segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Donzelas cristãs: Vocês e vossas responsabilidades

VOCÊS E VOSSAS RESPONSABILIDADES


SOIS AS GUARDIÃS

Eis o que sois.

Direis: "Não poderia ser dado nome de mais brilho e menos antiquado? Guardiãs? Isso, assim de repente, assim sem mais nem menos, dá-nos quarenta anos, pelo menos; cobre-nos a cabeça com uma touca branca; e põe em nossas mãos um fuso ou um tricô. Isso não é nome para moças. É um nome para mamães, para vovós... Um nome para as tias! A nós, que somos jovens, chamai-nos: Valorosas... Semeadoras... Rosas... Estrelas..., mas Guardiãs..."

E, no entanto, guardiãs! É um nome glorioso. Se sugere menos perfume que uma rosa, menos brilho que uma estrela, menos graça que o gesto do semeador nos sulcos da terra, diz mais coragem e mais virilidade. Revela força de alma e heroísmo.

É um nobre programa para as vibrantes. Fez pensar em rotina? Em horizontes mesquinhos? Que importa, se formula a verdadeira missão, um lugar fixo, e nos convida a agir sem impedir que sonhemos?

QUE É GUARDAR?

Primeiramente esmiuçamos, depois restringiremos. O guarda-barreira vigia. Abre o sinal, se o caminho está livre. Fecha-o à passagem dos trens. Impede que o Expresso corte o automóvel em dois. Proíbe uma passagem se há perigo mortal.

O guarda-caça está atento... Acautela os direitos do proprietário; proíbe a caça ilegal; protege o crescimento pacífico dos coelhos e o romântico amor dos faisões.

O guarda-costa (olhem que não se trata de um homem...) inspeciona. Vigia uma zona da praia, a entrada de um porto, a chegada de um barco suspeito. Controla o oceano. É sentinela e patrulha.

A Guarda Republicana zela pela ordem. Às vezes para manter o esplendor dos desfiles oficiais e da bela música. O guarda-rural está atento. Com um letreiro no braço, garante os direitos da comuna. E com que convicção! com que emocionante solenidade!

O guarda-farol está de mil olhos. Para ele, guardar é vigiar, conservar os refletores em ordem, manter livre a rota dos vapores, denunciar os rochedos e baixios, e fixar as direções.

O guarda do presídio está a postos. E como? Há um ruído de chaves pelos corredores... rondas noturnas. As portas estão aferrolhadas. E que olhos, que olhos, meu Deus!

O homem está em guarda... Nas grades das casernas, na encruzilhada dos caminhos, na trincheira, nas florestas. Observa. Escuta. Espera. Nada deixa passar...

Etc., etc., etc...

E toda essa gente, os guardas, são pessoas que zelam por qualquer coisa, que impedem seja arrebatada.

Guarda-se uma fronteira para que o inimigo não a atravesse; uma porta para que não a abra aquele que não deve entrar; um tesouro para que não seja roubado; um museu para que os quadros aí se conservem em bom estado.

E também se guarda o silêncio, e se impede que se prolongue, e que as palavras perturbem a serenidade. Guarda-se o sangue frio, e isto quer dizer que nos devemos manter calmos, refletidos, impedindo que o sangue ferva ou se agite demasiadamente.

Guarda-se tudo o que se vigia, seja um barco, um homem ou um cão.

Guardar é, segundo os casos, vigiar, conservar, defender.
E vós, minhas jovens, sois guardiãs.

Tendes coisas - e que coisas de subido valor! - a vigiar contra as surpresas, a defender contra os ataques a conservar intactas, vivas, esplêndidas, contra tudo o que gasta ou deteriora.

Sois, deveis ser, deveis aceitar ser guardiãs.

Para isso, não há necessidade de uma placa de cobre, de um quépi com inicial, de uma correia no chapéu, de um centurião com sabre. Basta-vos, para serdes guardiãs, basta-vos que sejais cristãs, jovens, que tenhais uma consciência e, graças a essa juventude, que compreendais ser preciso manter no mundo tudo quanto o cristianismo pretende dar-lhe, porque sabe o que é necessário a esse mundo.

O QUE SE DEVE GUARDAR

Para que o saibais, abri os olhos, prestai ouvidos.

Ana, minha irmã Ana, não vês alguma coisa aproximar-se?

Estais reconhecendo o apelo desesperado dessa pobre Senhora Barba-Azul. Há motivos para gritar: em baixo da escada, à sua espera, está o terrível marido com uma grande faca nas mãos. E ele brada: "Desces ou não desces?" Infeliz! Enganou-a o coração ao fazer a escolha de tal marido.

Ana, minha irmã Ana, não vês alguma coisa aproximar-se?

Eu vo-lo digo, no mesmo tom:

Ana, minha irmã, não vês alguma coisa subir? Não vedes vir de longe, minhas jovens, não de muito longe, nem sequer de tão longe assim, como que a vaga lenta das marés, não vedes o arremesso formidável dos prazeres, uma invasão de volúpia: Acariciante, brutal, embaladora, espumante, não a estais vendo? Pouco a pouco, uma após outra, submergem as rochas que até desliza como uma víbora. Insinua-se, enrola-se, esfrega-se, abafa... Sobe. Como crianças surpreendidas pelo mar em meio a um sonho de amor, quantas de vossa idade que vogam por este oceano, se é que já não as estraçalhou como a destroços de um recente naufrágio!

Ana, minha irmã Ana, não estás ouvindo alguma coisa cantar? Não ouvis, jovens, erguer-se o rumor das cidades e aldeias, das casas e das almas, não principalmente como nos tempos de fé o rumor de um cântico, nem tão pouco como nas horas solenes a estrofe de uma canção patriótica, mas a canção louca, a canção leviana, a suja canção?

E não percebeis que as gargantas se acham mais adaptadas à canção do que a oração? que os pés estão mais adaptados à dança que à procissão? e que as multidões se encaminham mais para os cinemas do que para as igrejas, para os campos de jogo do que para as peregrinações?

Ana, minha irmã Ana, não estás ouvindo alguém chorar?

Não percebes também que agora, como sempre, há lágrimas nesses sorrisos, amarguras nessa festa, imensos soluços no meio desses cantos? Os "confettis" que se atiram ao carro das rainhas não substituem para a alma as flores frescas que se jogavam ao Santíssimo Sacramento. Os corações sofrem vazios e se aborrecem de si mesmos e de tudo. Os pensamentos, perdidos como em pleno oceano, vagueiam desesperadamente, não achando rochedo nem cordame a que apoiarem seu atormentado vôo.

Infelizes, ainda os há, e com necessidade de quem se compadeça deles. Desolados, decaídos, desesperados, há-os em maior número que nunca e apelando para alguma coisa. Para o que?

Guardar? Ana, minha irmã Ana, deve-se guardar tudo aquilo por que clama, sem que o saibam, o espetáculo humano, visto e longamente ouvido do alto da torre.

Deve-se guardar tudo aquilo de que o mundo tem necessidade, e tanto mais necessidade quanto mais finge poder passar sem ele e pretende não lhe fazer falta.

Quando a flor pende fatigada, incapaz de se manter ereta, levai-lhes água. E se a flor, nervosamente erguida, faz menção de não a querer, mesmo assim lhe derramais água. Tendes razão. Compreendestes a secreta miséria que a flor ignora ou oculta.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr. M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Deve-se guardar no mundo a fé)

PS: Grifos meus.