domingo, 2 de janeiro de 2011

Jovens donzelas cristãs: Vocês e a Igreja

JOVENS DONZELAS CRISTÃS

Vocês e a Igreja


Jovens!...

A Igreja e vocês!

A Igreja sois vós!... Nasceu para vós!... Nascestes para ela!... A ela assistem direitos... a vocês imponde deveres!... Aos seus apelos correspondem vossas respostas!... O que vos dá, o que vos pede!...

O assunto é vasto, e o problema é solene. Há um passado inteiro que entra aqui em jogo, como há um futuro inteiro empenhado.

A Igreja, mãe dolorosa e grave, a fronte curvada de tantas angústias, os ombros sob o peso de tantas responsabilidades, vede, jovens, que a Igreja está olhando para vocês. E espera que, só em olhá-la, saibas compreender.

Não baixeis os olhos, não desvieis a cabeça. Isso não passaria de uma vil ingratidão. Sede simplesmente sinceras. Aparecei com vosso rosto em frente ao seu, deixai-vos iluminar pelos seus clarões.

Lede em sua face augusta a história dos trabalhos que por vocês cometeu e o programa de vossa missão, dessa nobre missão que para ela haveis de cumprir.

O que ela vos dá

O que não é só dela

Não foi a Igreja que através dos anos ocupou vossa vida, tratou de vossos insignificantes sofrimentos de criança, enxugou as pequeninas pérolas de vossas lágrimas. Entretanto, os que vos amaram e consolaram talvez o houvessem feito com menor delicadeza se a alma maternal da Igreja não houvesse penetrado profundamente neles.

Não foram seus lábios, ó jovens queridas, que vos depositaram nas frontes infantis o beijo das manhãs e das noites. Mas é bem possível que sem ela o beijo tivesse sido menos suave, porque o coração de vossas mães teria sido menos puro e a ternura menos divinamente profunda.

Não foi ela que vos ensinou a soletrar as sílabas, a pronunciar e a ler as palavras, a escrever as letras e os números... Mas quem sabe se não foi mesmo ela?... Quem vos mandou as professoras? e que seria da instrução do povo se a Igreja jamais tivesse existido? Lembrai-vos de que nesse mesmo século em que São João Batista de la Salle empreendia em alta escala a educação dos povos, Voltaire dizia isto:

"Há que proibir o estudo aos lavradores... Parece-me essencial que haja miseráveis ignorantes... O povo será sempre louco e bárbaro: são bois precisados de canga, agulhão e capim..."

O que absolutamente não é dela

Certamente não foi ela que vos cortou os cabelos "à la garçonne"... Ah! se o tivesse sido, quantos gritos, quantas indignações em nome da liberdade individual, do bom gosto, dos resfriados... Quantos protestos!... Mas não foi ela, não... Foram outros, bem outros altares, não nos seus, que se consumou o sacrifício... Não é ela a segadoura desta messe loura... Não é ela, não... Chega mesmo a não gostar que o tivessem feito... Inquieta-se... E vai se perguntando a si mesma... aonde é que isso vai parar... quem ganhará com tais práticas... Sabe que o problema da salvação não é um problema de cabelos cortados ou não cortados; por ter tido os cabelos por demais compridos, enforcou-se Absalão; por tê-los demais curtos, Sansão perdeu a força; por ser calvo, Eliseu faz-se insultar... E ela sabe de tudo isso... Pensa que há dois modos de tratar a harpa, um tendo-a na mão, para dela tirar sons harmoniosos, e outro que consiste em mantê-la suspensa dos salgueiros do rio, apreciando seu melancólico silêncio. Pensa também que os cabelos poderá uma jovem guardá-los em sua gavetinha, de reserva para a época em que a moda os exigir compridos, mas também entende que a jovem os poderá conservar na cabeça, lugar, afinal de contas, que lhes seria muito adequado...

Em resumo, senhorinhas, não foi a Igreja que vos cortou os cabelos, foi a moda, foram vocês mesmas... Não ela...

Não foi ela que encurtou vossos vestidos... Se a coisa só dependesse da Igreja, te-lo-íeis mais compridos... pelo menos um pouco mais compridos... Não foi ela que suprimiu as mangas de vossos vestidos... Quem foi então?

Não ela! Ao contrário, não se cansa de protestar... Não foi ela que inventou os decotes, os escandalosos decotes... Muitas vezes se envergonha de vocês, ó moças levianas, moças voluptuosas, moças tentadoras. E não poucas vezes vossa imprudência censura o gesto de pudor maternal com que ela cobre com um manto vossos ombros. Quando as filhas de Jerusalém se vestem como as filhas de Babilônia, o templo vivo não tardará a sofrer ultraje... Quando as cristãs se gloriam daquilo que para o Crucificado constituía um silencioso tormento, por onde é que anda o progresso do mundo? E que feiticeira é essa que seduziu as virgens prudentes?

Não foi ela que vos adornou as salas de baile nem ainda é ela que marca o ritmo do tango. Vê-vos dançar tomada de ânsias, ouve a cadência de vossos passos por sobre o assoalho. Aflige-se com vossa tranquilidade; surpreende-se com vossas audácias; escandaliza-se em ver a ronda noturna acabar em comunhão matinal...

Não é ela que alinha, nas vitrinas das livrarias, nos quiosques das cidades, nas bibliotecas das estradas de ferro, os livros tentadores, as brochuras licenciosas, todo um aparato de sedução, menos terrível que um material de tortura, mas muito daninho... Não é ela... Seu coração sofre bastante quando vossas mãos se estendem para estas coisas. Se pudesse, mais terna que brutal, haveria de as arrancar de vocês... Treme pelo que vos arriscais a perder; indigna-se com ver vocês todas entregarem-se inconscientemente aos atrativos mortais. Não compreende que vocês não compreendam...

Não é ela que vos propõe o "flirt", que prepara para vocês os encontros suspeitos; que combina os pós e os cremes para os olhos e a boca... Não é ela que vos diz, assim com um sorriso displicente, que "vosso amor é livre", que "vosso corpo vos pertence", que o "direito à felicidade" é a própria fórmula da vida...

Não é ela...

E eis porque todas essas -- e tantas -- para quem tudo isso (danças, toilettes, frivolidades, amor) é tudo, assumem perante ela, ou uma atitude de indiferença, visto que essa Igreja não serve para nada, ou uma atitude de desprezo, visto que essa Igreja nada entende disso, ou uma atitude de rancorosa hostilidade, já que essa Igreja estraga tudo...

Louquinhas, crendo-se sábias... Em boa verdade, são lógicas consigo mesmas. Pois, se comer, beber, rir, dançar, perfumar-se, enfeitar-se, namorar, gozar, se tudo isso é a vida, a Igreja nada tem que fazer ao meio desse negócio...

Ou então ela é demais aqui na terra, já bastante infeliz, para vir oprimi-la mais ainda com suas censuras, suas proibições, suas perpétuas intervenções na felicidade humana, como se estivesse empenhada em dar cabo dela!

O que ela parece fazer contra vocês

Realmente, a Igreja está em toda a parte, ao longo das estradas, pelas encruzilhadas, nas praças, pelo limiar das casas.

Com olhar vigilante, ora de quem ameaça, ora de quem acusa; o braço erguido, como que para dispensar a cavalgada dos prazeres; o dedo sobre os lábios, como que para impor silêncio à canção alegre.

Que adianta negá-lo, minhas jovens? A Igreja parece estar trabalhando contra vocês, e há em vós, nas horas más, um mundo de pensamentos e de emoção que se revolta a missão que ela desempenha.

Ergue barreiras diante da independência de vossos vinte anos, afixa cartazes com estes dizeres: "Transito impedido". Na árvore dos prazeres, onde a serpente trama seduções, para quantos frutos aponta com a marca de frutos proibidos! Venda os olhos da mocidade para esconder dela o que os instintos desejam...

Em vosso coração, limita o direito a qualquer amor, como em vossos lábios a qualquer declaração ou beijo... Seus preceitos, seus habituais conselhos, suas constantes diretivas em matéria de "toilette", de diversões, de visitas, parecem inspirar-se numa desconfiança de vocês mesmas, numa vontade clara de vos por limites à felicidade, numa preocupação em esconder vossa beleza.

Quanto tantas vozes vos chamam, é ela a única a dizer-vos: "Não vades..."

Bem no fundo de vossas culpáveis alegrias, é ainda ela que mantém impiedosamente o remorso. Martiriza o coração, mandando que o conserveis puro e livre. Faz-vos sofrer, deixa-vos chorar, conservando perante vossas fraquezas, luminoso e exigente, o ideal cristão que as condena.

Impede que constituais vossa felicidade à custa do pecado e que pagueis com vossa virtude os excitantes êxitos com que tantas outras se embriagam.

E então é isto que ocorre: a impaciência toma conta de vocês, enerva-vos o barulho das cadeias religiosas, vossos olhos irritados despedem chamas contra a Carcereira... Ou então, sem cólera mas entristecidas, contentai-vos em xingá-la silenciosamente. E quando, nesse estado de alma, se vos fala da Igreja, de seus benefícios, do amor que lhes deveis, essas palavras despertam em vossos lábios um sorriso vagamente desabusado; ouvis e pensais: "Sim, sim... mas, por mim, o que dela sei são os obstáculos que opõe aos meus caprichos e a fria sombra que estende por cima de minha juventude...".

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: O que ela realmente vos dá)

PS: Grifos meus.
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