sábado, 19 de fevereiro de 2011

VIII - A Missa sacrílega

VIII - A Missa sacrílega


I - Filho, em volta dos altares treme e choram os meus anjos, vendo tantas Missas atropeladas e sacrílegas; treme também tu e chora com eles.

Olha como Me tratam! Aqueles Sacerdotes que deviam ser os vigários dos Apóstolos e filhos de São Pedro, tornaram-se representantes de Judas e precursores do Anticristo; de modo que ainda hoje posso com razão dizer: Eis que a mão do traidor está comigo à Minha mesa. (1)

Quando beijam o Meu altar, de novo lhes posso repetir: Judas, tens coração de vender-Me e entregar-Me com um ósculo?!

Não por trinta dinheiros, mas por um vil afeto, por uma pressa indigna, por um respeito humano, por um interesse de poucos reis, é hoje vendido e entregado o dom inestimável, o inefável preço da redenção do mundo, que é infinitamente superior a toda a estima! Oh ingratidão! Oh traição! Oh horrenda perfídia!

II - Em vez de dobrarem o joelho, para Me adorarem com respeito e amor, dobram-no para Me escarnecer, como os Judeus, que, ajoelhando-se, Me esbofeteavam; e, como eles, Me cospem tantas vezes no rosto, quantas são as sacrossantas palavras que indignamente proferem.

Ninguém ousaria tocar os vasos sagrados, e muito menos o divino Sacramento com mãos sujas de lodo; e hei de ver o Meu corpo e sangue tão indignamente tratado por mãos as mais imundas e hediondas, e até lançado debaixo dos pés, e calcado como se fora vilíssimo lodo e pó da terra? (2)

Ah! temerários Sacerdotes! sois piores que os que Me crucificaram, porque eles o fizeram uma só vez, e não Me conheciam; vós porém, conhecendo-Me de sobejo, o fazeis repetidas vezes; sois ainda piores que os demônios, que crêem e tremem de Mim, e vós ou não credes, ou certamente Me não temeis!

III- Ó Meu amor traído! deverão ser matéria para ofender-Me não só os Meus dons, mas até Eu mesmo, pelas injúrias feitas em Minha pessoa?! Deverei ver a redenção convertida em perdição, o sacrifício, o mais augusto mistério no mais horrendo parricídio, o antídoto trocado em veneno, a vida em morte; e quererão beber no cálice da mais tremenda ira?!

Ao menos tu, amado filho, suspende Meus castigos por meio de Missas celebradas com o maior fervor e devoção; e, enquanto aqueles infelizes tragam sua própria condenação, e não tremem e chamar sobre si todas as maldições do céu (3), antes cada vez mais obstinados se endurecem na maldade, tu compensa, quanto puderes, tão horrendo atentado com viva fé, com respeitoso temor, com amargosíssimo pranto, e com o mais ardente amor. Mas, se tu, tu mesmo fores réu de semelhantes crimes...?!

Fruto - Examina a tua consciência e vê se celebraste alguma vez, estando em ocasião próxima de pecado, ou em graves reincidências contra a temperança, contra a castidade, contra a devida edificação, ou mostrando graves inimizades e litígios caprichosos; se não procurastes satisfazer, achando-te agravado com dívidas, restituições, esmolas de Missas, contra os decretos da Sagrada Congregação e contra a bula de Bento XIV (4); se subiste ao altar ligado com censuras eclesiásticas ou irregularidades.

Examina, infeliz! de que te serviu em tais casos a absolvição sacramental; se ao menos procurastes obtê-la, mas de que confessores; se lhes manifestaste o estado da tua consciência com sinceridade; se te levaram a tais excessos ou a nimia facilidade em absolver do teu confessor, ou o cumprimento de obrigações do teu ministério, ou os proventos do seu exercício; se até te lisonjeaste de não ser compreendido nestes ou em semelhantes casos, ou de ter merecido a absolvição, ou de ter uma consciência a teu modo; se te tornaste réu da Missa a que chamam à caçadora; pois que celebra Missa em um quarto de hora não deixa ser comummente pecado mortal.

Se te achares compreendido nestes funestíssimos casos, abstém-se absolutamente de celebrar, até que tenhas remediado tão graves males, que são curáveis se tiveres uma vontade eficaz.

Agora, prostrado aos pés de Jesus, pensa seriamente se, com o que tens feito até agora, e com o que tencionas fazer daqui por diante, especialmente a respeito da celebração da Missa, das tuas confissões e da escolha do teu confessor, estarias tranquilo e satisfeito na hora da tua morte; e sirva-te este pensamento de luz e conselho para praticares o bem, e praticá-lo enquanto é tempo, antes de noite da eternidade!

Notas:

1- Verbum est S.Gregorii: qui Christi corpus indigne conficit, Christum tradit, ut Christus dicat: Ecce manus tradentis me, mecum est in mensa. (Petrus Bles., Epist. ad Ricard.)

2- Prohibet Dominus in lege, ne de agno Paschali comedat advena, vel immundus. Quanta ergo, et quam damnabili temeritate sacerdos indignus ministrare praesumit, qui ut verbo utar Apostoli, Filium Dei conculcat et sanguinem Testamenti pollutum ducit, it quo sanctificati sumus, et spiritui gratiae contumeliam facit? (Idem.)

3- Qui enim manducat... Ideo inter vos multi infirmi, et imbecilles, et dormiunt multi. (1ª ad. Corint., Xi, 29-30.) Spiritualis scilicet infirmitates, ac mortes, ex hac specialiter praesumptione generantur. Multi enim infirmantur fide, et dormiunt somno pecati, ab hoc lethali peccato nunquam salutari sollicitudine resurgentes. (Cassianus, Colo.22).

4- Excribuntur a Gennet Theologiae, t. III post tract. de Eucharistia. Benedictus XIV, Constitut. Quanta Cura.

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)
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