terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

III- A dignidade do Sacerdote

III- A dignidade do Sacerdote


JESUS CRISTO
FALANDO AO
CORAÇÃO DO SACERDOTE
OU
MEDITAÇÕES ECLESIÁSTICAS
PARA TODOS OS DIAS DO MÊS
por
Escritas em italiano pelo Missionário e doutor
Bartholomeu do Monte
Traduzidas pelo
Pe. Francisco José Duarte de Macedo
(1910)

I- Se compreenderas, filho, a altura da tua dignidade, com quanto desvelo procurarias sustentá-la com decoro!

Entra em ti mesmo, e considera a eminência do ministério a que te exaltei.  Reflete em todas as dignidades, honras e reinos do mundo, compara-os com a tua dignidade: porventura não é muito mais elevada? (1) não te exaltei sobre todos os leigos, tirando-te do pó da terra? não te dei, com o Meu real Sacerdócio, um poder que te faz maior que todos os grandes do mundo, que curvam sua cabeça ao Sacerdote?

Compara-te, filho, até como os mesmos Anjos. Que eu te dei um ministério angélico para bem das almas, e que ainda te levantei acima dos mesmos Anjos, até eles o confessam, tendo em suma veneração a tua sublime dignidade.

E tu não lhes dá importância?! e tu não a estimas? e tu, devendo viver uma vida de Anjo, imitando suas graças e virtudes, vives uma vida toda mundana; e, cego pelos interesses, pelos prazeres e por insensata vaidade, te aviltas, assemelhando-te e até confundindo-te com mulheres vaidosas e loucos mundanos?!

II- Filho, qual dos Anjos ou dos Serafins, teve jamais o poder que Eu te dei? (2)

Causa-te admiração o poder de Moisés que abria os mares, de Josué que fez parar o sol, de tantos taumaturgos a quem obedeciam os elementos, as enfermidades, a mesma morte e os demônios; não é, porém, muito maior o teu poder em absolver do pecado as almas, e em fazer que o próprio Deus baixe dos Céus a tuas mãos? Oh! quanto é veneranda e sublime a tua dignidade!

Minha própria Mãe, ainda que a mais excelente de todas as criaturas, nunca teve o poder de perdoar pecados, como tu tens: se uma vez abriu o Céu, e me trouxe em Seu seio virginal, tu, com autoridade mais maravilhosa, podes chamar-Me e deter-Me em tuas mãos, não uma vez, mas muitas e todos os dias.

Dizê-Me pois, filho, não é divino o teu poder? Poderia Eu dá-lo maior? Ah! quão grande injúria me fazes, se não estimas nem honras a tua dignidade  divina! Quanto maior ainda, se a profanas, fazendo-te escravo de paixões torpes e culpas infames!...

III - Não te queixes, filho, de que os seculares, te não respeitem, e que murmurem de ti, se vestes como secular, se pensas, se falas e se vives como secular, ou talvez pior que os seculares: queixa-te somente de ti, porque és tu o primeiro que não estimas nem respeitas o teu caráter; e até, com o teu procedimento, Me obrigas a permitir que os seculares, em castigo, te desacreditem e te escarneçam (3).

Porque desonras, filho, o teu caráter? porque não correspondem tuas obras à tua dignidade? será sublime a tua honra, e péssima a tua vida?! divina a profissão, e perversa as obras?! Assim correspondes ao bem que te tenho feito, e ao muito que te quero?

Lembra-te que, quanto maior é a dignidade do Sacerdote, tanto maiores hão de ser as penas e suplícios, se a vida não é conforme com a dignidade.

E quererás, depois de receber de Mim tantos benefícios, depois de dominar no Céu, na terra e nos infernos, quererás viver como bruto, cerrar a ti mesmo o Céu, e acabar finalmente cativo os pés do demônio?

Fruto - Quer sejas Sacerdote regular quer secular, mede tuas ações pela tua dignidade, e não pelas máximas do século, nem pelo procedimento dos outros. Considera frequentemente que, pela tua dignidade, tens uma grande honra (4); e respeita o teu caráter em ti e nos demais sacerdotes, teus colegas.

Procura ser em tudo exemplar de boas obras, na doutrina, na pureza, na gravidade, na integridade, de sorte que os adversários não possam dizer senão bem de ti.

Se julgas que hás de sustentar a tua dignidade com luxo e ostentação, atende ao que te diz o grande Arcebispo, o Venerável D. Fr. Bartholomeu dos Mártyres:

"Ó enorme cegueira! Julga um ministro de Jesus Cristo ser mais prudente, que o mesmo Jesus Cristo! Ele venceu o mundo com o espírito de humildade e de pobreza, e tu julgas vencê-lo com o espírito do mesmo mundo, isto é, com as pompas do século?!"

Poderá imaginar-se coisa mais absurda? Satanás, diz o Salvador, não pode expulsar a Satanás, nem um homem com o espírito do mundo pode vencer o espírito do mundo.

O mundo, em vez de te respeitar, se rirá de ti e do teu fausto com que se escandaliza. São Carlos Borromeu, dando-se a uma heróica modéstia, parcimônia e frugalidade, respondia a quantos o criticavam: Que a verdadeira honra e glória dos ministros de Deus não consistia nos adornos e atavios mundanos, mas na religiosidade, virtude e santidade, só as quais tornam grandes, diante de Deus e dos homens, aqueles que as possuem.

Notas:

1- Etenim sacerdotium in terris quidem peragitur, sed in rerum coelestium classem ordinemque referendum est. (Chrysost., De Sacerdotio).

2- Sacerdotibus datum est, ut potestatem habeant, quam Deus neque Angelis, neque Archangelis datam esse voluit. Neque enim ad illos dictum est: Quaecumque ligaveritis; etc. (Chrysost., De Sacerdotio).

3- Vos (sacerdotes) recessistis de via, et scandalizastis plurimos in lege, dicit Dominus: propter quod et ergo dedi vos contemptibiles, et humiles omnibus populis. (Malachias, II, 8)

4- Dignitas sacerdotalis prius noscatur a nobis, ut servetur a nobis...: ne sit nomem inane, et crimen inmane; ne sit honor sublimis, et vita deformis...; quia sicut sacerdotio nihil excellentiuns, sic hihil miseranbilius, si crimine teneatur. (Ambros., De Sacerdotio.)

PS: Grifos meus.
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