terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O REDENTOR DO MUNDO

O REDENTOR DO MUNDO


Muitas outras coisas, porém, há ainda, que fez Jesus, as quais, se se escrevessem uma a uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros, que se teriam de escrever (Joan. XXI, 25)

Com estas palavras o Apóstolo São João encerra o IV Evangelho.

Os comentadores dos textos sagrados buscam penetrar o sentido e explicar esta bela passagem do narrador dos acontecimentos culminantes da existência terrena do Filho de Deus.

Segundo Martini, essa hipérbole de São João indica que é incalculável o número das coisas admiráveis operadas por Jesus Cristo e que nem o discípulo predileto nem os outros evangelistas narravam, embora estivesse fresca a memória de todos esses fatos e ainda vivessem muitos dos que os presenciaram.

São João Crisóstomo, explicando o sentido do supramencionado versículo do IV evangelho, diz que São João queria exprimir que não escrevera para engrandecer a Jesus Cristo nem exagerar os feitos do Divino Mestre, uma vez que ele (o autor) não escrevera senão uma parte mínima do que de maravilhoso operava o Verbo Encarnado. O mesmo comentador arbitra ainda uma outra explicação: o evangelista quis dar a entender que era mais difícil aos discípulos do Senhor enumerar e descrever os Seus prodígios, do que o fora Ele (Jesus) realizá-los e levar a cabo o que, para nos salvar, determinou o quis o Deus Onipotente e bendito, que o é por todos os séculos dos séculos.
Certo é que, após tantos séculos, a inteligência humana não cessou de estudar e de meditar sobre a personalidade adorável de Jesus Cristo.

Até hoje, em todos os tempos, no seio de todas as sociedades, dentro de todas as condições de vida, o homem não terminou ainda o estudo do que Jesus veio ensinar aos filhos de Adão.
Toda razão tinha, pois, o Apóstolo, quando afirmava que o mundo inteiro não seria suficiente para conter os livros que narrassem tudo quanto operou Cristo Jesus, o Redentor do mundo.

***

Ao passo que a memória dos grandes homens sofre a ação do tempo e os maiores acontecimentos da história são relegados ao esquecimento, no longo decurso dos séculos, o nome de Jesus Cristo, dia a dia, se torna mais conhecido, a Sua doutrina é melhor estudada e as Suas ações tornam-se regras da moral. Isso tudo, é naturalmente, inexplicável e confere um caráter misterioso à figura do Rabi da Galiléia.

Eis a razão pela qual, diante dessa figura de tão grande projeção, na história humana, mui naturalmente, a nós mesmos nos interrogamos: Quem é Jesus Cristo?

Hettinger, o grande professor da Universidade de Wurtzburgo, na Alemanha, responde-nos, em erudita e formosa página, que transcrevemos:

Jesus Cristo é a vítima da reconciliação, única, verdadeira e eterna, donde deriva para o gênero humano a salvação e, por meio dEle, todos os sacrifícios antigos encontraram o seu cumprimento. Nele se manifestaram a justiça e a santidade do Pai; a essência invisível de Deus, a Sua sabedoria e majestade; a Sua misericórdia e amor se apresentaram a nós visivelmente na Sua pessoa. Daqui resulta que Ele é a luz que ilumina o mundo dos espíritos, a caridade que enche todos os corações, o manancial donde todos haurem a vida, essa vida que ab aeterno e antes de todas as coisas jazia no seio do Pai, donde derivou para o Filho e eternamente aflui e reflui sobre as criaturas por intermédio de Jesus Cristo. Ele é a vida, cujos ramos, unidos a si, exalta para a unidade da vida.

Pelo Seu sangue, adquiriu em nós uma propriedade completa, tendo descido aos limbos, onde jaziam os justos do Velho Testamento, arrebatou-os para o Seu reino, patenteando agora por virtudes da Sua morte.

Sentado à direita do Eterno Pai, governa e aperfeiçoa os que Lhe pertencem como Senhor, Rei e Chefe real deste novo reino da graça e redenção, da sociedade dos santos, que compreende todos os tempos, todas as criaturas, os anjos e os homens, sobre os quais, de contínuo, derrama as Suas graças, defendendo-os e guardando-os contra os ataques violentos e as insídias ocultas dos inimigos visíveis e invisíveis, alimentado-os com o pão da vida e enchendo-os dos bens celestes, até que alvoreça o dia em que a Sua Igreja sobre a terra passe do estado de combate para o do triunfo e semelhante a Ele, deponha as vestes da humilhação, para com Ele e sob a Sua direção tomar parte da glória e na bem-aventurança eterna.

E este reino, que é o Seu reino, não terá fim. Cristus vincit, Christus regnat, Christus populum suum ab omni malo defendit – esta inscrição, que se acha gravada no obelisco da praça de São Pedro, em Roma, é o breve compêndio de toda história do mundo”. (Apologia do Cristianismo – vol. IV, cap. XII)

***

Jesus Cristo tem o Seu nome indissoluvelmente ligado ao grande acontecimento da história: a Redenção do gênero humano, mistério central da nossa crença religiosa e obra prima da misericórdia e da justiça divina e infinita.

O Redentor do mundo é o Filho de Deus feito homem, a fim de padecer tormentos indizíveis e morrer sobre o madeiro infamante da Cruz, no cimo do Calvário, para redimir a humanidade, prevaricadora e resgatar todos os pecados dos filhos dos homens.

Jesus Cristo era o Homem-Deus; como Homem, sofreu e morreu; como Deus, comunicou aos Seus sofrimentos e à Sua morte um valor infinito.

A Paixão e a Morte do Filho de Deus constituem, por si só, uma reparação superabundante da ofensa feita a Deus pelo pecado. Desse modo, pelos merecimentos infinitos de Cristo, fomos resgatados da morte eterna e libertados do poder infernal e reintegrados nos direitos à herança da glória eterna.

Assim se cumpriu a promessa que Deus fez, no Éden, de conceder à humanidade prevaricadora, um salvador.

Isaias, um dos maiores videntes de Israel, dissera do Messias prometido:

O Senhor pôs sobre ele as iniqüidades de todos nós. Foi esmagado por causa de nossas iniqüidades; foi esmagado por causa dos nossos crimes e nós fomos salvos pela suas feridas”.

O próprio Jesus quis revelar-nos um pouco do misterioso amor de Deus para com a humanidade prevaricadora. Ele dignou-se explicar-nos:

Amou Deus de tal sorte o mundo, que lhe deu seu Filho único a fim de que todo aquele que crer nele, não pereça, mas tenha a vida eterna... Deus enviou seu Filho ao mundo, para que o mundo seja salvo por ele”.

O Apostolo São Paulo, doutrinando os fiéis acerca do mistério de nosso resgate, põe na boca de Jesus Cristo estas palavras dirigidas ao Pai Eterno:

Não quisestes hóstias, nem oferendas, mas adaptastes-me um corpo. Os holocaustos pelo pecado não vos têm agradado, então disse! Eis-me qui!”

O Padre Moigno, em seu livro “Os esplendores da Fé”, assim fala do mistério da Redenção:

E porque no momento em que Jesus Cristo expirava no Calvário, nós todos estávamos nele; porque o sangue que corria de Suas veias tinha sido tirado das nossas, não alterado, pois Maria, Sua Mãe, fora imaculada em Sua conceição, mas supernaturalizado e edificado de alguma sorte, por Sua união com a divindade; porque Aquele que morria era o nosso chefe, a cabeça e o coração da humanidade; porque, no dogma cristão, as dores, a tristeza, a agonia da humanidade (*)vêm completar o que falta à Paixão de Jesus Cristo fez de Sua morte e das nossas uma só imolação, um só holocausto, imenso, no qual, vítima única, ao mesmo tempo divina e humana, inocente e criminosa, por uma só oblação, a santificação dos escolhidos está consumida para a Eternidade. Consummatun est!” (obra cit. Vol. IV, Capítulo XXX)

Estas palavras do sábio apologista da religião católica encerram, por assim dizer, a sumula da doutrina da Igreja acerca dos grandes mistérios da obra da redenção, em que a justiça e a misericórdia divina trocaram o ósculo da paz, restabelecendo as relações entre Deus ofendido e o homem prevaricador.

Da rocha ensangüentada do Calvário, brotou para a nossa raça a verdadeira fonte da vida sobrenatural, da graça santificante e da felicidade sempiterna.

***

E eu, disse Jesus, quando for levantado da terra atrairei tudo a mim”.

Estas palavras do Senhor exprimem, claramente, que a morte ignominiosa, no patíbulo da Cruz, deveria ser o princípio da glória e da exaltação do divino suplicado; significam que, da Cruz, transformada em instrumento de bênção e de salvação, Jesus iria chamar ao Seu reino de paz e reconciliação todos os povos da terra, atraindo-os pela doçura, pela caridade e pela eficácia do seu poder infinito.

E os séculos da história cristã não desmentiram, antes confirmaram cabalmente, esta profecia de Jesus de Nazaré.

Passou a nacionalidade judaica; Jerusalém foi destruída e o Tempo foi arrasado.

Passou Roma e os imperadores desceram à lousa fria dos sepulcros marmóreos...

As tribos bárbaras receberam a “Boa Nova” e foram incorporadas à grei de Cristo.

Surgiram heresias e o espírito das trevas veio semear o joio da mentira no campo do Senhor. Também as heresias passaram e desapareceram os seus fautores.

A arena dos circos embebeu o sangue dos mártires da fé cristã e o sangue desses heróis tornou-se a semente de novos adoradores do Crucificado, que se multiplicaram pelos quatro pontos da terra.

A Reforma arrebatou à Igreja formosa porção do rebanho do pastor supremo; o descobrimento do rebanho do pastor supremo; o descobrimento do Novo Mundo veio compensar, amplamente, as perdas sofridas no Norte da Europa.

Em nossos dias, é inegável, infelizmente, o progresso do materialismo, que, em novo surto, pretende suplantar a fé em Cristo; mas é incontestável, também, graças aos céus, que o catolicismo não se deixa vencer e realiza, constantemente, novas conquistas e alcança novas vitórias.

Vários fatos demonstram que a Igreja não se acha agonizante; muito ao contrario, está viva e mais forte do que nunca. Podemos citar, em abono de nossa afirmação, acontecimentos hodiernos: o prestígio crescente da santa Sé; as universidades e os institutos católicos de cultura superior; as obras de beneficência e de organização das classes proletárias; os congressos católicos e as assembléias eucarísticas internacionais.

Uma religião que atua de modo multiforme, na alta política internacional, no meio das classes mais cultas, no seio das camadas populares, em demonstrações imponentíssimas, nas metrópoles mais ricas e civilizadas... uma religião assim não está morta, como fingem crer seus inimigos.

Houve quem lhe negasse, primeiro, a divindade; mais tarde, negaram-lhe a humanidade; por último, pretensos críticos tentaram negar-lhe até mesmo a existência histórica.

E por quê?

Porque Jesus se insurgiu contra todas as obras do poder das trevas, contra todas as iniciativas do gênio o mal. Aos prazeres da carne, ao sensualismo brutal, em que se chafurdava a humanidade, Jesus veio opor as renuncias sublimes da castidade.

A sede do ouro, à ambição da riqueza, que atiça a luta entre os homens, o Mestre deu como remédio a pobreza voluntária, o desapego dos bens temporais.

Ao orgulho humano, ao amor da própria excelência, que causa tantas desgraças e engendra tantos males, o senhor opôs a obediência e a humildade – a mais completa renúncia do próprio eu.

Aqui está o segredo de uma religião, sempre combatida, mas nunca vencida.

***

Para fazer frente a infiltração do neo-paganismo contemporâneo e combater os erros modernos, a Igreja emprega a Ação Católica, que ora se nos apresenta como uma verdadeira renascença cristã. Desse modo, o catolicismo emprega contra seus inimigos as mesmas armas de que estes se servem.

E Jesus, do alto da glória eterna, continua a atrair tudo para si...

Cumpre-se a profecia.

***

Nesta hora de desesperos e de intranqüilidades, devemos confiar em Deus, e manter acesa a virtude cristã da esperança.

O temporal, que ruge, e a ventania, que sopra, não conseguirão submergir o rochedo indestrutível, a pedra angular sobre a qual Jesus fundou a Sua Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

De quando em vez, surgem incidentes, que retardam um pouco a marcha da religião cristã; os homens procuram entravar a marcha gloriosa das conquistas divinas e embaraçar os progressos contínuos do Evangelho. Mas os homens passam e a Igreja permanece. As perseguições depuram os elementos católicos e confirmam os eleitos na fé, do mesmo modo que o fogo purifica e depura o ouro, extinguindo-lhe as escórias.

São esses os efeitos das perseguições religiosas; é esse o papel dos algozes dos católicos.

Só temem os homens de pouca fé.

***

As palavras de Jesus são palavras de espírito e vida, ele assim o afirmou. Assim é.

Em nossas tribulações, em nossas angústias, abramos os Evangelhos, percorramos, com verdadeira fé, as páginas sagradas e inspiradas pelo Espírito Santo, lá encontraremos a luz, que iluminará a nossa débil inteligência, o amor, que abrasara o nosso tíbio coração, e a força, que moverá a nossa fraca vontade.

Meditemos, com particular afeto e carinho, os passos da Sagrada Paixão e Morte do Redentor do Mundo e, com a máxima reverência, tentemos penetrar o sentido das Sete Palavras, proferidas durante as três horas de Agonia, no desamparo tremendo do Calvário.

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada; ano de 1937)

PS: Grifos meus.

(*) - Nota do blogue: Aqui, penso, dever-se-ia dizer com mais propriedade: "de todo aquele que está em estado de graça" (seja estando no corpo ou na alma da Igreja).
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