dançado tinha, para Deus, o mesmo encanto do Magnificat cantado! Davi dançava até não se agüentar mais!... Se sou louca, também ele o era... Ora, Ele não era um louco, logo também não o sou.

Resposta. – Com efeito, se você dançar como ele o fazia, não será considerada louca. Enquanto sua dança se assemelhar à dele, ninguém irá censurá-la. No entanto, vejamos! Davi dançava para Deus, diante de Deus, perto da arca, com toda decência! Você também dança assim? Será mesmo? Tem certeza de que suas danças são como um salmo ritmado e que poderiam ser aproveitadas pela liturgia cristã?

Diz ela:

Ser prudente é realizar uma bela obra de arte. Ora a dança é uma obra de arte complicada, exigente. O rigor das linhas, a graça dos movimentos, a agilidade, o domínio de si, o sentido do belo: nada mais do que isso requer a dança. Uma dançarina é uma artista. Essa arte dá-lhe direitos, evitam-lhe críticas, garante suas boas intenções. Por acaso sou louca quando pinto, quando toco piano, quando canto? Então porque o sou quando danço?

Resposta. - Necessariamente você não o é, mas poderá vir a sê-lo. Diz-se freqüentemente: “A dança é obra de arte”. Algumas vezes ela o é, realmente. Mas não passa disso e nem sempre o é. Mesmo quando é uma linda obra de arte, a moral pode julgá-la e condená-la. Começa como obra de arte e acaba como obra de volúpia, o que não passava de beleza física transforma-se em feiúra da alma, a pureza das linhas muitas vezes degenera em impureza do coração.

É suficiente que haja um senão para que o direito de “realizar uma obra de arte” não equivalha ao direito de dançar. Existem várias distinções entre as danças e as diversas maneiras de dançá-las.

Diz ela:

É prudente procurar um marido ou fazer com que ele nos procure. A não ser assim corre-se o risco de ficar solteirona. E eis a “Virgem louca” só, triste, inútil, lograda. Ora, é nos bailes que se encontram os maridos. Conclusão: dançar!

Resposta. – Também fora dos bailes se encontram maridos e fora dos bailes que os melhores rapazes encontram as melhores jovens. Sem contar os casos em que, ao invés de encontrar no baile o marido procurado, perde-se, porque não era ali que ele a procurava.

É preciso que se encontre para que se veja, é preciso que se veja para que se conheça, é preciso que se conheça para que se ame, é preciso que se ame para que se case... Sim... Mas a sala de baile não é o único lugar para os felizes encontros. Embora o fosse, isso não serviria de razão para se dançar qualquer coisa e de qualquer jeito...

Diz ela:

É ser prudente distrair-se, distender os nervos, quebrar um pouco a monotonia da vida, cansar sadiamente o corpo... Vive-se mais, dorme-se melhor, entedia-se menos... E, enquanto isso, não se fala mal do próximo.

Resposta. – Por favor, deixemo-nos de histórias: “Não se fala mal do próximo”. Como se, no baile, nunca se falasse, e como se, fora dele, se falasse sempre!

Mas se, para se distrair, distender os nervos, cansar o corpo, é preciso dançar (???), por acaso as danças suspeitas especialmente as audaciosas e suspeitas, mantêm esse monopólio? Será só interessantes os livros indecentes? Isso é sinal de que a indecência parte da própria pessoa. As danças proibidas serão as únicas interessantes? Sinal de que, moralmente, já não se é grande coisa.

Diz ela:

É ser prudente seguir a época em que se vive e não querer sobressair. Em caso contrário passa-se por original e, com o pretexto de obedecer à Igreja, o que se consegue é que ela seja malquista.

Resposta. – Isso tudo está sendo dito sem raciocínio. Seguir sua época, pertencer ao mundo em que se vive! Todas essas frases encobrem um desejo secreto e, à sua sombra, cometem-se as maiores infâmias. A moda não faz a moral. O êxito não transforma o mal em bem. Segue-se sua época com a condição de seguir, igualmente, a consciência. Pertence-se ao mundo desde que este não perturbe a vida cristã. Existem singularidades que se impõem originalidades que limitam o dever. Sem o que, cada vez mais subjugada, transforma-se a jovem no ser capaz de tudo o que o mundo e a época fazem. E isso é muito grave. Em estilo evangélico, denomina-se a isso “blasfêmia”.

Se não existe diferença, na dança, na leitura, no amor, no prazer, na vida íntima, entre uma cristã e uma mundana, mesmo quando essa cristã faz “parte do mundo”, para que então o cristianismo? O paganismo seria suficiente para a humanidade.

Em resumo, considerando a dança de um modo abstrato, ela não é má. Dançar não é pecado. Praticamente, dizer isso nada significa, pois não se dança no abstrato. Dança-se em hora determinada, em determinada atitude, em determinado lugar, com determinadas pessoas, e determinada dança. É então que o problema se torna cada vez mais importante e que se pode, segundo as circunstâncias, limitar-se ao permitido ou atingir o proibido.

Tal é o pensamento exato da Igreja, que assim resume sua aplicação: ou você tem o direito de dançar deste modo; ou você não tem esse direito.

Razões pelas quais se pode chamar a dançarina “virgem louca”

1º- Quando desobedece à Igreja, é louca moral e religiosamente.

Creio não precisar demonstrá-lo, supondo já ser coisa aceita. Deveria bastar a uma jovem católica que proibições categóricas tenham sido feitas. Ignorá-las voluntariamente não dispensa a obediência, conhecê-las, a ela obriga.

O mundo acolhe essas proibições com uma gargalhada, embora vários incrédulos tenham bendito a Igreja por havê-lo feito.

Nada de estranhável nessa atitude do mundo. Está no seu papel. Infelizmente, porém, distinguimos o riso de cristãs que fazem eco com o mundo. Eis o que entristece e inquieta, sem, contudo, surpreender muito.

Porque, se riem desta vez, rirão outras mais, rirão contra a Igreja todas as vezes que o mundo o fizer, e este rirá sempre. Também a dança perdura. E, como não são as cristãs que cristianizam o mundo, é o mundo que mundaniza as cristãs. Com ele estão de acordo. São indulgentes. É a ele que obedecem, às suas exigências é que cedem.

A prudência, nas mães em primeiro lugar, e nas jovens depois, estaria em responder claramente: “sim” à Igreja e “não” ao mundo. Mas isso não se faz. E o resultado é que tudo se passa como se a Igreja nada tivesse dito.

Certas vezes, algumas jovens tentam sacudir o jugo e, timidamente, recusam-se a dançar as danças proibidas. Mas são logo censuradas por outras mulheres, algumas vezes por sua própria mãe ou companheiras, que se irritam e zombam delas. E as que desejariam, por escrúpulo da consciência, manter-se afastadas do baile, a ele são como que jogadas.

Onde está então, ó jovens, o ataque libertador? Porque – respondam! – porque as mesmas danças, de idêntica maneira, com as mesmas audácias, são dançadas em vossa casa e na casa dos outros? É normal? “Se o sal perder a força, com que se salgará então?”

2º- É louca quando se liberta das benéficas imposições da lei moral.

A lei moral rege tudo, o íntimo e o externo, o desejo, a palavra, o gesto. Aquilo que ela condena, mesmo que seja absolvido pela paixão, é condenável.

Segundo esta lei, certos gostos são verdadeiros pecados, não só porque o cometem como também porque a eles convidam.

O mesmo se passa com determinados olhares.

Existe, pois, uma lei que rege a convivência entre as pessoas, as aproximações corporais e as carícias. Verifica-se aí imprudência, provocação ou ponto de partida para inevitáveis tentações.

Se todas essas coisas são tão verdadeiras fora da dança, porque não o seriam no baile? Será o perigo menos real aqui do que lá? Só a ilusão ou a inconsciência poderão responder afirmativamente. Bastará ao fraco iniciar uma dança para se tornar forte? Certas presenças e certas vizinhanças, que comumente perturbam, transformar-se-ão em inofensivos calmantes, logo que iniciado o baile e empreendida a dança? Pode-se, ao mesmo tempo, ser sincero e acreditar nisso? Demonstrou acaso a experiência ter sido assim algum dia? Ou é justamente o contrário?

Dizem que, uma vez iniciada a dança, uma vez que se entregam inteiramente à sua arte de dançarinas, não cogitam mais de praticar o mal. De onde vem esse inesperado privilégio?

Em certas danças, pode-se, com efeito, admiti-lo. E é por isso que a Igreja não pensa em condenar todas as danças, só impõe suas condições. Mas o que denominam “danças modernas” serão elas puras, decentes, respeitosas? As interessadas que respondam, só lhes pedimos que sejam leais. E creio que reconhecerão, sem grande dificuldade, que o cortejo do pecado original também entra com a dançarina pela porta do baile, que também ele freqüenta o baile, aí trabalha sutilmente, talvez apaixonadamente, e que em nenhum outro lugar a fraqueza humana está tão em contato com o perigo de morte.

São raras e felizes as exceções que encontramos. Mas a regra geral é a mesma. Não é a Igreja que dita as proibições, mas sim a própria lei moral de que a Igreja é fiel guardiã. O capricho, a paixão, os hábitos adquiridos injuriam a Igreja, mas a consciência lhe dá toda a razão.

3º- É louca quando se expõe ao grave e imediato perigo.

Dizem as dançarinas em sua candura (?) suspeita: “Não há perigo!”

Seria o mesmo que dizer não existir perigo algum na vida. Muitos o dirão prazerosamente, mas são justamente esses para os quais não existe fruto proibido porque, para eles, não existe bem nem mal, virtude nem vício, e só estimam o prazer, sentido aqui ou ali. Ora, o perigo existe. Nem a boa vontade de evitá-lo, nem a presença dos pais e amigos o suprimem radicalmente. O espírito está pronto, mas a carne é fraca. Os olhares maternos são indulgentes e distraídos.

A luz das lâmpadas não chega a iluminar os cantos sombrios. A presença das mamães não esfria a atmosfera carregada. Elas não podem estar em toda a parte, no coração das dançarinas, nem nos lábios dos dançarinos.

Não vêem tudo, não ouvem tudo, não adivinham tudo.

Sentadas, apreciam, sonham, conversam ou se enfastiam. Aliás, muitas vezes são convidadas a permanecer em casa porque poderiam apanhar algum resfriado e, com a idade que têm, com o cansaço que se lhes estampa na fisionomia, precisam deitar-se cedo... Etc., etc.

E nem sempre as mães lá estão.

Perigo para as que vão dar uma voltinha pelo jardim... Perigo no regresso a dois, já tarde da noite... Perigo das últimas palavras rapidamente trocadas, dos encontros marcados, das mudas confissões, das cumplicidades dissimuladas.

Perigo do atordoamento da hora em que não há mais “controle”...

Perigo da languidez que adormece a energia e entrega o ser cansado a que se oferece para o recolher. Perigo de uma linda e ingênua castidade que gira, como numa tempestade, em meio a criaturas que não são castas nem inocentes.

Perigo do hábito que se adquire, da necessidade cada vez mais tirânica, do deslize, irresistível, das imprudências cada vez mais ousadas.

Perigo do minuto fatal em que a jovem dançarina é ferida de morte, como a flor amarrotada com a ponta dos dedos.

Existem ou não esses perigos? Você não ousará negá-lo, Senhorinha...

4º- É louca quando expõe um outro ser a semelhante perigo.

Semelhante ou pior perigo?

Não se quer fazê-lo, não se o faz de propósito! A desculpa é suficiente? Quando é um par que dança, cada um tem o direito de ignorar o que se passa com o parceiro ou de se desinteressar? Vestida como está para essas ocasiões, a jovem torna-se insensivelmente tentadora. Sem adivinhá-lo (?), pode provocar terríveis crises, desencadear um drama prestes a culminar. Chegando a casa, cansada, triunfante, mas intacta, quem sabe se não deixou atrás de si, na madrugada que se anuncia, um pobre ser açoitado pela tempestade? Quando se diz que se pode pecar no baile (certamente!), diz-se, igualmente, que um dos dois serviu de ocasião para o outro.

Mas, objeta ela, Será que em todos os encontros se dá isso? Nesse caso, só resta viver sozinha.

Não, existem diversos graus. A ameaça é mais premente em tal dança, em determinada atitude, em tal modo de dançar, e não naquele! Ora, o mundo parece comprazer-se em levar o perigo aos extremos. Tanto isto é certo que sempre se pergunta o que deve ser feito para não se ser objeto de pecado, e não o que se deve fazer para deixar de pecar.

Ponto de vista de velho moralista, não é? E isso que importa, desde que o velho moralista tenha razão! E existem motivos para acreditá-lo desde que a Igreja pensa com ele, e suas proibições são as mesmas da Igreja.

Eis porque e em que sentido, sem obstinação, sem estreiteza de vistas, sem dureza, mas unicamente em respeito à por demais triste realidade, se pode dizer: “A Louca que dança”.

Pois bem! Dança agora!” dizia a Formiga...

***

Em a noite da grande festa, a ceia termina de modo espetacular. O braço nu de Salomé, a dançarina, traz, num prato, a cabeça ainda sangrenta de João Batista. A dança desta moça valei tal presente.

Os convidados calam-se. Herodes treme. Herodíades pilheria.

Não quero dramatizar, você não é Salomé. Você não é ousada como ela e, como ela, você não é cruel de tanta volúpia. Mas, em certos bailes, não é menos verdade que se cometam crimes. No lugar de uma cabeça que sangra, há uma inocência que chora, uma pureza que morre. Na hora de ardente folia, um coração de criança perdeu a candura e a paz. Num cantinho qualquer aí está Satanás com seu sorriso cínico. A consciência, aterrorizada, cala-se. Quantas vezes não terão os anjos baixado os olhos diante do triste espetáculo que se lhes depara nas longas noites de baile? Ninguém o sabe.

E, no entanto, é por demais sabido que pares de jovens, dançando juntos, enlaçados, se encaminharam pela dança para o cemitério em que estão sepultadas as purezas murchas! Desses jovens, muitos eram, antes, generosos e pacíficos! Não mais o são. Tornarão a sê-lo algum dia?

Compreendem, agora, qual o motivo dessa proibição da Igreja e porque ela assim determina? Vocês a acham por demais severa, desconfiada, ainda a censuram por estragar a alegria de viver? E ela, certa de salvar a verdadeira vida e manter sempre luminosas as verdadeiras fontes de alegria, contenta-se em olhá-las tristemente, gravemente, ternamente.

E de dizer-lhes, como o fez Cristo ao ser esbofeteado:

Se falei mal, mostre-me em que... Mas, se falei bem, porque me esbofeteiam?”...

(Jovens: Vocês e a vida, pelo Fr. M. A. Bellouard O. P)

PS: Grifos meus.

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