segunda-feira, 29 de novembro de 2010

V- PALAVRA

V- PALAVRA


Sitio
"Tenho sede"
(Joan. XIX, 28)

Entre os tormentos, que afligiam os supliciados de cruz, era a sede um dos mais terríveis. As chagas, expostas ao contato do ar, inflamavam-se, rapidamente, provocando uma febre violenta que ocasionava sede intensíssima, intolerável. E Jesus experimentava em toda a sua crueldade.

"Esta sede justificava-a de sobejo o horrível trabalho do Seu corpo e do Seu espírito. Tudo devia acender-lha: o sangue derramado em borbotões, as lágrimas correntes, os suores estranhos de Getsêmani, a noite de vigília, a incrível flagelação e, principalmente, aquele desamparo interior de Deus, cuja justiça implacável O abrasava mais ainda do que a febre, que a crucifixão Lhe inflamava nas veias". (Perroy - La Montée du Calvaire - Pág. 325)

A sede, que Lhe queimava as entranhas, era tal que a língua havia aderido ao véu palatino, verificando-se o que profetizara o salmista: Adhaesit lingua mea faucibus meis (Psalm. XXI, 15.) Estas palavras, parece, traduzem o máximo do horror da sede, que possa suportar uma criatura humana.

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É verdadeiramente digno de reparo que Jesus, que suportara sem uma palavra de queixa e de lamento todos os martírios da Paixão, haja se queixado da sede... Esse particular não escapou aos comentadores das Escrituras, que o explicam cabalmente. No próprio Evangelho de São João encontramos a razão primária desse lamento do Salvador: "Para que se consumasse a Escritura, disse: - Tenho sede". Ut consummaretur Scriptura dixit: Sitio. (Joan. XIX, 28).

Foi para cumprir o que os patriarcas e profetas, videntes da Antiga Aliança, haviam pronunciado, que Jesus, no cimo do Calvário, Se queixou da sede horrível, que Lhe abrasava e consumia as entranhas. As palavras de São João, o discípulo amado do Mestre, no-lo fazem entender, de modo claro e insofismável.

Outra razão ainda descobrem os comentadores da narrativa da Paixão e Morte de Jesus. Dizem alguns exegetas que o Divino Salvador assim procedeu para dar lugar a um novo tormento, cumprindo-se à risca as palavras do real profeta: "Em minha sede deram-me a beber vinagre." (Psalm. XLVIII, 2) A caridade infinita do Redentor não Lhe permitia escapar a um sequer dos tormentos, que Lhe estavam reservados. Por isso proferiu aquelas palavras, que dariam lugar a um novo sofrimento.

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"O eterno dessedentador, que tantas vezes matou a sede alheia e que deixa no mundo uma fonte de vida que não secará jamais - onde os cansados encontram a força; os corrompidos, a juventude; e os inquietos, a paz - sofreu sempre de uma insatisfeita sede de amor. Mesmo agora, no ardor dilacerante da febre, a Sua sede não é de água, mas de uma palavra de misericórsia, na mendonha opressão de Seu desconsolado abandono". (Giovanni Papini - História de Christo - Pág. 524)

Naquela hora tremenda, não era somente a sede material que torturava Jesus. Além dessa, que não era pequena, havia outra, a sede espiritual, o desejo intenso e infinito de salvar todas as almas de todos os homens. O grande doutor da Igreja santo Agostinho comentando essa passagem do Evangelho, escreveu estas palavras:

"Oh! meu Deus, que bebida desejava o Vosso sangue derramado e dessecado? Pedirieis água fresca e límpida das fontes para extinguir o ardor da febre, que abrasava todos os Vossos membros? Ah! sem estardes livre desta sede ardente, quão mais elevados eram os Vossos desejos! tinheis sede da nossa salvação, da nossa felicidade, do nosso amor; tinheis sede de ver consumada esta laboriosa Redenção, empreendida havia trinta e três anos e que tocava o seu termo..." Essa era a sede que mais atormentava o divino agonizante do Calvário.

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Naqueles momentos, via Jesus em espírito, a multidão inumerável dos condenados, dos réprobros, daqueles para os quais a Redenção seria inútil. E podia perguntar-se a Si mesmo qual seria o proveito de tanto sangue derramado, de tantos tormentos suportados... E bem poderia renovar a interrogação do Profeta-Rei: Quae utilitas in sanguine meo? (Psalm. XXIX, 10)

Aos olhos de Jesus moribundo desfilavam, em sinistra procissão, todos os pecadores do mundo, todos os inimigos de Sua Igreja; sofistas, heresiarcas, perseguidores e sacrílegos. Espíritos enfatuados, cheios de falsa ciência, que, nos tempos antigos e nos dias contemporâneos, procuram lançar a confusão no mundo das idéias, a fim de que não resplandeça o sol da verdade, Jesus os viu, do cimo do Calvário.

Homens cheios de orgulho, aferrados às próprias opiniões, que preferem o erro por própria conta à submissão ao magistério infalível da Igreja. São os hereges, que, dilacerando o túnica do Mestre, promoveram a cisão e o desmembramento no seio do rebanho de Jesus Cristo... Dessas almas também tinha sede o supliciado do Gólgota.

Césares poderosos e imperadores absolutos, que juraram apagar o nome cristão;  todos os potentados da terra, de Augusto, de Roma, aos déspotas do México, da Espanha e da Rússia, que fizeram e ainda fazem, em plena civilização do século XX, jorrar em torrentes o sangue generosos dos confessores da fé - todos esses estiveram presentes durante a agonia do Senhor... Os sacrilégios, que conspurcam os sacramentos, os profanadores, que violam lugares e pessoas sagradas, aumentavam a sede misteriosa de Jesus...

E Ele tinha ante os olhos todos os pecados e todos os desmandos dos indivíduos, em particular, das famílias e da sociedade em geral. O casamento civil, instituído em oposição ao sacramento da Nova Aliança; o divórcio, que vem separar o que Deus mesmo uniu; o amor livre, que é o supremo desbragamento das paixões humanas; os atentados cometidos contra a lei da propagação da nossa espécie; os desmandos e a licenciosidade dos teatros, dos cinemas, das praias de banho, das modas indecorosas, das danças lascivas e toda a orgia das metrópoles antigas e modernas, que tanto e tanto ofendem a Deus - tudo isso confrangia o coração amoroso de Jesus, que experimentava dor infinita por não poder evitar a perda eterna de tantas almas!... E podia perguntar-se a Si próprio: Qual o proveito de tantos sofrimentos, de tantas dores?

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Jesus veio à terra trazer a luz da verdade para iluminar a vida das inteligências, e a justiça, para ordenar a vida da sociedade. E, após os dezenove séculos de existência do cristianismo, nós nos encontramos ainda tão distanciados dos ideais de perfeição evangélica. Quando olhamos, superficialmente embora, para a vida da humanidade, quando percorremos a história dos séculos passados, somos forçados a reconhecer que, infelizmente, estamos muito afastados da verdade, na vida intelectual, e da justiça, na vida social!

O mundo moderno procura a verdade. Parece que a intelectualidade contemporânea repete a célebre interrogação do Pôncio Pilatos, no Pretório: "Que é a verdade?" Quis est veritas? (Joan. XVIII, 38)

O mundo procura a verdade e não a encontra, porque não a procura com as disposições necessárias. Procura-a, displicentemente, como a procurava o proconsul romano. Por isso não a encontra nem a merece encontrar. A sociedade contemporânea acha-se empenhada em luta tremendas e cheia de rivalidades profundas, que a ameaçam de destruição e de morte. A questão social e as competições entre as classes tocam aos extremos e o anarquismo desfralda aos quatro ventos a sua bandeira negra, encharcada de sangue. Daí crimes que assombram o mundo, atentados que envergonham a civilização, como a tragédia, recentemente, desenrolada em Marselha. (Alusão ao atentado de que foi vítima o rei Alexandre, da Iugoslávia)

Falta ao mundo contemporâneo o senso da justiça social, que deve presidir as relações entre servos e senhores, patrões e operários, pobres e ricos - o capital e o trabalho. De uma parte, vemos o proletarismo, nem sempre justo em suas reivindicações, nem sempre resignado às condições de sua sorte... De outra, as classes abastadas não se compenetram da função social da propriedade privada, para auferir sempre maiores lucros e acumular maiores fortunas, mesmo à custa da vida e do sangue dos desprotegidos da sorte....

Extorsões e injustiças concentram ódios, que explodem em revoluções, que semeiam a dor, a morte e o luto.

Nunca a humanidade ostentou maiores conquistas nas ciências, maiores progressos nas artes e nas letras, do que nos tempos presentes. Mas debaixo dessas aparências deslumbradoras, há crises e misérias de toda a sorte. Há crise na filosofia, cujas teorias se contradizem; há crise na política, onde se revezam ditaduras e revoluções, desacreditando os sistemas do governo; há crise na vida econômica, financeira, que se demonstra na exigência da superprodução e da falta de trabalho. Tudo isso porque a sociedade pretende viver sem Cristo e até mesmo contra Cristo - sem Deus e contra Deus.

Toda a série infinda dos males sem conta de nossa sociedade torturava a alma de Jesus crucificado, aumentando-Lhe a sede devoradora, que então experimentava.

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É mister que as almas cristãs compreendam que foram os seus próprios pecados, que tornaram mais intensa a sede de Jesus e mais dolorosa e mais cruéis os tormentos do Redentor do mundo. É mister que os corações amantes do supremo regenerador dos filhos do pecado se voltem para a Vítima da justiça divina, procurando saciar a sede infinita que Jesus sente de almas...

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Senhor Jesus, pelo tormento indizível da sede que experimentastes na hora da Vossa morte, dissedentai as nossas almas, dando-nos a beber a água da vida, a água da salvação, para que não tenhamos mais sede por toda a eternidade. Qui biberit ex aqua, quam ego dabo ei, non sitiet in aeternum. (Joan. IV, 13)

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral, editora ABC limitada, coleção Cristo Redentor, ano de 1937)
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