sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

GRAUS DE SIMPLICIDADE

A SIMPLICIDADE
SEGUNDO
O EVANGELHO
Instruções às senhoras e às jovens
(Por Monsenhor de Gibergues)

SEGUNDO  CAPÍTULO


GRAUS DE SIMPLICIDADE

Existem graus de simplicidade, a simplicidade será tanto mais elevada e perfeita quando:

- mais atual for a intenção;- mais pura for esta intenção.

De início, a simplicidade exige que excluamos inteiramente de nossa intenção tudo que seja contrário a vontade divina, e sobretudo, incompatível com a posse de Deus - nosso último fim: em síntese, tudo que é denominado pela teologia como pecado, mortal ou venial.

Depois, exige que, em se tratando de fins permitidos ou mesmo ordenados por Deus, mas secundários, não nos apeguemos a eles como se fossem fins últimos; não nos inclinemos para um bem terrestre, mesmo legítimo, com desejo e amor tão intensos que nos façam preferi-lo ao bem eterno.

Feitas estas ressalvas, a simplicidade nos permite agir visando a objetivos inferiores e secundários, quando legítimos. Por exemplo: testemunhar respeito e carinho a nossos pais, reconhecimento a nossos benfeitores, compaixão aos que sofrem.

Permite-nos agir para melhorar a saúde, para nos sairmos bem num exame, para progredir numa carreira, para obter lucros lícitos. Tudo isto, portanto, é permitido, frequentemente louvável, e algumas vezes até mandado.

Todas essas intenções estão dentro da ordem, pois se ajuntam à vontade de Deus. Se tivermos o cuidado de as oferecer a Deus, quando as realizamos, é ainda a Ele que procuramos.

Logo, devemos ter a firme vontade de excluir tudo o que desagrada a Deus, procurando apenas como fim secundário aquilo que Ele nos permite ou ordena, e somente a Ele nos prendendo como a um fim último. Por outras palavras, se, em estado de graça, aceitamos generosamente todas as obrigações da vida cristã, com o sincero desejo de tudo oferecer a Deus, atingimos a pureza de intenção. Praticamos, então, a simplicidade, desde que nossa alma permaneça nesse estado e nessa atitude, muito embora nem sempre pensemos nisso de maneira atual.

"O viajante, que está no bom caminho, diz São Tomás, não tem, de modo algum, necessidade de pensar a cada passo aonde quer chegar; da mesma sorte, a alma que possui a vontade formal e constante de alcançar a Deus não precisa renovar essa intenção em cada ato".

No dizer dos teólogos, enquanto a primeira intenção não for retratada, permanece virtualmente, isto é, pela sua virtude e pela própria força, perpassa em todas as nossas ações, penetra-as e comunica-lhes valor. Mediante a intenção resoluta e perseverante, a alma orienta-se para o seu fim; vai a Deus, da mesma maneira que os rios, seguindo seu curso, lançam-se no mar.

Se, em todas as coisas, decidirmos agir para Deus, se não retratarmos essa vontade inicial, se ela tiver alguma influência sobre os nossos atos, mesmo que disso não tenhamos uma consciência atual, caminhamos na ordem, aproximamo-nos de nosso fim último, trabalhamos para Deus: e já adquirimos, ao menos, em certo grau, a simplicidade e a pureza de intenção.

Todavia, se, agindo, pensamos constantemente em Deus para oferecer-Lhe nossos atos, se reanimamos sempre nosso coração o desejo de agradar-lO de amá-lO, se renovamos atualmente a vontade de tudo Lhe atribuir, é evidente que a força e a intensidade de nossa intenção aumentam, e cresce na medida o valor moral das nossas ações. Quanto mais nossas intenções forem atuais e intensas, tanto mais santas serão nossas ações, pois são inspiradas por maior simplicidade.

***

Assim, os motivos, que entram na intenção radical de agir para Deus têm, intrisecamente, um valor muito desigual, que é transmitido à intenção e ao ato.

Destarte, podereis desejar a obtenção de bens temporais legítimos e, para consegui-los, dar esmolas, fazer orações e penitências.

Esta intenção é boa quando acompanhada de verdadeira submissão à vontade de Deus. Mas é de todas a menos perfeita porque seu objetivo não ultrapassa os planos terrestres. Estais ainda no primeiro grau da simplicidade, pois, embora legítimo, tal motivo é o menos elevado de todos.

A ação pode ser determinada pelo temor dos castigos de Deus. Se esse temor fosse apenas servil, tudo inutilizaria: se o pecado fosse evitado tão só pelo medo do castigo, a ponto de desejardes que a punição não existisse para poderdes pecar à vontade, tal intenção seria má e condenável.

Mas, se o temor é filial, se achardes justo que Deus castigue o pecado, se o evitardes com o receio de perder a graça de Deus, a intenção é boa, louvável e recomendada pela Escritura.

Vosso motivo já é superior ao precedente: não são mais os bens temporais que estareis cobiçando, mas sim a perda dos bens espirituais que estareis perdendo.

Se olhardes, porém, os bens espirituais em si próprios, com o desejo de alcançar recompensa prometida; se disserdes como o Salmista: "Meu Deus! inclinei meu coração a praticar sempre as Vossas leis por causa da recompensa" (Salmo CXVIII, 112), vossa intenção eleva-se e torna-se melhor. Entretanto, já é muito alta e muito santa, uma vez que é o próprio Deus o salário prometido aos justos, de acordo com a promessa feita a Abrãao: "... Eu serei tua recompensa, grande acima de tudo." (Gênesis, XV, 1)

Enfim, as vossas ações podem ser diretamente orientadas para Deus. De todas as intenções é esta, evidentemente, a mais perfeita. Esta intenção pode ser concebida e formulada de dois modos diferentes.

Podereis, antes de tudo, vos propor agradar a Deus e merecer, assim, Suas graças e complacências. Certamente, agir deste modo já é amar a Deus; amá-lO mesmo muito e preferi-lO a tudo mais.

Entretanto, ainda existe uma intenção, mais elevada e pura, porque existe um amor perfeito. Podemos amar a Deus por Ele só, sem nenhuma contemplação pessoal, sem qualquer egoísmo. Podemos nos esquecer a nós mesmos, "perder a alma", como diz o Evangelho, para ver unicamente a Deus.

Não se trata de suprimir a virtude da esperança em favor da caridade: incidiríamos, assim, em erro condenado pela Igreja. Devemos desejar a Deus, procurá-lO, esperá-lO: e realmente, tenha ou não consciência dessa verdade, a alma quanto mais espera, mais ama.

Quando, porém, a alma se enamora profundamente de Deus, chega a um ponto em que apenas a Ele vê. Esquece-se de tudo que Deus lhe dá, para nada mais considerar senão a Ele. Ama a Deus por amá-lO; serve-O por servi-lO, sem dar importância à alegria ou aos bens que assim possa encontrar.

"Sem dúvida, este ato de amor pertence à alma que o realiza, diz Monsenhor Gay (Instructions pour tes personnes du monde, T. II, ch. V. Pureté d'intention); mas neste ato, ela não mais desempenha papel algum: Deus aí é tudo. Deus aí reina só."

Foi assim que os santos amaram a Deus. E foi porque O amaram a esse ponto que se tornaram santos. São esses impulsos desinteressados, esse divino esquecimento, essa renúncia total de si próprio, esses arroubos do coração e esses transportes de puro amor que se encontram a todo momento na vida e nas obras dos santos.

Já Davi exclamava: "Que desejarei eu, sobre a terra e no céu, senão a Vós, ó meu Deus?" (Salmo LXXII, 25)

São Bernardo escreveu: "O puro amor não é mercenário; não tira sua força da esperança; contenta-se em amar". (Sermão 83, sobre o Cântico)

São Tomás não pedia a Deus outra recompensa além do "próprio Deus".

São João da Cruz chegava a ponto de dizer: "Aquele que ama verdadeiramente a Deus não O amaria menos, e nada menos faria para Ele, se, admitindo o impossível, Deus pudesse ignorar esse amor e esses atos ou não lhes desse valor algum". (Sentenças)

E alhures: "É particularidade do perfeito amor nunca preocupar-se consigo, nada querer ou reservar para si, nada arrogar-se, mas tudo dar àquele a quem ama". (Explicação do Cântico, estrofe 32).

Tal foi habitualmente, o amor de Maria; o olhar de Deus nunca encontrou no coração da Virgem incomparável o menor vestígio de interesse ou de complacência pessoal.

Tal foi acima de tudo, o amor de Jesus pelo Pai. "O Cristo, disse São Paulo, não buscou o que a Ele próprio satisfazia" (Ep. Romanos, XV, 3), mas visava sempre a vontade divina da qual nunca se apartava, podendo afirmar com toda a verdade: "... Faço sempre o que agrada ao Pai." (São João, VII, 29).

***

Por conseguinte, há graus de simplicidade e de pureza de intenção, como há graus no amor.

Quanto mais pura e atual for a intenção, isto é, quanto mais direta e fortemente se dirigir a Deus, desvencilhada de qualquer outro motivo; mais puro e perfeito se tornará o amor, mais santa e meritória será a obra realizada. A perfeita simplicidade, a perfeita pureza de intenção, constitui na verdade o amor mais perfeito, o puro amor.

"A simplicidade é como a água, tanto melhor, quanto mais límpida, menos composta, mais pura... A tão adorável simplicidade é filha da inocência e irmã da caridade". (São Francisco de Sales)

(A simplicidade segundo o Evangelho, instruções às senhoras e às jovens, pelo Monsenhor Gibergues, traduzido do francês por Rachel de Castro e Aida do Val, editora Atlântica, RJ, ano de 1945, continua com o post: A pomba e as exortações da Escritura)

PS: Negritos e sublinhados meus e itálicos do autor.
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