quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Os esplendores do Calvário

OS ESPLENDORES DO CALVÁRIO


Calvário, lugar de expiação!
Calvário, lugar de opróbrios e humilhações!
Calvário, martírio do Filho de Deus e libertação dos filhos dos homens.

Cruz, madeiro do suplício; Cruz, árvore da redenção.

É a linha divisória dos tempos, que separa a história humana em duas grandes etapas inteiramente diversas, completamente distintas.

À Cruz precederam quarenta séculos de degradações e de infâmias, que aviltam e envergonham a humanidade; quarenta séculos de idolatria e de superstições, que constituíam o patrimônio moral e intelectual da nossa espécie, quando o homem dormia à sombra do erro e da mentira.

Depois do Calvário, encontramos a verdade restituída ao pensamento humano, à justiça reintegrada em seu posto, o erro confundido e a mentira desmascarada. O mal, o vício e a iniqüidade foram julgados à face do céu e da terra e ao predomínio da matéria sucedeu uma civilização implantada sobre conceitos e valores de ordem espiritual e sobrenatural.

E a cruz, que, no passado, era um símbolo de opróbrios, constituiu-se em vexilo triunfal, a cujos pés se prosternam, faz vinte séculos, as gerações humanas.

***

O Calvário veio realizar as palavras proféticas, que anunciavam Jesus Cristo como sinal de contradição para muitos. Efetivamente, ante as ignomínias do último suplício, os filhos do povo eleito se escandalizaram e os gentios escarneceram de um Deus erguido entre dois ladrões.

O escândalo e a loucura da Cruz!

Mistério da sabedoria infinita, prodígio da ciência divina, é a Cruz o tesouro inexaurível onde os santos vão buscar acréscimo de justificação, os bons haurem a graça santificante e os maus, angustiados encontram o salutar perdão de suas culpas.

Na Cruz, proclama o sábio e piedoso autor da Imitação de Cristo está a salvação, a vida, o escudo contra os ataques do inimigo, as delícias da celestial suavidade; na Cruz está a força e a inteligência, a alegria do espírito, a plenitude de todas as virtudes, a santificação perfeita”.

Não é de admirar, pois, que o grande Apóstolo dos gentios, na sua primeira Epístola aos coríntios, haja feito esta bela e sublime afirmação:

Porque não entendi eu saber, entre nós, coisa alguma senão a Jesus Cristo, e este crucificado.”

São Paulo, que discutia, tantas vezes, com filósofos, estóicos e epicuristas e que, no Areópago de Atenas, em linguagem elevada, versava sobre as doutrinas mais sutis, colocava acima de todos os conhecimentos humanos a ciência da Cruz e de Jesus Cristo morto em prol do resgate dos filhos de Adão.

E o exemplo desse arauto da boa nova frutificou no seio da comunidade cristã e a devoção a Jesus Crucificado, a contemplação das dores e dos sofrimentos do Homem-Deus e o amor à Cruz tornaram-se elementos primordiais da verdadeira piedade e ocuparam lugar salientíssimo na vida dos santos e dos servos privilegiados do Senhor.

A frágil humanidade, o comum dos homens e as almas simples encontram na pobreza, nas humilhações, nos opróbrios e nas ignomínias do Homem das Dores, um bálsamo suave para todas as angústias da terra, um lenitivo para todas as chagas do corpo, um conforto para todas as dores da alma. Nas horas difíceis, nos golpes da fortuna, nas incertezas do porvir, quando as lágrimas umedecem o pão quotidiano, o Crucifixo nos oferece o manjar da divina consolação e nos infunde as esperanças eternas dos verdadeiros bens.

Na doce tranqüilidade dos claustros, na suave convivência do lar, no meio das agitações da vida, nos dias de luto e pesar, a memória do sacrifício tremendo do Calvário desperta nos ânimos esclarecidos pela fé sentimentos de coragem, de resignação, de fortaleza sobrenatural.

***

O poder infinito de Deus confundiu a soberba dos humanos juízos e converteu a suprema humilhação em exaltação perene e sem par. Os reis da terra governam do alto dos tronos e dos solios; Cristo quis reinar do cimo do Calvário...

Cícero dizia: “Horrível é a ignomínia de uma condenação pública, horrível a confiscação, horrível o desterro. Todavia, no meio destas calamidades, algum vestígio de liberdade nos resta ainda; e a própria morte, se nos é infligida, suportamo-la livre de toda e qualquer peia. Mas o algoz, o véu pela cabeça, o nome de cruz, tudo isso não se aproxime de um cidadão romano, não só de seu corpo, senão também do seu pensamento”.

Os romanos consideravam esse instrumento de suplício como “o lenho do desgraçado”, “A árvore fatal”, o suplício dos escravos.

Nas Sagradas Escrituras, os videntes do Antigo Testamento se mostravam aterrados, quando anteviam o gênero de morte, “morte vergonhosa”, a que seria condenado o Filho de Deus.

E a despeito de todas as fúrias do inferno, de todos os recursos da maldade dos homens, a Cruz impôs-se ao mundo inteiro e ainda hoje, recebe as demonstrações de fé e respeito de quantos adoram a Jesus Cristo.

Do cimo do Calvário, foi a Cruz transplantada para os altos do Capitólio e os dominadores de Roma adoraram um judeu supliciado em Jerusalém.

As invasões bárbaras esfacelaram o velho império de Augusto; a religião do Crucificado subjugou as hostes dos chefes dos invasores; nas Galias, Clovis quebrou os ídolos que adorara para adorar a Cruz, que ele mesmo tentara destruir. Bonifácio converte as tribos da Germânia; Anscário anuncia o Evangelho aos habitantes da fria Escandinávia; Agostinho prega a lei de Cristo ao povo das ilhas britânicas. Passam os séculos; Cirilo e Metodio convertem à religião da Cruz as gentes eslavas e dilatam, mais e mais, o reino de Deus.

Navegadores audazes desvendam os segredos do oceano e o descobrimento de novas terras vem multiplicar o mundo... partem, céleres e ardorosos, os arautos da verdade e tratam de converter ao catolicismo as raças estranhas, que habitam além-mar. Quando alguns bravos sucumbem no ardor do bom combate, surgem, imediatamente, outros evangelizadores do bem e da paz, que vão tomar o posto daqueles que se partiram deste vale de lágrimas...

A Cruz, nos primórdios do cristianismo, encheu de forças sobrenaturais e infundiu constância inabalável no ânimo dos cristãos, que os algozes conduziam ao suplício e as feras dilaceravam, nas arenas ensangüentadas dos circos; em plena civilização do vigésimo século, o Calvário irradia coragem e luz, que sustentam os mártires hodiernos, dando-lhes a energia serena para morrerem pela confissão do supliciado do Gólgota, cuja divindade proclamam, no último momento:

VIVA CRISTO REI

São milagres que a lógica não explica, que a razão não concebe e que a natureza não pode admitir. Somente a razão esclarecida pela fé concebe, explica e admite: Jesus Cristo é Deus e assentou o Seu trono sobre o monte de ignomínia e quer reinar do alto do madeiro infamante.

REGNAVIT A LIGNO DEUS

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada; ano de 1937)

PS: Grifos meus
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