sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

II- OS CONHECIMENTOS DE MARIA

A BELEZA DE MARIA
III PARTE


II- OS CONHECIMENTOS DE MARIA

Bem se pode compreender que um espírito lúcido e elevado como o de Maria deve ter sido dotado dos mais variados e mais extensos conhecimentos.

Entretanto, penetremos melhor neste assunto e vejamos quais eram exatamente esses conhecimentos.

Distingue-se o conhecimento natural adquirido pelas luzes da razão, e conhecimento sobrenatural que nos dão luzes da revelação e da fé.

Os conhecimentos naturais são: os infusos por si mesmos, quando é impossível ao homem adquiri-los, embora não ultrapassem a ordem da natureza; ou então, são infusos por acidente, quando Deus os dá, embora possamos também adquirí-los; ou ainda conhecimentos experimentais, para os quais é necessária a experiência.

Estas três espécies de ciências naturais se acham reunidas na humanidade do Salvador. Mas encontrar-se-iam elas também reunidas em Maria?... E em que grau?...

Não podemos decidir a controvérsia levantada sobre esta dupla questão, mas podemos, ao mesmo, expor as duas asserções seguintes, admitidas por Suarez e pelos teólogos de sua escola.

1. Esta fora de dúvida que a Mãe de Deus devia receber, por infusão divina, o pleno conhecimento das ciências naturais, para possuir sempre um proceder prudente, e ter uma inteligência perfeita a respeito das Escrituras e dos mistérios da fé.

2. Maria possui conhecimentos, até naturais, mais profundos e variados do que qualquer outra criatura humana, porque tinha funções mais nobres e em que eram úteis estas luzes.

Mas nem o Seu cargo, nem a Sua dignidade, nem a Sua glória parecem ter exigido um conhecimento universal de todas as artes mecânicas, de todas as ciências práticas ou especulativas.

De fato, várias dentre estas ciências não Lhe teriam sido de nenhuma utilidade, e, por conseguinte, poderiam ter-Lhe faltado.

Eis a opinião geralmente seguida. Abalizados autores, apoiando-se sobre o fato de não se poder negar a Maria nenhuma qualidade da natureza ou da graça, conveniente à maternidade divina, dizem que Ela foi dotada de todas as ciências conhecidas pelos anjos e homens, de todas as luzes proporcionadas a Jesus Cristo como homem e, por conseguinte, que Ela recebeu uma ciência infusa universal, a ponto de conhecer tudo o que diz respeito aos espíritos e aos corpos, e de possuir todas as luzes matemáticas, físicas e até mecânicas.

Entretanto, pode-se perguntar, com razão, se esta vasta enciclopédia de todas as ciências e de todas as artes tinha alguma utilidade para Maria, se convinha às Suas funções, se era um elemento de santidade ou era de utilidade para o Seu sublime ofício.

Poderia uma ciência universal da criação servir para realçar o Seu mérito e Sua glória durante a Sua vida mortal?...

É o que não se vê claramente.

A sabedoria de Maria Santíssima era tão perfeita, o Seu juízo tão são, Sua razão tão reta, que nunca em Sua inteligência se insinuou um só erro, que se pudesse chamar defeito; nunca um juízo mal fundado, e, sobretudo, nunca um desejo desregrado.

Ela não sabia tudo, mas sabia sempre o que Lhe convinha saber; ela podia aprender, sem ter sido ignorante.

"A lua, diz São Bernardo, é o emblema de uma razão inconstante e de um juízo mutável e confuso. Colocamo-la sob os pés desta prudentíssima Virgem, cuja vista sempre clara e límpida nunca foi obscurecida pelas nuvens do erro".

Esta luz racional, isentada de qualquer imperfeição, foi-Lhe dada por Deus, para auxiliar as operações de Sua inteligência na ordem sobrenatural. Quanto às luzes sobrenaturais de Maria, compreende-se que elas ultrapassam a tudo que foi ortogado às demais criaturas.

Desde Sua concepção imaculada, Ela recebeu, pela fé, como os anjos e Adão, conhecimento explícito do mistério da Santíssima Trindade. Ela conheceu também, como eles e melhor até do que eles, o mistério da Encarnação quanto à sua substância.

O ensino de diversos doutores vem cada vez mais realçar este conhecimento já tão sublime.

O Espírito Santo foi o Seu mestre e Lhe comunicou o primeiro conhecimento dos mistérios e dos dons que devia conferir às almas. Que, pois, não deve ter aprendido a Virgem na escola de um tal preceptor?... Quantas luzes não deve ter feito resplandecer o coração e o espírito de Sua Bem-Amada!...

Maria Santíssima foi instruída também pelos anjos, sobretudo pelo arcanjo Gabriel, antes da concepção de Seu Filho.

Segundo o parecer de São Bernardo, Maria Santíssima tivera colóquios com os anjos no templo. E, com mais razão ainda, com que complacência não se entretiveram com Ela os anjos, quando Se tornou Mãe de Deus feito homem?

Mas o grande meio de que Deus Se serviu para cumular das mais vivas luzes a alma de Sua Mãe, foram as revelações especiais que Lhe fez, fora a visão clara com que Deus A favoreceu.

Sem dúvida, Maria não foi favorecida da visão clara e intuitiva da divindade de um modo permanente; pode-se, porém, supor que Maria a gozasse de tempos em tempos. Ao menos, está é a opinião de Santo Antonino, Santo Alberto Magno, São Bernardino de Sena, Gerson, Salazar, São Pedro Canísio, Vega, Suarez, de Rhodes, Santa Brígida, Maria d'Agreda, etc.

Compreende-se que estas autoridades estão longe de serem desprezíveis; citemos simplesmente o raciocínio de Suárez.

Segundo um provável sentimento, diz ele, São Paulo e Moisés, revestidos de seus corpos mortais, teriam gozado da visão beatífica. Ora, o que é provável, tratando-se destes ilustres amigos de Deus, não seria mais provável e admissível ao se tratar de Maria, Mãe de Deus, à qual é impossível recusar um privilégio de graça, concedido a uma outra criatura?...

Confesso, diz ainda o mesmo teólogo, que me parece mais provável que nem São Paulo nem Moisés viram intuitivamente na terra a divina essência.

Sem negar-lhes, porém, este favor, sou levado a crer que ele foi concedido mais de uma vez à bem-aventurada Virgem, por exemplo, no dia da Encarnação e do nascimento do Cristo, em razão da dignidade incomparável da maternidade divina, à qual Ela havia sido elevada, ou ainda no dia da Ressurreição, em recompensa da excessiva dor que Lhe dilacerou a alma, durante a Paixão segundo a disposição da divina sabedoria.

A esta visão beatífica juntavam-se ainda as revelações propriamente ditas, e, além disso, colóquios com o Verbo encarnado.

A visão beatífica é também uma revelação feita no Verbo, e não é outra coisa do que a visão intuitiva dos bem-aventurados no céu.

Acabamos de dizer o que os santos pensam a respeito destes dom de Deus em Maria. Quanto às revelações, por conhecimento abstrativo, Maria foi delas dotada em um grau único.

Disto não se pode duvidar.

Este benefício das revelações, indício do amor divino, penhor precioso de familiaridade com Deus, foi, desde todos os tempos, a partilha das almas eminentemente santas, sobretudo das virgens e das contemplativas.

Quem ousaria crer que a Virgem Maria tenha sido menos favorecida?

Temos já indicado, segundo os santos padres, os seus misteriosos colóquios com os anjos, no templo de Jerusalém.

Por ocasião da concepção do Verbo encarnado, Ela recebeu dos lábios do arcanjo São Gabriel esta magnifica revelação, transmitida por São Lucas, e neste momento, diz Santo Anselmo, Ela conheceu, por uma revelação certa, que era predestinada ao céu, e que o Seu trono estaria acima de todos os coros de anjos.

Depois da Encarnação, entre outras revelações, que nos são desconhecidas, pode-se imaginar que o sentir geral dos autores é que Maria recebeu a primeira aparição de Jesus Ressuscitado, que Ela O viu várias vezes em Sua glória e que, mesmo depois da Ascenção, Ele não deixaria de visitá-lA muitas vezes, e de instruí-lA acerca dos mais profundos mistérios.

Eis alguns dos principais conhecimentos que ornaram esta inteligência sem par na terra.

Quando entre os homens aparece um homem, cuja fronte se cinge a auréola do gênio, e cujos atos denotam uma inteligência perspicaz e superior, os homens de valor a ele se dirigem, e então constitui uma escola, e torna-se um guia nas sendas árduas do dever e não se saciam de ouvir esta voz, cujos acentos parecem ser o eco de um mundo maior e mais elevado.

E Maria, a incomparável, a inefável Maria, com a Sua inteligência tão sublime e - perdoem-me a expressão- com o gênio tão luminoso quanto era santa a Sua alma e amante o Seu coração, Maria, cuja fronte é cingida de todos os conhecimentos e de todas as glórias, não seria também um cetro de atração, um guia, uma luz, enfim?...

Ó Maria, ante tanta beleza, diante de faculdades tão divinamente iluminadas, eu me prostro, admiro, sinto o meu coração abrasar-me e amar-Vos como o único objeto, depois de Jesus, que possa fixar as minhas afeições e possuir o meu coração!

(Por que amo Maria, Tratado substancial e completo dos principais motivos de devoção para com a Virgem Maria segundo os Santos Padres, os Doutores e os Santos; pelo Pe. Júlio Maria, missionário de Nossa Senhora do SS. Sacramento; Editora Vozes, ano de 1945)

PS: Grifos meus.
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