quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Donzelas cristãs, a Igreja vos pede que prepareis o futuro

JOVENS DONZELAS CRISTÃS
VOCÊS E A IGREJA

O QUE ELA VOS PEDE


Pede-vos que lhe prepareis o futuro

Que quer isto dizer: "Preparar-te o futuro?". Assegurar-lhe, para as gerações de amanhã, o domínio esmagador? Fornecer-lhes seres sem personalidade, que ela há de subjugar e conduzir como a crianças ingênuas? Não! Isso não. A Igreja não pensa assim. Não tem o direito de pensar assim.

O futuro que ela espera, ou o que ela espera do futuro, é poder realizar sua missão, para o maior bem daqueles nos quais a realiza...

Porque missão ela a tem. Traz consigo uma sagrada responsabilidade. Foi-lhe confiada uma missão divina. A vida religiosa do mundo, e em grande parte sua vida moral, essa é a obra a seu cargo.

Quer poder ensinar a seu cargo.

Quer poder ensinar o catecismo; quer poder dar às almas, desde a juventude, um ideal mais alto que o da Terra, o ideal cristão; quer poder ensinar os homens, os pobres homens, a crerem, a orarem, a esperarem; quer poder convencer todos esses seres, vergados ao peso do trabalho e de rosto inclinado para o chão, de que a vida espiritual é superior à vida material, e que além dos campos, como além das nuvens, há a vida eterna que paira; quer poder trabalhar para o advento do Reino de Deus, isto é, da Justiça, neste mundo como no outro; quer poder fazer amar a Jesus Cristo, que tanto merece que O amemos, e que é, para os que o sabem, a única Luz e o único consolador.

A Igreja olha para o futuro que tem na frente. E que vê? Talvez séculos e séculos que se sucederão ávidos de prazer, sedentos de progressos, batidos de descrença ou ardentes de sensualidade, em aparências diferentes, mas sempre e em toda a parte com as mesmas tendências contrárias para cima e para baixo, as mesmas fadigas extenuantes nos caminhos da virtude libertadora.

Em certo sentido, está segura do futuro. Sabe que estará presente a esse futuro. Tem uma garantia infalível de duração. Houve alguém que pronunciou estes palavras: "Até à consumação dos séculos... Sobre esta pedra edificarei... As portas do inferno não prevalecerão..." Quem as disse guarda-as. Já existia antes de Abraão. Existe depois de Combes.

Mas, apesar de tudo isso, tendo a experiência dos séculos - porque muitos já viveu ela - conhece as dificuldades da obra. Conhece de sobra as ruínas a beira da estrada; as arapucas estendidas; as ciladas ocultas na mata. Não desconhece, nem os inimigos, nem os seus múltiplos processos. Não desconhece o preço de suas vitórias, o heroísmo de tantos bravos, e a dor de tantas vítimas, com que há de ser paga a honra de sua vida eterna.

Apontando-vos o futuro, jovens, e mostrando-o a si mesma, diz-vos: "Fá-lo-eis".

E vós o farão. Não apenas vós sozinhas, mas sobretudo vós, pois sois o futuro. Hoje, já sois o amanhã. Olhando-vos, vejo o futuro. Está em vossos olhos e em vosso coração.

Estas coisas encerram uma verdade brutal.

Ora, encarando o futuro em vossos rostos de vinte anos, deve-se sorrir de esperança? deve-se tremer? A esta pergunta, as pulsações de vosso coração trazem a resposta desanimadora ou a resposta que rejuvenesce o coração dos velhos apóstolos?

Não há dúvida que vai surgir a resposta evasiva das consciências incertas, o sim mal suspirado ou o não involuntariamente murmurado das consciências levianas.

E será apenas isso?
Vós é que são o amanhã.
O passado éreis vós, crianças!
O presente sois vós, jovens.
O futuro sereis vós, religiosas, solteironas, mulheres, mamães.

Religiosas!

Se Deus chama, nenhuma se recusa. As escolas, os hospitais, os claustros, as missões longínquas, estão chamando. Oh! todas essas vozes longínquas, distantes, todas essas ondulações súplices da seara madura...

Solteironas!

Forçadamente, ou por gosto, ou por generosidade, porque não? Há múltiplos trabalhos que serão vossos. E esses humildes trabalhos constituem uma perfeita nobreza. Não se trata aqui, é evidente, de "aumentar o número de beatas", nem de vir a ser "um rato de sacristia". Trata-se - e não o dizemos de brincadeira - de saber que, onde não estão mães nem religiosas, estão as solteironas, operárias tantas vezes desconhecidas e apesar disso tão meritórias, cada vez mais indispensáveis. Se o mundo não compreende, se ri, tanto pior para ele. Deus, esse é que não ri. Essas operárias receberão dEle um magnífico salário.

Mulheres e mães!

É o futuro normal, a grande estrada, essa a que a natureza conduz, e também a graça.

Dentro de dez anos, minhas queridas jovens, quantas de vós terão fixado seu amor definitivo, preparado o laço que não se desata, fundado o lar, e se tornarão em vossas paróquias as esposas e as mães!

De certo que a esposa não é tudo no lar, tão pouco a mamãe. Ainda assim, quando a esposa é profundamente cristã, e a mamãe o é também (e mais ainda, digo eu, por causa das riquezas de seu instinto materno) não se apresentam então as melhores garantias?

Que coisa é pior: o marido e pai sem religião ou esposa e mãe sem religião? A resposta acode logo: esposa e mãe sem religião. Se o mundo decai moral e religiosamente, são as mulheres, mais que os homens, que devem bater no peito. Mas do que eles, tudo comprometeram.

Não haja ilusões a tal respeito. Se a Igreja, olhando para vós e envelhecendo-vos de alguns anos, não encontrasse aquilo que vai fazer de vós outras esposas e mães cristãs, não teria outro caminho a seguir senão envolver-se em véus e chorar lágrimas de inconsolável desalento.

Amanhã... Hoje...
Vós, hoje... Vós, amanhã...

Amanhã e hoje que em vós se sucedem como no ano se sucederam as estações e como a erva da primavera é a espiga que vai crescendo para o verão.

Tratai de levar a sério o papel de esposas e mães que ides ser, começado por levar a sério o papel de donzelas que hoje sois. Há criminosos desperdícios quando se diz que comprometer o coração infantil talvez seja arruinar sem remédio o coração da mãe.

Seriamente, ainda não é bastante. Seriíssimamente! Despedaça-se tão rapidamente a felicidade de um lar! Destrói-se tão depressa sua honra! Perde-se tão depressa uma alma!

Nem o casamento, nem a maternidade, nem a educação se improvisam. Estas santas coisa se preparam nos abismos do ser moral. E quando uma jovem vos apresenta assim com o aspecto de garota traquina, de boneca, de egoísta louca, de inconsciente, que lástima! que agonia!

Eis mais uma que não salvará o mundo...

Tremendo, chorando, a Igreja vai contando um a um estes pequenos seres sem nobreza, estas belas senhorinhas sem alma grave, quase irresponsáveis.

Corando... É tão intensamente triste...
Tremendo... É tão inquietante!

Este vinhedo dará apenas folhas... E que fará delas o Mestre, na hora das vindimas?

Jovens, olhai bem para o futuro... Olhai-o em vós a fórmula clara dos seus rigorosos deveres, a palavra de esperança...

O Estado reclamará mulheres que lhe dêem operários, soldados, camponeses; a Igreja  reclamará mulheres que lhes dêem almas.

Só se dá o que se tem. Acaso se colhem uvas entre os espinhos? O medíocre gerará o sublime?

Nesse sentido, sois o grande problema do futuro. E também sois a solução. Enquanto umas quais se extasiam diante do espelho e tudo reduzem a uma história de lábios pintados, a Igreja, em pé diante dos séculos misteriosos, espectadora inquieta e artista responsável, reduz tudo a uma história solene de vida moral e religiosa, que é preciso conservar através dos tempos...

E volta-se para vós... Mostra-vos o que deve ser e o que podeis ser, para que assim o seja. Confia ao vosso idealismo de moças as augustas realidades de mais tarde. Pede que presteis atenção à flor por causa do fruto esperado, e que não alimenteis em vós na primavera o verme que seria mortal no estio.

Pede que ofereçais o rosto ao sopro do Espírito, que deixeis vosso coração pulsar em ritmo generoso, e que acumuleis em vós, dia por dia, com santas provisões, essas virtudes, essas delicadezas, essas fervorosas dedicações que, chegando o tempo, vos hão de permitir sejais as esposas e as mães que Deus quer.

Há jovens tão miseráveis que a gente logo percebe, por antecipação, estar morto nelas o futuro cristão do mundo, morto para elas, morto em outras...

Há-as tão insignificantes que nem se sabe o que pensar a respeito, ou melhor, prevê-se a acabrunhante mediocridade que se anuncia, semelhante a estéreis charnecas.

Mas há-as generosas, profundas e puras, que esperam a hora muito a sério. Vivem a juventude com o inquieto ardor dos seres que compreenderam as responsabilidades. Alimentam grandes ambições.

A anunciação, quando o anjo falar do futuro, encontrá-las-á recolhidas e submissas. Unindo a piedade de Maria à atividade de Marta, pertencerão ao número das que sabem servir à mesa do homem e adorar aos pés do Mestre. Viverão; trabalharão; sofrerão; consolarão pesares; soerguerão almas.

Depois hão de morrer. E junto delas, como junto de Dorcas, a santa mulher dos tempos apostólicos apresentar-se-á, prestando seu testemunho, o conjunto de suas boas obras.

O futuro ainda não chegou. E no entanto já está aí. Sois vós. Vós o fazeis. Tratai de o compreender, e compreendei tudo quanto a Igreja vos pede, quando vos pede que lho prepareis.

(Jovens: Vocês e a vida - coleção moças, pelo Fr.M. A. Bellouard O.P. ; edições Caravela LTDA, 1950, continua com o post: Pede-vos que sirvais)

PS: Grifos meus.