quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Donzelas cristãs: Há guardar e guardar

DONZELAS CRISTAS:
VOCÊS E VOSSAS RESPONSABILIDADES


HÁ GUARDAR E GUARDAR

Como devem vocês servir-se das qualidades de guardiãs? Há métodos próprios para isso? Um que seja bom? Um que seja o melhor? Será mesmo que a gente aprende a ser guardiã?

Digamos que, sendo aqui a realidade múltipla e complexa, há guardar e há guardar, como há métodos diferentes de fazer a guerra, de ganhar a vida, de ser artista, de ser tudo...

Guardiãs!...

Coisas há que se guardam, abrigando-as

Vede o trigo, por exemplo. Quando é destinado ao moinho, de onde sairá farinha, precisa ser guardado em lugar seco, aos montes, no forro do celeiro, ao abrigo da chuva, que o faria apodrecer. Quando se destina a semente para o ano imediato, cobre-se com terra, que será sua fiel guardiã até à próxima primavera, porque a terra envolve as sementinhas - bela guardiã que ela é... comprime os grãos mantendo-os num ambiente tépido, e em suas entranhas, durante o inverno, protege-os do vento que os carrega e dos pássaros que os devoram.

Só voltarão à luz do dia em hora dada, quando a raiz estiver bastante profunda para resistir a todos os elementos de destruição.

Assim se guarda a pureza, minhas jovens. Deixar de a proteger é quase estragá-la. É frágil este divino esplendor. E são tantos os ventos ruins que andam pelos ares! Tantos os seres suspeitos que rodopiam! o ouro é bem guardado na caixa forte, e as cartas íntimas na pasta. E a querida pureza não merecerá acaso, não que a encerremos num subterrâneo, mas que a protejamos ao menos para quem quer que seja não a macule ou roube? Reparai nas relíquias dos santos e na lousa dos túmulos ilustres. Protege-os uma grade colocada a certa distância. São tão ávidas as pessoas piedosas! Colocai uma grade ao redor de vossa pureza. Protegei-a com um véu. Defendei-a com as mãos. Protegei-a de qualquer modo. Protegei-a.

Há coisas que se conservam, consertando-as

Os sapatos, por exemplo. Quando a sola se fende como uma ostra, ou se entreabre lamentavelmente, como um sorriso estúpido... Um vestido quando se rasga, um fundilho de calça quando se abrem uma joelheira quando... (há tantos modos de um joelho de terno furar: uma queda de bicicleta, orações demasiado longas). Em casos tais, que fazer? Nada. Em oito dias, será a morte da calça. Cerzí-la? remendá-la? É evidente, e só assim se prolongará a vida - ou a agonia - da pobre roupa puída.

Ora, a vida moral também tem suas brechas, seus rasgões, os estragos do tempo. Quando se sabe disso, é uma loucura dizer: "Pode continuar assim mesmo". Não isso é que não. Prolongar uma dúvida na fé, como uma ferida no tecido; aceitar na consciência estranha inquietações que a devastam; ir sentindo quando se gasta a trama de sua vida religiosa, não é isso resignarmo-nos a andar esfarrapados? É uma acomodação, quando o que se deveria fazer é agir para reparar.

A comunhão conserta. O retiro refaz. Quem quiser conservar intacto, fresco e quente o traje de sua alma, lembra-se bem disso...

Consertam-se certas coisas, mantendo-as limpas

Por exemplo: o asseio do rosto, das mãos e do vestuário.

Vocês sabem muito bem o que representam isto: mãos que não se lavam. Adquirem a cor dos Anamitas; as unhas ficam de luto... E o rosto dos mineiros, quando regressam do fundo das minas? e a vestimenta dos foguistas, quando saem das locomotivas? Com água e sabão, porém, tudo volta a ser branco. Quando o vento joga poeira para cima de um lírio, uma simples chuva basta para tornar a lírio mais lírio... A água pura purifica.

É assim também que se conserva a beleza da alma. Raspar, lavar, esfregar, têm o mesmo sentido aplicados ao espiritual. A alma já se mancha só com o viver. Quem a quiser limpa -  e todos o devem querer - lava-a. O arrependimento, a confissão humilde, a absolvição sacramental são em conjunto a água que lava, a escova que arremessa para longe as impurezas. Quem não se serve deles não guarda a sua beleza. Sobre ela se acumula a poeirada, se enraíza a erva daninha.

Torna-se espessa a camada. Debaixo dela, incapaz de respirar, a moral abafa. Em certo sentido, estar sujo é estar morto. Para a consciência, ser claro e livremente ativo é viver.

Deixai um quarto desocupado, exposto ao tempo, sem ser espanado, sem ser lavado, sem ser varrido. E haveis de ver...

O mesmo acontece com muitas almas. Só guardareis as vossas, limpando-as.

Muitas coisas se conservam servindo-os delas

Quem tem boa memória e não se serve dela perde-a. Se a relha do arado não trabalha, enferruja. O bíceps do lutador enfraquece se não faz exercícios. A pianista que não toca sentirá endurecidos os dedos. E as pernas, se não fazem movimentos, anquilosam-se.

O exercício gasta, mas faz principalmente viver. Vontade, estômago, gosto artístico, pulmões, tudo está submetido a essa lei. Utilizar é, em todos estes casos, conservar.

Por este método, preserva-se a fé. Não a expor é conservá-la, sim, e no entanto há que a expor. Mas os que se limitam a este processo negativo arriscam-se a não conservar senão uma fé pobre, anêmica, a não abrigar senão convicções raquíticas e franzinas.

A fé que não age não pode desenvolver-se. Mantém-se em estado infantil. É frágil, muitas vezes incapaz de se defender, portanto exposta á morte.

O melhor modo de conservar um ente vivo é torná-lo mais vivo ainda. Obrigá-lo à ação. A experiência o comprova.

Quereis conservar a fé, minhas jovens? Fazei com que ela trabalhe; praticai as obras que ela prescreve; multiplicai as ocasiões de agir por ela e em seu nome; devotai-vos por ela. Alimentando-vos dela, alimentá-la-eis. A fé que morre é quase sempre uma fé que estava adormecida. A fé que se contentava de o ser sem agir e que agora - isso era fatal - nem sequer pode mais ser.

Perguntai às cantoras como é que elas guardam sua fé. Cantando, decerto. E aí tendes a verdadeira fórmula para guardar a fé: vivê-la.

Preservam-se certas coisas defendendo-as

Um pastor dispõe de cajado e de cães. É com eles que guarda o rebanho. Um soldado dispõe de fuzil, e com ele monta guarda à trincheira.

Guardar é muitas vezes lutar defendendo. Nada fazer quando o inimigo ataca é perder tudo de uma vez só. É mister, desde logo, que o cão ladre e que o bastão escorrace o lobo.

Ora, contra as santas realidades que vos foram confiadas, múltiplos ataques surgem, minhas jovens. Irrogam-se calúnias, ousam-se blasfêmias, correm de boca em boca palavras feias. Insultam, levantam falsos testemunhos. Deixaríeis que tudo se dissesse e tudo se fizesse, ficando em paz com vosso dever depois de tais silêncios? Será o mesmo que condecorar os desertores e recompensar a pastora por haver metido o cordeiro na guela do lobo. Há silêncios nobres e corajosos. Outros há que revelam vergonhosa pusilanimidade. Devemos saber falar, senhorinhas, e protestar vigorosamente contra uns tantos senhores de certos escritórios e umas tantas jovens de certas oficinas. Quem se arroga o direito de dizer tolices dá  a quem o ouve o direito de replicar.

Atacar é convidar a defender-se. Porque têm todas as audácias as bocas silenciosas e são tímidos os lábios castos: A língua das jovens cristãs só é feita para a oração e os cânticos. Palavras sujas jamais as deverá  proferir, mas algumas vezes poderá lançar mão de expressões vivas e mordazes, que ressoem e caustiquem. Só com elas a jovem guardará sua independência e afirmará sua digna altivez. Para que as demais guardem silêncio, convém que o não guardeis vós outras. A empregada da casa de Caifás não teria insistido três vezes com São Pedro se São Pedro lhe houvesse respondido logo. Mas São Pedro não ousava e ela então ousou. Audacioso topete! Ela não o teria tão audacioso nos lábios se São Pedro não se houvesse contentado em tê-lo audacioso na cabeça (nas imagens de São Pedro sempre aparece um lindo topete uma bela mecha de cabelos, bem ao meio... São Paulo, que era calvo, tinha o topete nos lábios... o que era bem melhor...)

Para guardar há que defender.

Que ao menos o compreendam as mais inteligentes e capazes. Em vinte, que haja ao menos uma que seja capaz de, em nome de suas companheiras mais tímidas, ter a ousadia de soltar o grito indignado, censurar com firmeza a palavra feia ou estúpida. E defender desse modo, minhas filhas, não será, mais do que pensais, guardar a fé, a piedade, a confiança e a paz em muitas jovens mais fracas, que de vós precisam para não perderem o que elas sozinhas são incapazes de proteger?

Há coisas que se mantém pelo sacrifício

Não parece tolice? Sacrificar-se a uma causa é deixar de a defender e, portanto, comprometê-la. E, no entanto, é rigorosamente verdadeiro que os mortos da guerra, morrendo pela Pátria, guardaram a Pátria. E, se ninguém consentisse em sacrificar-se pela Pátria, sem dúvida que a Pátria é que seria sacrificada.

Morrendo por Cristo, os mártires pretenderam guardá-lO para eles mesmos e para o mundo. Tiveram razão? Decerto que sim. As grandes idéias vivem sobretudo do número dos heróis que as afirmaram. Nenhuma afirmação vale o sacrifício. Nenhum testemunho é poderoso como a morte.

Para que uma causa perdure deve primeiramente, em alguns ser a tal ponto viva que se resigne a cair por ela. No dia em que uma causa apresentar suas vítimas voluntárias, pode contar com o futuro. Suas vítimas guardam-na, não como estátuas guardando um túmulo, mas como testemunhas guardando uma verdade e como bravos apertando a bandeira ao coração.

Quereis, minhas jovens, que Deus fique em vós e, por vós, no mundo? Levai por Ele vossa generosidade até ao sacrifício. Quando por Ele houverdes dado o dinheiro que vossos prazeres reclamam; quando por Ele houverdes despedaçado vosso coração, arrancando de lá uma afeição ilegítima ou por demais terna; quando por ele cair dolorosamente sobre vós a crítica perversa, o sorriso vil, a zombaria; quando, por causa de Deus, houverdes chorado, ficai seguras de que O tereis guardado.

E em muitos corações O tereis colocado...

Não falo aqui do testemunho do sangue. Seria levar as coisas para o lado trágico. No entanto, através de todos os séculos, muitas jovens o derramaram. E isso ainda há pouco tempo aconteceu, em terras mexicanas, por amor a Cristo-Rei.

De todas as guardiãs são essas as mais verdadeiras...

Não foi pela Cruz que Cristo Jesus entregou Deus aos homens? Não é principalmente pela Cruz que Ele o conserva indefinidamente?

Porque a morte na Cruz é a mais alta prova do Amor de Deus num coração, e é também a Sua mais fiel sentinela.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Se não vigiardes)

PS: Grifos meus.