segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

XI- A avareza

XI- A avareza



I- Filho, foge do apego aos interesses do mundo. Se te julgas isento desse apego, enganas-te. Senão, abre os olhos e dize-Me: que significam essas economias, essas dificuldades em dar, esse desejo de ter, essa inveja da fortuna d'outrem? Não vês que sob o pretexto de prudência, de economia, de necessidade, se esconde e alimenta o interesse? (1)

Aplicas-te a estudos mais lucrosos, entregas-te a tráficos e manejos seculares, sustentas litígios e demandas, buscas proteções e empregos, tudo com o pretexto de ajudar o próximo, de socorrer a família, de zelar o teu decoro e sustentar os teus direitos; mas, se bem refletires, acharás que tudo isso não é senão o apego aos interesses mundanos.

Quem tem verdadeira caridade e verdadeiro zelo, filho, não obra assim.

E não se cobre até algumas vezes esta miserável cobiça com capa de religião?

Prestam-se serviços à Igreja, assiste-se aos Ofícios divinos, frequenta-se o púlpito; promovem-se festas, devoções, confrarias; auxilia-se o próximo, socorrem-se os moribundos, sufragam-se os defuntos; mas o último fito são os interesses terrenos que recebes ou esperas receber, e não os interesses espirituais: e não será isto avareza? (2)

Celebras Missa todos os dias (tu sabes como); mas praticarias esta e outras obras semelhantes, senão foras convidado pelo lucro?

Porque te não aplicas ao ensino da catequese, donde não tiras lucro temporal? Porque há tanto cuidado com os defuntos, e tão pouco zelo com os vivos? Porque não tratas os pobrezinhos com as mesmas atenções com que tratas os ricos? Porque não zelas mais as máximas eternas, que os interesses temporais!

II - Filho, que amor pode ter para Comigo, que zelo pela própria alma, quem tem o coração aferrado ao interesse, como a seu tesouro? (3)

Por isso a Minha casa está como um curral; oferece-se o Meu corpo e sangue em cálice, corporais e outros paramentos tão enxovalhados e imundos, que causariam náusea na própria mesa (4); por não perder lucros terrenos, abandona-se a observância das Minhas festas; postergam-se as leis da Minha Igreja, para atender a negócios seculares, a feitoria e outras ocupações laicas (5).

Quantos se condenam por presentes ilícitos, jogos proibidos e propriedades injustas não restituídas! Quantos se tornam perjuros por atestados falsos, e até superticiosos por tesouros sonhados! quantos sacrilégios cometidos, tráficos de Missas, de Sacramentos e até de benefícios! (6)

E como se haverão com o próximo? Quantas dívidas, salários, Missas e legados pios não cumpridos!? Quantas exacções violentas, segredos violados, infidelidades, fraudes, contrabandos; parentes desprezados e oprimidos, pobres não socorridos, jornaleiros defraudados, inferiores empobrecidos!

Se ao menos não sofressem as Minhas ovelhas! Mas quantas vivem faltas de luzes e auxílios espirituais, porque se busca a sua lã, e não a sua salvação: umas sem a devida correção, outras indevidamente absolvidas, por não desviar do seu confessionário quem pode ser útil por sua proteção, ou por seus donativos! (7) Outras murmuram e se escandalizam, ou perdem a estimação aos sacerdotes, como se todos fossem uma raça da gente mais interesseira! (8).

Horroriza-te, filho, se te achas em semelhante estado; e se nele te não achas, treme do perigo de cair nele, Judas começou por pouco, e vê a que excesso chegou: cego, insensível, obstinado e por fim condenado!

III - Eis, amado filho, quererás por um lodo vil perder o tempo, o sossego, a honra, e arriscar a tua alma? (9)

Consolar-te-á na hora da morte o deixar riquezas a teus herdeiros e achar tua alma pobre de merecimentos e agravada de culpas? Porque não entesouras ante riquezas do Céu, por onde terias descanso na vida, merecimentos na morte e grandes prêmios na eternidade? (10)

Sou teu espelho, olha para Mim: nasci pobre, vivi pobre e pobre morri. Vê o que fizeram os Meus apóstolos, e tantos outros que Me seguiram, pobres e necessitados; e tu ao menos não te darás por satisfeito com o necessário, distribuindo utilmente o desnecessário, e deste modo adquirir para ti e para os outros um reino eterno? Oh rica pobreza! Oh miseráveis riquezas!

Fruto. - Da avareza nasce muitas vezes a prodigalidade e o luxo; há apego aos interesses, para os despender depois inutilmente em pompas, banquetes e divertimentos. Ambos estes vícios desacreditam o sacerdócio, e são a sua maior ruína. (11).

Procura remediar os males passados, satisfazendo, se tens dividas de restituições, de Missas, etc; transigindo, se tens pleitos; pondo cobro aos gastos, se cometes excessos; e fixando para o futuro as esmolas que, segundo o teu estado, deves fazer.

Grava em teu coração esta máxima de São Filipe Nery: Quem busca interesses, nunca terá vida de espírito: quem quer almas, deixa a bolsa. O B. Alexandre Sauli acrescentava: Se o povo se persuade de que és interesseiro, ainda que faças milagres, não te acreditará.

Notas:

1- Videte et cavete ab omni avaritia (Luc. XII, 15) Non solum autem avarus est qui rapit aliena, sed et ille avarus, qui cupide servat sua. (S.Aug., huic loco.)

2- ... Sacerdotes in mercede docebant, et prophetae in pecunia divinabant: (Mich. III. 11) Quis est in vobis, qui claudat ostia et incendat altare meum gratuito? (Malac., I,10.) Ipsa quoque ecclesiasticae officia dignitatis in turpem quaestum, et tenebrarum negotium transierunt: nec in his salus animarum, sed luxus quaeritur divitiarum. Propter hoc tondentur; propter hoc frequentant ecclesias, Missas celebrant, psalmos decantant. (S. Bern., Serm. 6, Psal. 90).

3- ... Non potestis servire Deo et mammonae. (Math., VI, 24.) Qui amat pecuniam, Deum amare non potest, Igitur et Apostolis dicit Christus, si velint amare Deum, pecunias esse contemnendas. (Hieron., Epist. 151.)

4- Qui diligunt munera, non possunt pariter diligere Christrum. Inde est, quod ejus sponsa pauper et inops, et nuda relinquitur, facie miseranda, inculta, hispida exanguis. Propter hoc non est hoc tempore ornare sponsam, sed spoliare, etc. (Bern., Cant. 77.)

5- Nemo militans Deo implicet se negotiis saecularibus: ut ei placeat, cui se probavit. (2ª ad Timot., II, 4.) Procuratores et dispensatores domorum alienarum, atque villarum, quomodo possunt esse clerici; quum proprias hi jubeantur contemnere facultates? (Hieron., Epist. 11.) ... Unde et magna Scripturarum oritur negligentia, ingens in orando segnities, et coeterorum omnium contemptus. (Chrysost., Hom. 87.)

6- Avaro nihil est scelestius. Nihil iniquius, quam amare pecuniam: hic enim, et animam suam venalem habet. (Eccles., X, 9-10.) Qui volunt divites fieri, incidunt in tentationem et in laqueum diaboli, ac desideria multa inutilia et nociva, quae mergunt homines in interitum est cupididitionem. Radix eniim omnium malorum est cupiditas, quam quidam appetentes, erraverunt a fide, et inseruerunt se doloribus multis. (1ª ad Tim., VI, 8-9.)

7- Aliquando si persona in hoc mundo potens sit, ejus forsitan et errata laudamusm ne si adversetur, per iracundiam munus subtrahat, quod seriptum est: Peccata populi mei comedent. Dicuntur autem quidam peccata populi comedere, quia ea fovent, ne temporalia stipendia amittant. Pensemus cujus id sit apud Deum criminis, etc. (Greg., Hom. 17.) ... Haec dicit Dominus: Vae pastotibus... Israel, qui pascebant semetipsos... Lac comedebatis et lanis operiebamini; gregem autem meum non pascebatis... (Ezech., XXXIV, 2-3) Quem dabis de numero praepositorum, qui non plus invigilet subditorum vacuandis marsupiis, quam vitiis extirpandis. (Bern., Cantic. 77.)

8- Ignominia sacerdotis est propriis studere divitiis. (Hieron., Epist. 11.) Quis obsceno laicorum avidius clericis quaerit temporalia? (Bern., in Synod.)

9- Avarus non implebitur pecunia: et qui amat divitias, fructum non capiet ex eis. (Eccles., V,9.)

10- Funes ceciderunt tibi in praeclaris; et tu opibus inhias terrenis? Si vis haberes simul haec, et illa, breviter respondebitur tibi: Memento, fili, quia recepisti bona in vita tua. Accepisti dixit, non rapuisti:ne etiam de hoc tibi frustra blandiatis, quod tuis contentus, aliena non rapias. (Bern., Epist. 11.)

11- Conceditur, ut si bene deservias, de altari vivas, non autem ut de altari luxurieris, ut de altari superbias, etc. Denique quidquid praeter necessarium victum, et simplicem vestitum de altari retines, tuum non est, rapina st, sacrilegum est. (Bern., Epist. 11 ad Fulcon.)

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)
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