segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Jovens donzelas: O que a Igreja vos pede

JOVENS E A IGREJA


O QUE ELA VOS PEDE

Pede-vos tudo quanto vos ordena

Pede que restituais a outrem o que lhe é devido, que respeiteis seus bens, reputação, felicidade, e que, se é culpado ou desgraçado, não o seja injustamente, por culpa vossa.

Espera que sigais, no uso dos prazeres, nas satisfações dadas aos sentidos, no emprego do coração, as sagradas regras que fazem da vida humana uma vida moral e da juventude alguma coisa divinamente bela.

Espera que sejais virgens sábias, e não virgens loucas, com receio de que, se não fordes sábias hoje, menos ainda o sejais amanhã. Que é uma virgem sábia? A que faz da vida uma preparação séria, uma expectativa diligente, pois sabe que o Mestre voltará e que não serão todas que então hão de entrar na sala do festim. Então, cuidadosa e prudente, conserva-se em estado de alerta; sua lâmpada está provida, quer dizer: sua consciência é pura, o coração cheio de amor. Ao primeiro apelo, levantar-se-á sem angústia, porque digna ao Esposo, de caridade na mão, realiza as condições requeridas para ser convidada às núpcias eternas. Não faz da vida uma diversão, uma bacanal, um sono pesado entre duas diversões.

Tanto pior para quem leva as coisas por esse lado. Quando a si, sábia e cautelosa que é, deixa as loucas entregues à sua loucura e, à margem do turbilhão, sentada, recolhida, grave como a própria vida, pensa em que tudo passa menos Deus que mais noite menos noite a morte chega, e que a razão estará ao lado, não das que aqui no mundo muito tiverem rido, mas das que, santamente ativas, houverem preparado o encontro com Cristo.

Espera que sejais, segundo o Evangelho, o sal da Terra, luz do mundo, levedo da massa, o santo perfume de Jesus Cristo.

Sal da Terra, e sabeis o que isso quer dizer: que com vosso fervor consigais impedir que a podridão tudo domine e que retardeis a corrupção que trabalha no coração da humanidade.

Luz do mundo, e sabeis o que isso quer dizer: que de vossa fronte pura, de vosso olhar sem pecado, de vossa sorridente bondade, de vosso irradiante pudor, de vossa exemplar conduta, se desprenda essa misteriosa claridade em que sempre se envolvem as almas nobres, e em que instintivamente, como que em abandono, se refugiam as almas nobres, ou simplesmente mais inquietas e mais dolorosas.

Levedo da massa, e sabeis o que isso quer dizer: que na mediocridade comum, na indiferença do vosso meio, no ambiente pesado de tantas consciências deprimidas e chatas, sejais para outras esse princípio ativo, secreto e discreto, mas poderoso, que regenera, levanta as energias caídas, dilata os corações retraídos. Pouco levedo é bastante para muita massa. Muito bem pode praticar uma alma generosa. Uma só.

Santo perfume de Jesus Cristo, e sabeis o que isto quer dizer: que se desprenda de vós, não volúpia, nem sensualidade, nem vício, nem leviandade, nem egoísmo, nem dureza, mas alguma coisa muito pura e muito doce, que faz com que as crianças tenham confiança em vós, como a tinham em Jesus, e que os infelizes voltem de novo a esperar, como o faziam também em torno de Jesus, e que os culpados, confusos, constrangidos, mas não esmagados, se sintam a um tempo miseráveis e capazes de não mais o serem, como quando em presença de Jesus.

Espera que respeiteis em vós mesmas o futuro com todas as suas promessas e exigências, o passado com todas as suas lições, o presente com todos os apelos divinos que o solicitam.

Espera que considereis o mais belo dia de vossa vida, não aquele em que houverdes conquistado um jovem perturbando-o, mas aquele em que houverdes salvado uma alma, apaziguando-a se treme, consolando-a se está só.

Espera que prefirais ser boas a ser felizes e que, tornando-se impossível ser ao mesmo tempo uma e outra coisa, escolhais a bondade sem a felicidade, do que a preferência à felicidade sem a bondade.

Espera que, se por desgraça comerdes o fruto proibido, não cometais ao menos o crime de o colher para outros na árvore do mal e não lho ofereçais com um gesto satânico de cumplicidade.

Espera que olheis para o lado das santas, seguindo-lhes o cortejo, e não o lado das frívolas, juntando-vos ao seu bando.

Espera que vos confesseis para serdes puras, que comungueis para serdes fortes, que sejais fortes e puras para passardes pelo mundo santificando-o, sem correrdes o risco de ele vos corromper.

Espera que prepareis para vós mesmas a alegria, a alegria suprema, ao declinar da juventude, a alegria de poderdes dizer: "Não fiz voluntariamente mal a ninguém".

Ela o espera de vós, senhorinhas, e a expectativa não será de todo em vão, eu o sei...

Pede-vos que a honreis

Há filhas que envergonham sua mãe; a mãe não ousa falar delas, mas cora quando outros o fazem. Apenas se lhe abre a porta da rua. Sua presença incomoda. Há como que um abismo entre filha e mãe... Até então, a mãe andava em público toda feliz e orgulhosa de sua filha. A reputação estava intacta, a honestidade era reconhecida. E agora? Não é que a mãe seja culpada, não. Não passa de uma infeliz. Mas, enfim, da mãe à filha há um laço de carne, que prende, mais duro que a morte. Ambas têm o mesmo nome. Talvez os mesmos traços fisionômicos. Uma tornou-se indigna, a outra esconde-se e chora.

E essas lágrimas, mais amargas que as de luto às beira de um túmulo, são também menos consoladas: "Ama-la-ia mais estando morta do que manchada". É o grito das verdadeiras mães. Compreendo-o. Não há vergonha de ter mãe de uma criança que dorme à sombra da cruz, no cemitério. Mas há vergonha em ser mãe de tal jovem viva... O luto desperta simpatias; a desonra abre um vazio. E que flores devem ser plantadas no pequenino jardim, para a filha de quem só a fotografia é capaz de manchar uma parede caiada de branco?

Não é sofrendo nem morrendo que se desonra uma mãe. Apenas pode ser afligida. É tornando-se indigna, escandalosa ou, sem chegar a tais extremos, mostrando-se tão insignificante e tão leviana que a mãe, séria, não pode deixar de menear tristemente a cabeça, que se inclina...

Para uma moça, honrar sua mãe é mostrar-lhe dotada de tal valor intelectual, moral e religioso, e de tal delicadeza e bondade, de tão irrepreensível conduta que provoca nos demais, como que instintivamente, uma atitude de simpatia e respeito, simpatia e respeito que atingem a própria mãe, que entrou em muito, ninguém o duvida, nas qualidades da filha.

Por conseqüência, a mãe, ao lembrar-se da filha, sorri; junto dela mostra-se humildemente ativa; sente os ombros aliviados do peso dos dias; acompanhando-a pelas ruas. Vai feliz e transbordante de contentamento. Acha neste contato um apoio para seus anos da velhice, uma compensação para os sofrimento que lhe advêm, de outros caminhos da vida.

E vós bem sabeis, jovem, o que é honrar uma mãe, não? Pois vossa mãe, ao fitar-vos, sente-se feliz, e vossos olhos não fazem com que se baixem suas pálpebras.

Também a Igreja, esposa de Cristo e vossa mãe, espera que a honreis.

Aí por fora toda a gente sabe que és sua filha, que lhe pertences. E como é que não haveriam de o saber? Vêem-te, em seus templos, entoar cânticos, enfeitar altares. Vêem-te de joelhos, junto aos confessionários e na mesa eucarística. Vêem-te nas escolas e nos patronatos, trabalhando oficialmente para ela. Vêem-te nas reuniões, nos retiros, nas procissões, nas peregrinações, nos congressos.

Sois a Igreja, jovens queridas. Isso é o que dizem. Isso é o que também vós dizeis. Não o fazeis por ostentação, mas também não o ocultais.

E ai esta quem vos obriga.

Este laço estabelece entre ela e vós uma intimidade, uma relação de filho com a mãe, que se torna logo o ponto de partida de dulcíssimas e imponentes responsabilidades.

Honrar a Igreja... Agir de forma que, só com olhar-vos, vos respeitam, estimam e admiram, e em vós, inseparavelmente, a respeitam, estimam e admiram também.

O oposto é bem freqüente, como também é lamentável. É o inimigo que vigia, espreita vossas fraquezas para com ela poder acusar a Igreja, e procura alguma coisa que criticar em vós outras para se arrogar o direito de tudo criticar nela. É o inimigo que se sente feliz, maldosamente satisfeito e triunfante, quando lhe dais pretexto para a desprezar.

Não honrais a Igreja quando vos conduzis mal ou vos comportais menos bem do que as que não a reconhecem como mãe e não pedem à sua doutrina a base de sua moralidade.

Não honrais a Igreja quando misturais o bem com o mal, a piedade com o pecado. Acendeis duas velas, uma a Deus, outra ao Diabo. Colheis alternadamente o fruto da árvore da vida e da árvore da morte. Dais uma hora a um Senhor e outra hora a outro senhor... Servis Baal e Jesus, como diz São Paulo. Ah! eu sei, vossa consciência se acomoda como pode. Estamos diante de uma verdadeira comédia. Mas, enfim, comédia angustiosa, não?

Vós vão se habituando. Mal vos dais conta. Abre-se uma porta entre o salão de baile e o templo de orações. Cada um dos compartimentos do coração tem seu amor. Mas não há dúvida que o monograma de Cristo está mal inscrito em vossas fisionomias.

Digamos logo a palavra como ela é: vergonha. E que vergonha!...

Em todas essas combinações, de toda essa miscelânea, de toda essa salada em que as danças pecaminosas se confundem com a santa comunhão, em que uma pobre gota de vinagre da austeridade cristã se mistura com o óleo abundante de todas as doçuras mundanas, que é que resulta? Qualquer coisa de alguém cujo nome se desconhece. Cristã? Talvez. Pagã? Talvez. Mas nada que exprima a beleza pura.

E o forasteiro simpático ou malévolo, que assiste ao desfile desta piedade trajada de mundanismo, e desse mundanismo trajado de piedade, diz de si para consigo: "Nada... Nada senão tudo isso... Se essa é a obra da Igreja, se isso é a sua obra prima, pobre mestra que ela é! Que artista medíocre na escultura das almas!"

Não honrais a Igreja quando sois dura para os que entram em contato de alma convosco. Semelhante severidade contrasta com a indulgência evangélica, e a doçura, com suas condescendências e pacientes bondades, é uma clara revelação de Jesus Cristo.

Assim também, quando sois egoístas. Quem vos vê centralizar tudo em vós, receber e não dar, preocupar-vos com vossas insignificantes contrariedades e não reparar nos grandes sofrimentos de uma outra, às vezes bem perto de vós; quem vos vê espalhar vosso eu como um assoberbante lençol de água, ou erguê-lo como uma torre insolente entre casas acanhadas - não pode, de modo algum, venerar a Igreja em vós. Não pode amá-la. Ama-a no coração de uma Irmãzinha dos Pobres. No vosso, sem caridade, nada vos atrai. Quando o egoísta entra no templo, logo imobiliza ao limiar da porta aqueles que, com razão, pensavam ensinar-se no templo o amor cristão.

Assim também quando desprezais os outros. E com que direito. Deus do céu, os desprezais? Se sois bela, há alguém mais belo que vós. Se sois ricas, há alguém mais rico que vós. Se inteligentes, alguém que o é mais. E, admitindo que sejais tudo isso em grau supremo, é razão para desdenhar dos outros? O desprezo revela falta de amor, está indicando que o coração é de pedra, não de carne.

Ó senhorinhas, não fites ninguém do lato da tua suposta grandeza, pois, diante de Deus, não há mestres nem servidores, e Madalena, prostrada em lágrimas está mais perto de Cristo que o Fariseu no alto do trono da sua virtude.

Se a alguém desprezamos - e isto é logo percebido - fazendo-lhe mal, porque lançamos à sua alma o germe do desânimo, do abatimento e de uma possível revolta. Entre irmãos - e todos os cristãos o devem ser - o desprezo é uma grave falta. No que despreza, aí se instala permanentemente o orgulho. E naquele ou naquela que é desprezado é de temer a tentação de vir a tornar-se realmente desprezível.

Não desprezeis nenhuma das vossas companheiras, jovens. E vós, que voltais da Sagrada Mesa, não piseis os humildes que para ela se dirigem.

O desprezo causa muitos sofrimentos. Quando se insinua no âmago das próprias amabilidades e nos gestos de caridade, estraga-os; mata-lhes o encanto. Quantos seres deixam de amar a Igreja porque não se julgam mais amados por ela! E porque perderam  a fé em seu amor? Porque passaram a vê-la no rosto desdenhoso de qualquer donzela piedosa, e porque não descobriram, em jovens que acreditaram tivessem a leal bondade de Jesus, senão a indulgência altaneira que julga rebaixar-se quando estende a mão, e quando presta um serviço parece ter prazer em humilhar.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Pede-vos que lhe prepareis o futuro)

PS: Grifos meus.