sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Virgens loucas" - A louquinha que ri

Nota do blogue: Antecipei esse capítulo a pedido de uma leitora do blogue. O autor nos capítulos das "Virgens loucas" dá alguns nomes fictícios as mesmas, são 4 ou 5 capítulos e ressalta: "Não existe aqui alusão alguma... tanto tomamos esses nomes como poderíamos tomar outros quaisquer."


"Virgens loucas"


Raquel
A louquinha que ri
A queixa

Quer dizer, então, que se  é louco quando se ri? Rir é pecado? Uma jovem que não quer se considerada imbecil deve abster-se de rir? Deve ser cabeçuda? Chorar? Fazer cara feia? Somente com essas condições será ela uma "virgem prudente"?

Mas, se não se deve rir, porque fez Deus os olhos e os lábios, pois é com os olhos e os lábios que se ri? Os sapos e os elefantes não riem, nem mesmo os hipopótamos. Devemos-nos assemelhar a eles?

Certamente a humanidade tornar-se-á maravilhosa no dia em que não rir mais! O lindo céu azul será substituído por um véu mortuário. A vida será de uma inspidez atroz... ela, que já não é assim tão alegre! Havemos, pois, de querer torná-la ainda mais triste tirando do rosto a única coisa que o torna um pouco belo e permite ser encarado sem rancor e sem ódio?...

Então, Senhorinha Raquel, um pouco de calma!
Sorria... Ria mesmo com gosto...

E, depois, escute.

Diz o Evangelho: "Infelizes dos que riem!" Esta palavra é de Jesus Cristo, o Infalível, o Indiscutível. Se digo "a louca que ri", baseio-me nEle e em Sua palavra e no fato de haver, numa jovem, um determinado riso louco.

Se rirmos significa sermos felizes, sermos inocentemente alegres, encontrarmos na vida os encantos que realmente possuímos, esse riso não é nem loucura nem pecado. Se-lo-ia, talvez, se se rissem.

Rir, porém, tem outro significado.

Significa: não tomar a sério o que é grave, zombar do que é belo e respeitável; não recear o que é temível, insultar o que é doloroso.

Nesses casos e nesse sentido é o riso uma loucura. Aquela que o tem nos lábios é uma louca e, ao mesmo tempo, má e culpada.

A jovem louca que ri diante da vida

Não, há portanto, motivo de risada.

Ri-se de uma comédia, de uma representação. Por acaso a vida é assim considerada? Muitos o acreditam e não agem de outro modo.

Mas, do ponto de vista cristão, e apesar das reais alegrias e das ternuras, é mais um drama do que uma comédia, mais uma tragédia do que uma representação divertida.

Explicando melhor, é uma solene responsabilidade.

O mais emocionante numa viagem por mar são as  grandes profundidades sobre que desliza o navio e nas quais, em dias de tempestade, se está ameaçado de cair.

O ansioso de uma doença está no fato de se ignorar se ele culminará na cura ou na morte.

Tem-se o direito de rir das pessoas que embarcam num transatlântico? É prudente rir diante dos doentes graves?

E, então, porque rir em face da vida? Será que ela não é mais do que uma coisa divertida? Não é misteriosa? As aparências enganam, surgem diante dos olhos, ora curiosas, ora desconcertantes. Mas a realidade exige que, de repente, não mais se ria.

A eternidade envolve a vida e espreita-a. Finalmente, o Juízo de Deus aguarda-a. A vida pergunta, o Céu eterno e o eterno inferno respondem. A vida semeia, a eternidade colhe. O rio da vida desliza para os abismos. A viagem da vida prossegue através de imensidades.

Deus não é uma palavra vã. Também não é a imortalidade. Por isso é que a vida não é uma coisa inútil. Mesmo que nos riamos dela, continua sendo grandiosa e solene. Eis porque é loucura levá-la na brincadeira.

Fatalmente, um dia o riso há de acabar. Disse Jesus que Ele se transformará em lágrimas. Dentre os condenados, quantos compreendem que choram agora  esse choro por antes terem rido da vida? A verdade adquiriu direitos sobre eles. As coisas são o que serão para sempre e que se devia prever que o seriam.

Miseráveis são os professores cujo ensino faz rir da vida, rir diante dela e rir com ela. Criminosos os livros que alimentam esse riso.

São de lamentar sinceramente esses jovens despreocupados, irônicos ou desabusados, que têm esse riso ao canto dos lábios. Julgar-se-ão eles inteligentes? Seriam, então, completamente idiotas. Causa tão má impressão a jovem que traz esse riso nos lábios, mesmo que eles tenham sido pintados de vermelho ou adornados com uma rosa! Faz medo! Por favor, Senhorinha, não ria mais assim! Não tem esse direito! Veja como Cristo e os Santos não riem! Pensa você ser mais prudente do que eles?

Não, a louca é você!

A louquinha que ri para a beleza

O que é normal é, diante da beleza, tentar compreendê-la, admirá-la e, depois, respeitosamente comovido, recolher-se.

Quem risse diante das grandes ruínas dos Templos Egípcios, diante das pinturas do Vaticano, diante do túmulo do Soldado Desconhecido em baixo do Arco do Triunfo, seria considerado um moleque. E seria moleque.

Mas existem outras belezas além das cores e das pedras. Há a beleza das almas. Ainda mais divina do que nas outras, constituída de sua pureza sem mácula, da nobreza de uma consciência reta, da completa dedicação do dom de si a uma grande causa que requer, para sua manutenção, o desprendimento da vida.

Algumas jovens têm a fisionomia resplandescente dessa beleza, que ainda ilumina algumas faces enrrugadas de senhoras idosas. Estava nos olhos do Cura d'Ars e de Teresa de Lisieux. E, como uma rainha de dor, ela coroava a comovedora fisionomia dos mortos de guerra, prostrados por terra, face voltada para as estrelas, sangrentas e pálidos.

As que compreendem calam-se. Têm receio de, falando, profanar.

Mas nem todas compreendem.
Muitas zombam ou riem insolentemente.

Julgam tola a dedicação, idiota a humildade, hilariante a touca das Irmãs de Caridade, e que privar-se das alegrias é deplorável ingenuidade, assim como recusar os presentes com que a vida nos obsequeia e obstinar-se em praticar a virtude por meio do sacrifício...

Acreditam que um cão vivo vale mais do que um leão morto, que o prazer compensa mais do que o dever, e que a amiga, que trocou o salão mundano e aquecido por uma estreita e úmida cela, é digna de lástima...

E riem... Ah! este riso! A bofetada do servo na face de Cristo não era mais insolente! E não era outro o riso dos fariseus perante a Cruz em que Cristo morria.

Riso imbecil e covarde! É um modo pelo qual tantas se defendem quando a consciência da própria mediocridade as acusa. Tranquiliza-as contra a censura que tais exemplos constituem.

E este riso provoca uma involuntária admiração. Exalta o que ele próprio insulta, proclamando, ao mesmo tempo, sua admirável grandeza. Como é incapaz de fazer o belo, vinga-se enfeiando a beleza!

Acontece, porém, que aquelas que são objeto de risadas, perturbam-se, ficam desarmadas, desencorajadas, duvidam de si mesmas, como um lírio que, de tanto ser pisado, não mais acreditasse na brancura imaculada de suas pétalas. Riso assassino que fere e mata. Quantos entusiasmos não morreram unicamente por o terem ouvido! Quantas purezas feneceram! Quantas ardentes generosidades foram, por ele, bruscamente arrefecidas! Quantos heróicos esforços para um inacessível ideal cortados sem piedade! Quantas comunhões impediu! Quantos apostolados sustou! Semeado como o joio no meio do trigo, quantas boas sementes deixaram de germinar!

Esse riso conta com um bem número de vítimas. É, pois, um carrasco, não tão sinistro quanto digno de lástima, pois vemos certos lábios, que têm esse riso, muitas vezes rezarem o "Padre Nosso" e receberem essa mesma Hóstia que outros lábios já não mais recebem agora.

Jovens loucas que assim riem! Sabem acaso o que fazem? Esperemos que não, porque, se o soubessem, sua loucura, verdadeira loucura de profanação e destruição, se transformaria num dos maiores pecados. Na fisionomia amarga de tanta decepção, poderia ser encarado como uma altiva maneira de sofrer.

Na fisionomia das jovens, não é senão torpeza. De todos os modos de rir, esse é o que mais se aproxima do riso de Satanás.

A louquinha que ri diante do perigo

Para uma cristã conhecedora de sua religião, o grande  perigo não é o perigo de morte, mas sim o perigo do pecado, o perigo da condenação eterna. Diante da morte, uma cristã bem pode rir com esse riso franco, todo esperança, vibrante de amor, ansioso pela chegada de Deus, que se aproxima.

Mas, diante do pecado, cometido ou por cometer, a cristã nunca ri. Diante da possível condenação, nunca ri. Treme, empalidece, perturba-se, tem medo. Mas, nunca ri.

A louquinha ri.

E esse riso diz claramente: "Ah! isso não é nada!"

Não é nada a tentação, visto tratar-se de prazer que se oferece, instinto natural que domina, uma nova experiência a fazer. Isso traz alguma variedade na monotonia da vida... Um arrepio ainda não sentido... uma alegria imprevista... E porque deixar de rir?

Ora, o pecado nada é, visto que a fraqueza o desculpa, visto possuir esse raro sabor do fruto proibido, visto facilmente ser perdoado, visto trazer sempre alguma vantagem, visto poder ser depressa esquecido. Num grande oceano, uma gota a mais ou a menos, que diferença faz?... E porque deixar de rir?

A condenação nada é de extraordinário, talvez mesmo nem exista. Talvez a força do diabo seja uma pueril anedota, a ausência de Deus não seja assim tão dolorosa como dizer e, talvez, quem sabe? antes da grande queda haja um meio qualquer de se poder segurar em algum galho... Enquanto se espera, porque deixar de rir?

Porque?...

Assim continuam rindo, vivem rindo, distraem-se rindo, dançam rindo.

No entanto, por baixo do assoalho, a eternidade espera. Mais cedo ou mais tarde, o assoalho cede.

Se o Evangelho é falso, esse riso tem razão de ser. Se o Evangelho é verdadeiro, esse riso é louco.

O Evangelho é verdadeiro. Talvez seja nesse sentido que Jesus disse: "Infeliz daquele que ri".

Ao morrer, Voltaire não mais tinha aquele riso com que riu durante toda a sua vida. Menos cinicamente, porém não menos imprudentemente, algumas jovens o possuem. É a resposta aos avisos que recebem. É a acolhida que dão a qualquer tentativa de apostolado que se quer desenvolver a seu lado. De antemão tudo resolve, tudo recusa, torna tudo inútil.

Que prazer encontram em conservá-la? é o que perguntamos. Talvez o encanto de um orgulho triunfante, talvez o encanto de um desenvoltura que explode. Talvez mesmo nenhum encanto. Quem dirá o que se esconde num sorriso? De quanta mentira e de quanto receio não estará ele feito? Segredo, temível segredo.

Mas, seja orgulho ou triunfo, continua sendo loucura. Nega a Justiça de Deus e a retidão de Suas sentenças. Inutilmente. No fim, acaba sendo malogrado. E, se a morte não o surpreende nos lábios das jovens, estala numa solução eterna.

A louquinha que ri diante da dor

Nesse caso, melhor compreenderíamos as lágrimas que o riso. E, no entanto, também aqui encontramos risos. Não só deixam de chorar diante de um ente querido que sofre, mas também riem. Preferiria mentir ao falar isso, mas não minto. Digo as coisas como são.

Jovens há, pois, que fazem sofrer com sua leviandade, imprudência, dureza e egoísmo! São, para os que delas esperavam algo de bom, uma decepção e, para os que as amam, uma preocupação. Bem sabem de tudo isso mas pouco lhes importa.

A mãe sofre com um pungente sofrimento que não pode ser medido por palavras e só se manifesta por um olhar suplicante, por um silêncio cheio de censura e esperança. Mas não se importa. pensam: "Tanto melhor! Vivo minha vida! As mães têm facilidade de chorar e são excessivamente zelosas"! Intimamente riem-se com esse sofrimento e recusam minorá-lo.

E a amiga sofre compreendendo demais e pressentindo, ou o abandono ou a queda. E elas, altivas e fechadas, não se deixam comover. Já o coração está longe, a alma ausente. E murmuram: "A amizade transforma-se em servidão... Minha amiga tem os escrúpulos das bestas, as angústias dos tímidos". E riem-se dessas lágrimas que elas próprias não choram.

A consciência sofre, ainda não embotada, mas por demais descontente. O dever, a virtude, o passado tomam como que uma fisionomia humana, e olham-nas surpresos. É a alma que, antes de morrer, pede clemência, é o ideal que implora não ser coberto com o véu que se assemelhará a uma mortalha... Elas se erguem, simulam desprezo, silenciam a queixa e deixam a consciência gemer. E pensam: "A consciência, ou é uma madrasta, ou não passa de uma fórmula." Espezinham-na e passam adiante. E o riso que então trazem nos lábios é a negação de toda a lei moral.

O Crucifixo sofre, esse Crucifixo para o qual, despreocupadamente, levantam algumas vezes os olhos. O Crucifixo sofre e chora, símbolo que é da verdadeira dor que despedaçou Cristo vivo e das verdadeiras lágrimas que derramou ao agonizar... Antigamente essa piedosa lembrança emocionava-as. Agora, no entanto, não as impressiona mais... E assim raciocinam: "Que é, afinal, Cristo e Seu sofrimento? Se Ele está vivo, não atrapalho Sua felicidade. Vista do profundo da Sua eternidade, quem sou eu? e em que O pode prejudicar minha falta?"

E riem do Crucifixo, o que quer dizer: riem do eterno amor com o qual Deus as ama. E, diante d'Ele, têm a ousadia de se tornarem ou permanecer pecadoras. Se Judas riu antes do beijo, seria diferente seu riso?

Essas jovens são duras e más de coração. São mais loucas ainda, pois o sofrimento cria direitos tanto na mãe, como na amiga, tanto na consciência como em Cristo. Esses direitos não se desprezam e, como são desconhecidos, ainda mais se firmam e se vingam. É loucura, grande loucura atrairmos sobre nós todas essas sagradas dores, assim como o sangue de Jesus caiu sobre os Judeus.

Menos do que nunca, não há motivo para risadas.
Mais do que nunca, é loucura rir.

A louquinha que ri para si mesma

De tanto rir de tudo, acaba rindo de si mesma. Coisa grave, bem grave.

Um ser peca por orgulho quando, ao contemplar-se, se admira a si próprio. Se não peca, pelo menos acredita em sua grandeza.

Quando, ao contemplar-se, se despreza, pode pecar por injustiça ou desespero. Mas reconhece uma beleza que morreu.

Quando, ao contemplar-se, se ama, peca por egoísmo. Mas esse pecado pode vir a ser uma maneira de respeito a uma fé na vida.

Mas quando, ao contemplar-se, uma jovem ri de si mesma, com um riso cínico, divertido e amargo, o pecado que comete parece sem solução. É sinal de que não mais acredita em si, de que zomba do seu passado, nega o próprio valor, de que não mais dá importância a coisa alguma que lhe diga respeito. É, ao mesmo tempo, o erro vital e o erro mortal.

Logicamente, esse riso dá direito a fazer daí em diante qualquer coisa, não importa o que, seja qual for o resultado, direito a não se inquietar, a não se arrepender, a não reparar o mal feito. "Já que não vale nada! Já que sou uma mariposa voando em volta da luz!"...

Faz-se acaso um escândalo só porque uma folha morre no outono? ou porque uma fazenda se mancha com o excremento de um pássaro? Pois bem! que é ela senão isso? Que a deixem, pois, tranquila.

A todos os seus pecados, às suas próprias dores, aos impulsos espontâneos de seu coração, aos seus efémeros sonhos de ideal, responde com uma risada aberta! Gira sobre si mesma. Se cai, ri. Se alguém vem levantá-la, ri ainda. Cética e desencantada, a jovem ri e não se sabe se é um riso de piedade que penaliza, um riso de ameaça que atemoriza ou um riso de desprezo que envergonha.

Essa espécie de riso, o riso de si mesmo, muitas vezes Anote France o tinha nos lábios. E não era nada bonito. Mas, nos lábios de uma moça, é mais feio e doloroso ainda. Prejudica! Oh! quando se despreza aquela a quem se respeita! Quando aquela por quem se chora ri de si mesma! Quando aquela em que se tem fé, porque é amada, se volta contra nossa ternura confiante e, cinicamente, ri!...

Crêem-se especialmente dotadas de inteligência? pensam ter, enfim, encontrado a última palavra da sabedoria humana além das vãs afirmativas e das lindas ilusões? São, então, dignas de lástimas!

Esperamos que não passem de infelizes! A loucura de seu riso encontraria aí sua melhor desculpa e o mais seguro perdão.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950)

PS: Grifos meus.