quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Donzelas cristãs: Se não vigiardes

 Donzelas cristãs: Você e vossas responsabilidades

Se não vigiardes


Mas, e se não prestardes toda a vossa atenção, jovens minhas! Se, fatigadas de tanta vigília, cansadas de responsabilidades, ébrias de vida folgada e livre, não vos passardes para o grupo das que não mais vigiam!

Oh! se tal fizésseis...
Muitas há que já não são mais guardiãs.

Não tendo mais nelas o que preservar, como poderias fazê-lo para as demais?

Não crêem mais "nisso", e "isso" é a fé, o pudor, o verdadeiro amor, a nobreza moral.

Não crêem mais nisso, sacudiram o jugo, alçaram voo. Quando ouvimos suas risadas, quando as vemos viverem, quando sabemos do que é feita sua alegria, quando se lê em seus olhos, achamos que esse voo é belo. Levantaram voo. Digamos antes: "Rastejam, dançam na lama, sujam os sapatos". Mas voar é que não voam. Precisariam de asas para o fazer. E suas asas se quebraram, caíram, foram arrancadas.

E logo assim tão cedo... Aquelas a quem Jesus amou, aquelas que beijaram a Hóstia com seus lábios puros...

Não vigiam.

Estragam tudo; no presente que profanam mancham o futuro, e na espessa mediocridade em que se instalam enterram, com o ideal cristão, a única beleza do mundo.

Prometei-me que jamais pertencereis ao número delas, que jamais seguireis pela estrada em que vão ficando abandonadas suas virtudes, umas após outras.

Prometei-me que jamais fixareis nervosamente vossos olhos no que manchou seus olhos... que jamais abandonareis vossos corações aos prazeres que sufocaram seus corações... que jamais abandonareis vossas asas às tesouras que cortaram suas asas d'alma...

Prometei que guardareis o que elas perderam.
Porque, se não guardásseis...

Quando a guarda-barreira não presta atenção e à passagem de nível a carroça do camponês é esmagada pelo trem, os tribunais julgam essa mulher e condenam-na.

Quando o guarda-caça não presta atenção à floresta e os caçadores a invadem, matando os faisões do fazendeiro, o fazendeiro se indigna, e que é que acontece?

Quando o soldado de guarda não presta atenção ao paiol de pólvora e à trincheira, e a trincheira é tomada pelo inimigo, e o paiol de pólvora voa pelos ares, o conselho de guerra julga esse homem, e a sanção será terrível.

Desgraça e vergonha para aqueles que não souberam ou não quiseram vigiar...

Assim também vós, investidas da guarda das mais santas realidades deste mundo, se não vigiardes bem, ser-vos-á lançada a culpa, e lançada por Aquele que vos deu uma prova de a confiança quando contou convosco.

Nada há mais tremendo do que ter de dar resposta a certas perguntas:

"Caim - dizia a voz - que fizestes de teu irmão?"
"Mas serei eu acaso o guardo de meu irmão?".
"Sim", replica a voz impiedosa.

Que fizeste de tua , jovem? "Mas era eu acaso a guardiã dela?". Sim, em teu próprio coração e em alguns outros unidos ao teu. E tu a traíste, como Judas traiu. Por quanto? Pela vaidade de uma leitura, pelo miserável orgulho de uma independência de pensamento, por uma ruim paixão em que julgavas achar alegria e vida... Que fizestes de tua fé, jovem minha?

Que fizestes de teu pudor? "Mas era eu acaso guardiã dele?". Sim, eras, mas esse pudor te aborrecia. Achavas que esse pudor, encanto das mocinhas, se tornava ingênuo e até grotesco no semblante das mais velhas? Abriste então os olhos. E que é que entrou pelos teus olhos abertos? que é que saiu? Chegou o dia em que, audaciosa e risonha, não teve mais segredos para ti aquilo a que se chama vida. Trêmula, deixaste de vigiar. Se numa lágrima, quase feliz, enrolaste o pudor numa mortalha. Onde está ele agora? que fizeste de teu pudor, jovem minha?

Que fizeste do teu ideal? "Mas era eu acaso a guardiã dele?". Sim, e podes fechar os olhos e bater no peito, porque há motivos para ter vergonha. Jovem, ardorosa, confiante, com o coração palpitante, visitada pelo sonho que faz as belas almas e as santas, devias ir estrada em fora, a fronte iluminada, as asas  soerguendo os pés, a esperança e o entusiasmo flutuando ao redor da alma como uma basta cabeleira ao vento. Deverias. Tinhas a idade desses arroubos. Contigo, atrás de ti, arrastadas por ti, outras, mais jovens ou mais velhas, deveriam ir também, e todas juntas deveríeis levedar a massa, colocar óleo na lâmpada, acender estrelas na escura noite em que se arrastam tantas outras... Que fizestes do ideal? Teu rosto é terroso; teu olhar envelhecido e sem luz. Teu coração, ao sopro das grandes coisas, fica inerte como o rochedo açoitado pelos ventos. E Cristo abandonou esse túmulo, que é tua alma agora vazia de sua verdadeira vida. Só ficaram os panos dobrados do sepulcro, como recordação, e dois Anjos tristes, chorando o que não mais voltará... Que fizeste do ideal?

Que fizeste do Amor, jovem minha? "Mas era eu acaso a guardiã dele?". Sim. E acabaste sendo a que desperdiça e profana. De teu coração divino fizeste um coração de carne, que não tardará a ser um coração de pedra. Nem chegas mais a acreditar no Amor. Delicadeza, ternura, frémitos misteriosos, santas angústias à aproximação do Amado, alegria de vir a ser feliz, fidelidade em todos os minutos, dedicação que não se fatiga nem se lastima, que fizeste de tudo isso? Em que se transformou em ti o Amor? Pela estrada do egoísmo, das frivolidades e das sensualidades, desceste até onde te esperavam, para te marcarem com seu sinal, todas aquelas às quais outrora olhavas de longe com pavor...

Oh, minha jovem, que fizestes? sabes o que fizestes? Imóvel em sua grande dor, com seus dois braços estendidos e rasgados, Sua face lívida jorrando sangue, o Cruxifixo olha-te amargurado. O amor que Ele próprio foi, e que quis ofertar ao mundo, era contigo que contava para lhe realizar a santa beleza... O Amor cristão abandonava o coração indigno dos homens. Contava com teu coração, mas tua alma abandona o amor que sofre para se entregar ao amor que goza. O Amor está morto em mais uma criatura. Jovem, que fizeste do Amor?

Palavras, palavras - direis vós. Mas palavras que Deus jamais pronunciará.

Responderei: "Sim, palavras que Ele pronunciará".

Que vem a ser o juízo final? Uma pergunta de Deus, uma resposta do homem. E a pergunta de Deus é esta: "Que fizeste do que te foi dado? Que guardaste do que te foi confiado?" E a resposta do homem é a sua vida e nela, se fiel, as obras vivas, e se o não foi o amontoado de flores murchas, o acúmulo das ruínas, o silêncio acusador das coisas mortas e perdidas.

Se não vigiardes, jovens minhas...

Mas sereis guardiãs

Santa Inês, Santa Águeda, Santa Lúcia, Santa Cecília, Santa Joana d'Arc, Santa Teresa de Lisieux, todas as juvenis e admiráveis guardiãs de outros tempos e de agora serão vosso modelo.

Em sua fidelidade lereis vosso dever. Aprendereis com elas o que se guarda e como se guarda.

Em vossas casas e em vossas paróquias, guardareis a pureza praticando-a.

Em vossas igrejas guardareis o fervor, ali orando nas horas solitárias, ali enfeitando de flores os altares, ali entoando cânticos, ali comungando à Sagrada Mesa.

Em vossas ternuras, guardareis o pudor; em vossos prazeres guardareis a inocência.

Guardareis em vós, e por vós em outras, a dedicação pelos patronatos e pelas escolas cristãs... Guardareis vossos corações e vossos olhos. Sendo assim guardados, não perderão a beleza nem a profundidade. Muito pelo contrário.

E continuará a ser verdade que, graças a vós, que o tiverdes guardado realizando-o, o ideal cristão, tão necessário para o mundo, pairará sobre suas misérias, soerguerá seus desejos e fará com que, se os pés se arrastarem pela lama, o semblante, pelo menos, fique aureolado de luz, ó jovens, ó minhas jovens!

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Vocês e vossa pureza)

PS: Grifos meus.