sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

II- O Fim do Sacerdote

II- O Fim do Sacerdote


JESUS CRISTO
FALANDO AO
CORAÇÃO DO SACERDOTE
OU
MEDITAÇÕES ECLESIÁSTICAS
PARA TODOS OS DIAS DO MÊS

Escritas em italiano pelo Missionário e doutor
Bartholomeu do Monte
Traduzidas pelo
Pe. Francisco José Duarte de Macedo
(1910)

I.- Amado filho, quem te deu o ser? quem te conserva a vida? quem te concedeu todas as comodidades temporais de que gozas? quem, as graças do Batismo e dos outros Sacramentos?

Quem teve jamais o amor e a coragem de dar por ti seu próprio sangue? Eu; fui eu quem tudo isto fez por teu amor, para que me desse glória, reconhecendo-Me, amando-Me e imitando-Me; e, se isto fizeres por um breve tempo neste mundo, tenho-te preparada no outro uma glória bem-aventurada por toda a eternidade.

Dize-me, filho, poderia Eu destinar-te a um fim mais sublime? ou, se na tua mão estivera a escolha, poderias tê-lo escolhido mais elevado? Porventura os amigos, os parentes, o mundo que te cega, ou o demônio fizeram ou seriam capazes de fazer tanto por teu amor?

Eu mesmo que mais podia fazer para ganhar o teu coração?

Ah! filho, porque corres após a vaidade e a mentira? porque razão sempre pensas, te empregas, te amofinas em tudo, e só em Mim e por Mim não?!

II.- Considera, filho, como Eu procuro o teu bem? gravei caracteres em tua alma; dei-te privilégios e poderes, e te incumbi ministérios santíssimos; em certo modo, elevando-te ao Sacerdócio, te constituí árbitro de Mim mesmo: e para que? Unicamente para que, vendo-te tão grande na terra, chegasses a ser maior no Céu, pelos méritos da tua santificação, e da do teu próximo.

Separei-te do resto dos homens, para que fosses todo Meu; e assim, desapegado dos cuidados do século, te aplicasses somente ao Meu culto e à salvação do próximo.

Dize-me, filho, terás consciência para gozar as honras do Sacerdócio sem aspirar a uma virtude singular, e sem fazer coisa alguma pela salvação das almas que te entreguei?

Como satisfará aquela necessidade e utilidade da Minha Igreja, para a qual unicamente deveras ser ordenado?

Por que razão inutilizas os teus talentos, deixas ociosos os Meus dons, e frustrados os Meus desígnios?

III. - Ah! amado Sacerdote, lembra-te que o filho honra a seu pai, e o servo a seu senhor; se Eu sou teu Pai, porque Me não amas, se Sou teu Senhor, porque Me não serve? Sabes muito bem que ninguém pode servir a dois senhores. (1)

Renunciastes no batismo às pompas do mundo e ao demônio; protestaste, na recepção da ordem, que Eu havia de ser a tua herança, e te dedicastes inteiramente a Mim; depois assim Me deixas, afastando-te de Mim e do teu fim?

O mundo não te pode dar a paz; tu mesmo o confessas: vives inquieto, e inquieto viverás até que o teu coração descanse inteiramente em Mim. (2)

Deves saber, filho, que não basta para ti o que basta para qualquer cristão: Eu te fiz cristão para ti, e sacerdote para os outros. (3)

Não podes pois dizer: Basta-me salvar a minha alma. Aquele infeliz que escondeu o talento, o perdeu, e se perdeu a si mesmo. De que te servirá na hora da morte teres ganhado o mundo todo, e, não tendo cumprido o teu fim, perderes-te eternamente?

Fruto.- Toma como regra de todas as ações a máxima de São Francisco: Nada mais contra Deus, nada sem Deus, nada senão Deus. O que não serve para a eternidade feliz, é mera vaidade.

São Bernardo tinha sempre em seu coração e repetia muitas vezes com a língua: Bernardo, a que vieste à religião, se te não fazes santo? S. Rainaldo, Arcebispo de Ravenna, desde clérigo tomou por máxima e praxe o seguinte: Eu sou destinado ao culto divino: logo devo servir a Igreja; hei de salvar almas: logo devo arder em verdadeiro zelo: hei de ser douto; logo devo aplicar-me às Letras Sagradas.

Se te moveu a abraçar o estado eclesiástico outro fim, a não ser o serviço de Deus e o bem das almas, teme, chora e emenda o erro. Tens um de dois caminhos: ou viver como bom Sacerdote, e a todo o custo entrar pela porta estreita no Céu, ou, querendo caminhar pela estrada larga, parar no abismo eterno.

Notas:

1- Verum tu sacerdos Dei altissimi, cui placere gestis, mundo, an Deo? Si mundo, cur sacerdos? Si Deo, cur qualis populus, talis et sacerdos? Nam si placere vis mundo, quid tibi prodest sacerdotium? Nec enim potes duobus dominis servire. (Bernardus, Epist. 42)

2- In mundo pressuram, in me pacem habebitis. (Joan., XVI,33) Fecisti nos, Domine, ad te; inquietum est cor nostrum, donec, requiescat in te. (August., Confess., liv. I, capit. 1).

3- Clericus duas res professus es, sanctitatem et clericatum; clericatum propter populum Deus imposuit cervicibus ipsius, cui magis onus est, quam honor. (August., Sermon.)