quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

IV- A santidade sacerdotal

IV- A santidade sacerdotal


I - Filho, considera que, entre um bom Sacerdote e um bom secular, deve haver tanta diferença, como há entre o Céu e a Terra. Devias ser tão puro, que colocado no Céu, brilhasses ainda entre os Anjos (1).

Busca a santidade; porque o teu estado exige que sejas mui semelhante a Mim.

Não julgues, filho, que é demasiado o que te peço; porventura parece-te que, para exercer o teu santíssimo e divino ministério, te basta qualquer perfeição?  Ah! não basta, é necessária uma santidade eminente.

Tu mesmo dizes aos seculares que, para a Comunhão quotidiana, é necessária uma perfeição, não vulgar, mas notável e distinta; não serei Eu porém o mesmo que recebem os leigos, para exigir de ti tanta virtude, quanta tu exiges deles? Tu não só Me recebes, mas também Me distribuis aos outros, e representas a Minha pessoa; não estarás pois ainda mais obrigado à perfeição que eles?

Examina-te pois por um pouco, e vê se em ti há virtude que corresponda a tuas grandes obrigações.

II - Filho, se és prejudicial a ti mesmo, como serás útil ao teu próximo, que é o grande fim da tua vocação? Se não tens zelo pela tua alma, como a terás pelas dos outros, que deves conduzir a Mim por meio de estudo, da catequese, da pregação, da Confissão, etc.? Se te não santificas a ti, como santificarás os outros?

Deves ser o exemplo dos seculares; logo cumpre que fujas até das culpas leves, que em ti se tornam gravíssimas. Nada deve aparecer em ti que seja próprio da plebe nem do vulgo; nada que seja comum com os usos, desejos e costumes da gentalha.

Quanto és superior aos seculares pelo teu estado, tanto o deves ser pelos merecimentos e virtudes. Como estás em lugar mais elevado, todos olham para ti atentamente; nem tu podes esconder-se a seus olhos, nem eles deixam de notar os teus defeitos (2).

Que seria, filho, se, em vez de seres tu mais santo que eles, o fossem eles mais que tu? Já era vergonhoso para ti serem eles mais caritativos, mais amigos do bem, mais zelosos da honra de Deus; e ainda te devias envergonhar, se eles nisto fossem somente teus iguais: pois como os edificarias? (3)

Que será porém, se, em vez de santa, te virem passar uma vida descuidada, sem mortificação e sem empenho pela virtude? E quanto pior, se a tua vida for perversa e detestável?!

III- Filho, outra vez te exorto: procura santificar a tua alma; porventura não vai nisto o teu maior bem?

A verdadeira virtude tornar-se-á para ti doce e suave. Se já a provaste, não estava satisfeito o teu coração? Não te movem a ele a riqueza de merecimentos, o trono de glória que te espera no Céu! Infeliz! que será de ti se seguires outro caminho!?

Vê os Meus Santos: todos temeram sumamente o Sacerdócio. Sabiam eles muito bem que, se é grande a dignidade d'um sacerdote, é também maior, que para os seculares, a medida de santidade que pede, e muito maior, até para o Sacerdote simples, a severidade do Meu tremendo juízo.

Deixa, filho, deixa a tibieza, deixa o mundo; entrega-te a um santo fervor. O Meu Paraíso merece bem que tu faças por ele alguma violência. Outros muitos, piores que tu, se tornaram Santos. Eu serei o teu auxílio. Recearás acaso que deixe de socorrer-te um Pai que morreu por ti?

Fruto.- Em teus defeitos quotidianos, nunca diga: isto é pequeno mal; dize antes: devo procurar a minha santificação; e assim esforça-te por extirpá-los.

Toma para teu exemplar as ações de Jesus Cristo, descritas no Evangelho, e as dos Santos Sacerdotes em suas vidas, para que te resolvas a imitá-los, donde depende a tua salvação eterna.

São Vicente de Paulo dizia:

"O Sacerdócio é a dignidade mais sublime que há sobre a terra; é a mesma que exerceu Jesus Cristo. Se a tivera compreendido quando tive a temeridade de a assumir, como depois a compreendi, antes houvera abraçado a profissão do lavrador mais infeliz em seu estado; e quanto mais correm os anos, mais me confirmo neste ditame; porque conheço quão longe estou daquela perfeição que devera possuir."

Notas:

1- Necesse est eum sic esse purum, ut in ipsis coelis collocatus, inter coelestes illas virtutes medium staret. (Chrysost., De Sacerdotio.)

2- Quum a rebus saeculi in altiorem sublati locum Clerici conspiciantur, in ipsos tanquam in speculum reliqui oculos conjiciunt, ac sumunt quod imitentur. Quapropter sic decet eos, qui se divino ministerio dedicarunt, vitam moresque suos omnes componere, ut habitu, incessu, gestu, sermone, aliisque omnibus rebus nil, nisi grave, moderatum ac religione plenum prae se ferant; levia etiam delicta, quae in ipsis maxima essent, effugiant: ut eorum actiones cunctis afferant venerationem, atque vita, et exemplum ad Dei cultum assidue instruat. (Conc. Trid., De Ref.)

3- Qualis vero aedificatio discipuli, si se intelligat magistro esse meliorem?... vehementer ecclesiam Christi destruit meliores esse laicos, quam clericos. (II, Decretal., 8.1)

(Jesus Cristo falando ao coração do Sacerdote, ou meditações eclesiásticas para todos os dias do mês, escritas em italiano pelo Missionário e doutor Bartholomeu do Monte traduzidas pelo Pe. Francisco José Duarte de Macedo, ano de 1910)
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