terça-feira, 18 de janeiro de 2011

1º Capítulo: Definição e importância da simplicidade

PRIMEIRO CAPÍTULO


DEFINIÇÃO E IMPORTÂNCIA DA SIMPLICIDADE

Por que o Evangelho apresenta a pomba como modelo e ideal da simplicidade cristã com as seguintes palavras: “Sede simples como as pombas”? (São Mateus, X, 16)

Para compreendê-lo, é necessário que se tenha da simplicidade uma idéia nítida.

No dizer de Fénelon, “existe a simplicidade que é defeito e a simplicidade que é maravilhosa virtude.” Falemos apenas da virtude, pois que é dela que trata o Evangelho.

De acordo com o Evangelho, a simplicidade nada mais é do que a pureza de intenção: as duas expressões são sinônimas e usadas uma pela outra.

Na verdade, puro significa sem mistura. Diz-se que a água é pura, quando não está misturada ao vinho ou a outra qualquer substância. Igualmente, simples quer dizer o que não é múltiplo, nem sequer duplo, o que é uno. Diz-se que uma vestimenta é simples, quando de uma só cor, sem enfeites ou acessórios, que as sobrecarregam. Diz-se que uma pessoa é simples, quando não é afetada, dissimulada e cheia de reservas; se fala o que pensa e mostra-se tal qual é; se não se assemelha àqueles de quem o sábio disse que: “Andam por dois caminhos” e “têm dois corações”; em suma, quando nela não existem duas personalidades: uma artificial e exterior, que representa para o público; outra, muito diferente, que se encobre e se esconde para não ser vista pelo mundo, mas a quem Deus vê e julga.

Em última análise, a idéia de pureza e de simplicidade é a mesma. Dela se exclui qualquer mistura, a qualquer complicação, qualquer duplicidade, tudo o que São Paulo chama: “prudência da carne, sabedoria deste mundo.”

A simplicidade ou a pureza de intenção consiste, pois, em se propor um único e mesmo objetivo, uma única e mesma finalidade, que é a de agradar a Deus, ou melhor, fazer a vontade de Deus em tudo o que se pensa, em tudo o que se diz, em tudo o que se faz.

Assim compreendida, a simplicidade aparece logo como virtude essencial e de incalculável alcance. “O homem foi criado para Deus”, disse santo Inácio, no início de seus “Exercícios Espirituais”, na primeira meditação a que ele justamente denomina fundamental, porque é o fundamento de toda a estrutura cristã. O admirável livro dos “Exercícios” é inteiramente baseado nessa primeira e profunda palavra, de que todo ele é, por assim dizer, o comentário e o desenvolvimento.

Na realidade, Deus é o único fim verdadeiro, o fim último do homem. Se o homem só vê a Deus, só procura Deus, só se prende a Deus; se voluntariamente dirige seus pensamentos, palavras, ações e toda sua vida para Deus; se de algum modo não se apega às criaturas que encontra, se delas apenas se utiliza como de um meio; se nelas não encontra repouso como em seu fim, porque só em Deus quer repousar, então o homem vive na verdade e na ordem, é justo e santo, por ser perfeitamente simples.

O catecismo exprime a mesma idéia, ao dizer: “O homem foi criado para conhecer, amar, e servir a Deus e assim alcançar a vida eterna.”

Como, então, dirigir, a Deus nossos pensamentos, palavras e ações? Pela intenção, isto é, pelo motivo que determinará nossa vontade a realizá-los livremente.

Considerados em si mesmos, independentemente do motivo que nos fez agir, nossas ações e nossos atos não têm, digamo-lo assim, valor moral algum: são corpos sem alma.

A moralidade está em nós, em nossa vontade livre que é a alma de tudo que fazemos e dá sentido e valor aos nossos atos.

Os homens julgam pelas aparências, pelas palavras que ouvem e pelas ações que vêem. Eis a razão por que tantas vezes são injustos, severos e maus. Mas Deus nos julga de acordo com o que vê em nosso interior: Olha-nos o coração, a vontade, os motivos, as intenções e por tudo isto nos aprova ou nos censura, nos recompensa ou nos castiga.

Tal é o sentido da palavra do Evangelho: “Se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso. Mas se for mau, todo o teu corpo ficará às escuras...” (São Mateus, VI, 22-23)

O olho traduz a intenção: pois da mesma forma que os olhos nos dirigem o andar, a intenção orienta-nos a conduta da alma. A intenção é o olhar da alma. (nota de rodapé: Intenção origina-se de intendere, que significa: tender para) Se minha alma contempla Deus, se Lhe dirige livremente os pensamentos, palavras e ações, então tudo o que faço, tudo o que digo, tudo o que penso tornar-se-á, por isso mesmo, bom e sobrenatural: é o que exprimem as palavras do Evangelho: “Todo o teu corpo será luminoso.”

Portanto, toda a moralidade dos atos humanos está contida na intenção. Os atos valem exatamente o que valem as intenções. Afirmando-o, o Evangelho, ao mesmo tempo, destrói o farisaísmo e o substitui pela religião do espírito e pelo verdadeiro reino de Deus que está dentro de nós.

Daí tornar-se a simplicidade a alma da vida moral, pois que é precisamente a pureza de intenção. A simplicidade dá todo o valor e toda a elevação à vida moral. A alma simples sempre agrada a Deus, porque sempre O contempla e O procura, só ambicionando cumprir Sua vontade e buscar Sua glória.

Ser simples é ver, amar e querer a Deus em todas as criaturas e em todas as coisas: é unificar em Deus a própria vida.

A beleza da simplicidade me arrebata, dizia São Francisco de Sales, e eu sempre darei cem serpentes por uma pomba”.

(A simplicidade segundo o Evangelho, instruções às senhoras e às jovens, pelo Monsenhor Gibergues, traduzido do francês por Rachel de Castro e Aida do Val, editora Atlântica, RJ, ano de 1945)

PS: Grifos meus.
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