domingo, 21 de novembro de 2010

6ª- CONFERÊNCIA - A mulher forte madruga II

Nota: As transcrições deste livro não estão sendo feitas de forma sequencial, porém existe um marcador próprio no blogue para este livro onde se é possível encontrá-las numeradas. Recomendo vivamente a leitura destas conferências.

PS: A parte do texto que segue em azul é um resumo da 5ª Conferência.



6ª- CONFERÊNCIA
(Monsenhor Landriot, arcebispo de Reims,
 feitas às senhoras da associação de caridade)
 

De nocte surrexit.
A mulher forte madruga.
(Prov., XXXI, 15)

Senhoras.
O sono foi dado ao homem como sustento da vida, reparador das forças, e o melhor e o mais hábil dos médicos; uma só das suas receitas perfeitamente cumprida basta, algumas vezes, para a cura de graves moléstias, ou, pelo menos, para aplacar profundas dores. O sono é o banho salutar com que a vida se renova, em que todo o ser se rejuvenesce; é uma estação no deserto deste mundo; pois, muitas vezes, após enfadonhos e pesados dias, vem-se repousar neste oásis preparado pela divina Providência, reclamando-se, no dia seguinte, o caminho com vigor novo e nova coragem. O tempo do sono é, não somente útil ao corpo, senão também à alma; ele serena as agitações, derrama um bálsamo doce sobre as dores agudas e impede as precipitações de palavras e de fatos. Os antigos chamavam a noite boa conselheira, pois que até em seu favor aproveita as insônias preparadas pelas paixões, ou pelas enfermidades corporais: e na calma que em toda a parte operam as trevas, ela desperta no homem melhores sentimentos. Se ele é cristão fere-lhe as fibras da oração, e um único colóquio com Deus, um único olhar para o céu basta, algumas vezes, para abafar os maus e perigosos germes, e para preparar para o dia imediato um céu puro e sem nuvens.

"Outras vezes – diz Santo Ambrósio – há tanta serenidade e placidez no sono do justo, que é como um êxtase, no qual, em quanto que o corpo repousa, a alma está, por assim dizer, arrancada aos seus órgãos e unida ao Cristo: - Somnus tranquillitatem menti invehens, placiditatem animae, ut tanquam soluto nexu corporis se ablevet. Et Christo adhaereat." (Ep. XVI, nº 4).

O sono é ainda um excelente pregador, porque nos recorda a imagem da morte – diziam os antigos – e ambos são filhos da noite. A chegada quotidiana do sono deveria fazer-nos dizer: - Em breve o outro irmão virá, e desta vez estender-me-ei no meu leito para não mais me levantar. Cada visita da noite deve ser um convite, a fim de me preparar para a última e solene partida.

O sono é pois, excelente em si próprio; mas como até das melhores coisas se pode abusar; abusando-se dele, produzirá efeitos completamente contrários aos que acabo de enumerar, isto é, enfraquecerá o corpo, tornará pesadas as idéias, e, bem longe de refrescar e reparar a vida, preparar-lhe-á uma espécie de sepultura viva para a enterrar. – Depois de algumas considerações sobre este importante assunto indicamos as precauções físicas e morais, que é bom tomar para facilitar a benéfica ação da noite. Resta-nos agora desenvolver outras considerações, que serão o tema desta sexta conferência.

Não basta determinar a quantidade de sono que deve ser regulada com sabedoria, sem conceder nem tirar muito a natureza; é necessário calcular a qualidade do somo (Nota de rodapé: Os alemães têm um provérbio que diz: - Uma hora de sono antes da meia noite vale duas da manhã.). Ora, segundo as observações gerais, o sono da verdadeira noite à verdadeira manhã, isto é, o que se dorme no intervalo de nove a cinco ou seis horas, é o melhor, o mais salutar, o mais favorável à saúde. Não digo que seja necessariamente preciso dormir todo o tempo que acabo de indicar; é um espaço designado para a escolha das horas de sono. Admitamos voluntariamente todas as exceções produzidas pelas conveniências transitórias; mas, em tese geral, vale mais deitar cedo e madrugar. É este o melhor tempo e o mais favorável para o banho noturno que se chama sono. O corpo descansa mais, e o repouso é mais conforme com as leis da natureza, é mais doce, mais leve, e, ao mesmo tempo, mais profundo, porque não tem o peso que é o indício duma situação anormal.

O sono, muito prolongado pela manhã, porque é retardado à noite, tem gravíssimos inconvenientes. Comunica ao estado geral da saúde uma languidez doentia, que parece tornar-se a situação habitual de certos temperamentos, entre as quais a vida é uma espécie de perpétua convalescença, não chegando nunca a gozarem o mais precioso bem da natureza, uma saúde verdadeira e solidamente estabelecida. Vede ao contrário as camponesas robustas da aldeia: de noite vão cedo pedir ao leito o repouso para os membros fatigados, de manhã levantam-se ao cantar da cotovia. No inverno, o fogo cintila de madrugada no lar doméstico; arranja-se a casa, a ordem do dia dispõe-se antecipadamente, o almoço dos trabalhadores está pronto a ir para a mesa, e, todavia, o sol ainda não repontou no horizonte. No estio, as mesmas raparigas da aldeia acompanham o astro do dia na sua marcha matinal, e o peito dilata-se-lhes e fortifica-se-lhes, respirando o ar fresco e perfumado que o sol derrama nos seus raios, parecendo aspirarem à vida e a saúde. Mais tarde casam-se essas donzelas, fazem-se robustas mães de famílias, e, quando não cometam imprudências, podem, durante longos anos, continuar uma existência, completa por um fecundo trabalho e ornada, algumas vezes, de toda a frescura e de todos os encantos duma vigorosa velhice, pois o regime é um excelente médico que lhes confere o privilégio de longa vida.

Donde vem, ao contrário, a fraqueza do temperamento nas mulheres de elevada posição? De muitas causas, de que, uma das principais é o regime muito geralmente adotado, sobretudo, nas grandes cidades. Gasta-se uma parte das noites em soirées que acabam por ser transformadas em longas manhãs; dorme-se uma parte do dia, e disto resulta uma atonia geral na constituição, um cansaço nos nervos, um entorpecimento nos órgãos e uma fraqueza habitual e perseverante. Certos temperamentos excepcionais poderão resistir; mas é incontestável aos olhos de todo o observador imparcial, que a perda da saúde, sobretudo nas mulheres, é decida, em grande parte, aos excessos que acabo de assinalar:

As longas vigílias de noite – diz um sábio – arrastam necessariamente fadigas, que influem no cérebro e sobre os aparelhos digestivos e respiratórios. Ora as fadigas desta natureza, bem longe de favorecerem o sono, tornam-no incompleto e penoso. Daqui uma grande parte do estado valetudinário que habitualmente se encontra nas mulheres das nossas cidades. As soirées e os bailes arruínam antecipadamente a saúde, e é, muitas vezes na própria mocidade, mas mais ainda nos avançados anos da velhice, que as loucas e funestas dissipações do mundo imprimem o seu triste e fatal selo.” (Desdonits, Lições da Natureza)

Estou prevendo a objeção: - Quereis condenar as soirées? Em primeiro lugar, senhoras, deveis notar, que se há ali alguma coisa a condenar, não sou eu quem condena: - são os fatos, é a natureza, é o temperamento do corpo humano. É verdade que a saúde de muitas mulheres de elevada posição está enfraquecida? – Ninguém ousaria negá-lo. É verdade que uma das causas principais é o modo como o mundo organizou, muitas vezes, as relações sociais? É um fato que a ciência demonstra todos os dias. Estou longe de condenar as soirées; e talvez estejais lembradas de que nas nossas reuniões mensais dos anos passados, me apliquei a mostrar-vos que a religião é amiga dos prazeres honestos e das relações da sociedade, mas com a condição, porém, de que tudo seja regulado pela sabedoria, pela conveniência, e de que os interesses do corpo e da alma não sejam abandonados; pois é tal o respeito do cristianismo pelos nossos corpos, que até nisso pode haver o pecado do comprometimento da saúde por graves imprudências. Os alegres entretenimentos da noite têm toda a espécie de vantagens: animam o espírito, refrescam o corpo, aproximam os corações, fazem desaparecer as nuvens e estreitam os laços de família ou da amizade. Os prazeres são necessários ao homem, mas em certa dose; falo dos prazeres honestos e que a virtude pode admitir, e os que conservarem alguma dúvida a este respeito, podem consultar os escritos dos maiores teólogos da Igreja e especialmente São Tomás. Este grande doutor tem sobre este assunto uma clareza, uma precisão, e, ao mesmo tempo uma razão e uma sabedoria, simultaneamente cheia de condescendência e de reserva. A regra por ele estabelecida é que é necessário usar de tais espécies de prazeres com moderação, segundo o tempo, os lugares e a conveniência das pessoas com as quais se vive: Moderate pro loco, et tempore, et congruentia eorum quibus convivit (temperatus). [Ethica, 1.III]

Há muitas pessoas – diz Fenelon – que querem que se gema com tudo, e que continuamente nos incomodemos, excitando em nós o desgosto dos divertimentos aos quais estamos sujeitos. Quanto a mim, confesso que não poderia acomodar-me a esta rigidez. Gosto mais de alguma coisa mais simples, e creio que o próprio Deus também. Quando os divertimentos são inocentes e se entra neles pelas regras do estado em que a Providencia nos põe, então creio que é suficiente tomar parte neles com moderação, e à vista de Deus. Maneiras mais secas, mais reservadas, menos complacentes e abertas só serviriam para dar uma falsa idéia de piedade às pessoas da alta sociedade, que já se preocupam muito contra ela, e que julgam não poder-se servir a Deus senão por uma vida sombria e incomoda.” (Manual de piedade. Conselho a uma pessoa da corte)

Nós quereríamos, pois, que as sociedades cristãs adotassem por máxima estas belas palavras de São Crisóstomo: - “Os cristãos têm o sentido dos prazeres delicados, mas a tudo deve presidir a decência: Discant gentiles quod christiani deliciari sciant, sed cum decoro.” (Epist. Ad Rom.)

É impossível fazerem-se mais concessões e mais razoáveis à natureza humana; mas por isso mesmo não é a religião autorizada a mostrar-se mais severa em tudo quanto excede os limites da sabedoria, da conveniência e da virtude, e mesmo por tudo quanto pode comprometer os interesses da saúde e da fortuna? Não seria possível, voltando ao nosso assunto, nas reuniões de família, combinar tudo para o bem geral e para a vigorosa saúde das gerações atuais? Salvo circunstancias especiais em que se é obrigado a velar mais tempo, não seria possível dar menos extensão às soirées, tornando-as, assim, mais agradáveis e mais freqüentes, mais salutares e menos comprometedoras para a saúde?

Eis o problema que proponho a resolução, e não é coisa singular que seja a religião que intervenha aqui para vos dizer: - Pensai nos interesses do vosso corpo, porque até se peca em os desprezar gravemente: Hoc esset peccatum – diz São Tomás. (Q. 141,art. 6)

Esse excesso das soirées vem-nos do paganismo; existia no tempo de Sêneca, e eis em que termos este filósofo o fustiga: - “Há-os que invertem o uso do dia e da noite... Também nada há tão triste e abatido, como o aspecto das pessoas que, por assim dizer, se consagraram à noite; têm a cor dos doentes, são pálidas, definhadas e vestem uma carne morta sobre o corpo vivo. E ainda aqui não está o maior mal: o sei próprio espírito é cercado de trevas, entorpecido, e habita as nuvens... Como não deplorar um excesso, que consiste em fugir da luz do dia para mergulhar a vida nas trevas.” (Epist. 1222)

Eu tenho-me perguntado algumas vezes: Se a religião impusesse metade dos sacrifícios que o mundo exige; se ordenasse que uma parte das noites fosse passada a fatigar o corpo e a alma o que se diria contra ela? Oh! Que anátemas! Que amargas censuras! Mas é o mundo que fala e ninguém diz nada: está-se encantado, ou pelo menos finge está-lo. São Francisco de Sales faz a este respeito algumas reflexões em que a fina ponta duma agradável malícia se mostra sob uma alta razão, e que com pesar deixaria de citar-vos: “Nós temos visto fidalgos e damas da elevada posição passarem a noite intera, e até várias noites seguidas a jogarem, e todavia os mundanos não diziam palavra, e os amigos também se não davam a esse trabalho; mas pela meditação duma hora, ou por nos verem levantar um pouco mais cedo que o costume para nos prepararmos para a comunhão, todos correm ao médico, para que nos venha curar os humores hipocondríacos ou da icterícia. Passar-se-ão trinta noites a dançar sem uma queixa, e só por algumas horas na noite de Natal todos tossem e estão incomodados no dia seguinte.” (Vida devota, 4ª parte)

O salutar regime de deitar e levantar cedo é muito precioso par a alma, e as ocupações da vida são, deste modo, muito melhor cumpridas. A alma é mais serena a noite; é mais calma como tudo quanto é regular, como tudo quanto não é perturbação nem investido pelas mil preocupações de uma vida muito mundana. À noite, antes de se adormecer, recolhe-se a gente, analisa o dia, censura-se, corrige-se e, como destro negociante, fazem-se as contas de ganhos e perdas. Não julgues, senhoras, que esta prática do exame noturno pertença aos espíritos tacanhos, pois é um uso de razão e de sábia filosofia, como de resto o são todas as práticas de uma devoção esclarecida. Os pagãos poderiam, sobre este assunto, dar muitas lições aos cristãos. Ouvi Pitágoras:

Não permitais que o sono te cerre os olhos sem teres examinado todas as ações do dia. Em que falei? Que fiz? Que dever esqueci? Começa assim pela primeira das tuas ações e percorre-as a todas, e depois censura-te pelo que fizeste mal e regozija-te com o que fizeste bem.” (Versos dourados, 10-44)

Que haverá mais belo – diz Sêneca- que o hábito de fazer sempre o inquérito de cada dia! Que sono o que sucede a esta revista das ações! Como é sereno, profundo e livre quando a alma recebeu a sua parte de elogio ou de censura, e quando, submetida ao seu próprio julgamento, ela organiza secretamente o processo do seu caminhar! Eu, tomei esta autoridade sobre mim próprio, e todos os dias me cito perante o tribunal da minha consciência. Tanto que a luz é retirada, analiso o meu dia, peso de novo os meus atos e as minhas palavras, nada me dissimulo, nada me desculpo.” (Da cólera, 1. II, c.86)

Adquiri este santo hábito, senhoras, e em vós, tanto aproveitará a razão como a piedade, em uma doce serenidade se derramará em volta de vossa alma, e adormecereis numa paz inteiramente angélica: Somnus sanitatis in homine. (Eccl. XXXI). Já vistes necessariamente como dormem as crianças:- Que calma! Que dulcíssima expressão! Que graciosidade de fisionomia! Que posição viva e silenciosa! Pois será assim a imagem do vosso sono.

Mas, - e nós tocamos aqui no ponto mais delicado, - resulta desta organização de vida, que deveis levantar-vos cedo! Eu estou já ouvindo um longo suspiro, um certo movimento de espanto que parte do vosso tremulo leito. Entendamo-nos, porém, primeiramente sobre a frase – levantar cedo. Não vos exortareis para que imiteis uma mulher delicadíssima, que dizia, durante a sua assistência em Vichy: - “Eu começo o meu dia às quatro horas da manhã, a fim de que o corpo o não arrebate a alma.” (Cartas de Mme. Swetchine) Não vos proponho este modelo, e tenho mesmo a certeza de que se abrisse um registro poucos membros encontraria para a irmandade de Madame Swetchine. Deixe-nos, pois, um pouco indeciso o valor da frase – levantar cedo; basta que seja o mais cedo possível, o que talvez seja sempre demasiado tarde. Uma vez determinada a hora do vosso levantamento matinal, conservai-a com tanto maior firmeza, quanto mais difícil de transpor é o posso, e quanto maior é a quantidade de fluido magnético que o desgraçado leito encerra, e pelo qual se é arrastado, não digo com pesar próprio, mas com uma doçura de violência que nos chumba ao poste.

Confesso que estamos aqui em face do mais terrível dos inimigos, que é o travesseiro; quando pela manhã o queremos deixar, usa de artifícios linguagem de sereias, e acaricia-nos com terna precaução. Parece dizer-nos: - Porque me abandonas? Não estás bem aqui? Que doce temperatura! Que inapreciável bem estar! Não vês que ainda é muito cedo? Não sentes os membros fatigados ainda, porque não desancastes quando devias? Apalpa a fronte e verás que uma dor de cabeça poderia começar; alguns quartos de hora mais e ela será dissipada; amanhã te levantarás mais cedo. Demais, está tanto frio lá fora! Para que afrontar o rigor da estação? O dia é bastante longo; tens muito tempo para fazer face a tudo; não sejas realmente tão áspero contigo mesmo.

Depois duma linguagem tão eloqüente o querido travesseiro estende os seus dois braços para vos enlaçar e a vitória em breve é consumada. Verdade é que ela era fácil, pois ninguém com ela é mais ditoso do que o vencido. E eis-vos de novo sepultadas por mais algumas horas! Falo muito seriamente, senhoras, dizendo-vos que um dos inimigos mais difíceis de vencer, é o travesseiro pela manhã; há só um meio de triunfar dele, é um golpe pronto e decisivo, uma carga militar, um salto fora do leito. Carregai o inimigo com uma vigorosa saída e a vitória será vossa. – Um velho capuchino dizia, que, depois de longos anos de religião, o que mais lhe custava ainda era o levantar-se às quatro horas da manhã. É verdade, senhoras, que há nisso um sacrifício, um sacrifício real e incontestável; mas, neste mundo, a vida é cheia de sacrifícios, e cada um deles é seguido dum sentimento de verdadeira ventura, e cada vitória dá ao homem uma força espantosa. Quando vejo uma pessoa que tem a coragem de se levantar cedo, formo logo uma altíssima idéia da firmeza do seu caráter e digo: - Esta pessoa saberá nas ocasiões críticas desenvolver uma energia extraordinária; a sua natureza retemperar-se-á, em cada manhã, na luta contra o travesseiro, combate este, que muitas vezes é mais difícil, sobretudo por causa da sua continuidade, que o do soldado no campo de batalha.

Além disso, senhoras, esperai tanto quanto quereis: a menos que não permaneceis deitadas até ao meio dia, tereis um sacrifício a fazer, deixando o leito. Ás vezes quanto mais esperardes, tanto mais longo será o sacrifício e mais aumentado pela triste perspectiva dum levantamento próximo; mas com um minuto de decisão pronto e generoso, tudo se consegue, e o gozo da vida ativa é começado. As longas esperas no leito quando se está acordado também têm graves inconvenientes para a alma: amolecem o ser inteiro e mergulham-no numa espécie de devaneio mais ou menos sensual que pode conduzir à margem de certos abismos. Tende cuidado com isto: a borboleta ondeia caprichosa com as suas asas douradas, e, afinal vai queimar-se na luz que perfeitamente brilha para ela, imagem desses passeios aéreos, em que, a força da aproximação de certos alvores enganosos, se acaba por danificar as asas da alma, tirando-lhe, ao menos, o veludo da consciência pura.

"É perigoso – diz Santo Ambrósio – que o sol venha perturbar com seus raios indiscretos, os sonhos de um espírito ocioso e oculto no seu leito” (In Ps., 118, s.19) O poeta italiano, diz, falando da manhã: - “Então o nosso espírito, mais estranho a carne e mais distante dos pensamentos terrestres, é quase divino nas suas vidas.” (Dante, Purgatório, c. IX) Em casa dia, após uma boa noite, podemos renovar na nossa alma as maravilhas de uma esplendida alvorada de primavera: tudo é fresco no espírito e no corpo, tudo é quente nas faculdades interiores; a vida experimenta uma espécie de necessidade de expansão; todos os pensamentos, todos os desejos parecem estremecer de alegria, como as plantas de um jardim celeste. Se o sol da oração se levanta no horizonte, os germens do bem despertam, desenvolvem-se e sobem ao passo que o calor divino se torna mais intenso: “O maná – diz o Profeta – desaparecia ao surgir à manhã: era para mostrardes a todos, ó meu Deus, que é preciso prevenirmos o aparecimento do sol, para recebermos as vossas preciosíssimas bênçãos.” (Sabedoria, XVI, 28) Há uma coisa muito notável aos nossos livros santos, e é que a oração matinal é sempre especialmente mencionada:

Senhor – diz o Profeta – Vós escutareis a minha oração da manhã.” (Ps. V, 4)

Pela manhã, apresentar-me-ei na Vossa presença e verei a Vossa glória.” (Ibidem, V.4)

De manhã a minha oração Vos surpreenderá.” (Idem, LXXXVII, 14).

É de manhã que a Vossa misericórdia se derrama sobre nós abundantemente.” (Idem, LXXXIX, 14)

Os que velam cedo – diz a Sabedoria – achar-se-ão.” (Prov., VIII, 17)

O próprio Senhor se chama estrela esplendida, estrela da manhã: Ego Stella splendida et matutina. (Apoc, XXII, 16)

Eu não posso deixar de ver nestas contínuas repetições um pensamento fixo e perfeitamente detido: há entre as coisas relações naturais, estabelecidas pela divina Providência, e que ela gosta de conservar no mundo sobrenatural; de manhã é quando começa a vida sobre a terra, é quando tudo renasce, quando a solidão favorece os primeiros impulsos da vida que retoma o seu curso, quando o orvalho se deposita e dá um fresco alimento à planta. É também a ocasião mais deliciosa para o recolhimento da idéia, para a efusão do orvalho das almas. O céu está carregado de chuva quando a noite a condensou; o maná está em toda a parte, mas desaparece em breve, e enquanto que a indolência perde as forças do seu espírito e do seu corpo nas faixas do sono, a alma ativa faz a sua provisão de alimento celeste; dispôs o seu céu interior para todo o dia, dissipou-lhe antecipadamente as nuvens e como que fixou a serenidade di tempo até ao próximo sono.

Uma das horas mais preciosas e mais doces da vida é a da oração da manhã: eu não me refiro somente a oração vocal; quero, sobretudo, dizer a oração da união com Deus, o silêncio e o repouso da alma n’Ele; falo da abertura da bica da alma, que aspira um leite divino, que bebe a luz e o amor, que nada diz, e que se esconde no seio da mãe por excelência, da mãe que se chama Deus, e que tão poucos cristãos conhecem! Os meum aperui et attraxi spiritum. (Ps. CXVIII, 131)

Ah! Se conhecêsseis o dom de Deus que se apelida o amor da manhã! Si scires donum Dei (Joann. IV 10)! Há uma frescura, uma suavidade, uma energia, uma paz que vêm diretamente de Deus. Quando se está sobre as montanhas, no verão, as três horas da manhã, e os primeiros raios do sol aparecem, parece que nos chegam mais límpidos, pois não têm passado por outros peitos; é como a mais pura essência do astro, que entra em nós; o mesmo acontece com a união a Deus, na hora em que quase todos os homens dormem. Sobre as montanhas divinas, a alma tem as primícias dos favores celestes; enche-se de luz, de amor, de força, donde lhe resulta para todo o dia uma dulcíssima embriaguez, que, longe de enfraquecê-la, dá mais firmeza aos nossos pensamentos e às nossas ações, e derrama um perfume de alegria sobre todas as nossas obras. – Quando não houvessem outras razões para o levantar cedo eu vos diria: - Sacudi o vosso travesseiro, porque o Senhor vem visitar-vos com escolhidos favores; mas o menor desleixo será a prova da vossa indiferença, e forçareis o Senhor a ir mais longe procurar as almas mais dignas dos Seus benefícios. Não há pessoa que, em cada manhã, deixasse de levantar-se prontamente, se corressem a dizer-lhe: Vinde depressa, espera-vos um príncipe que chegou a vossa casa. – Colocai Deus no lugar do príncipe e tereis a verdade.

Finalmente, senhoras, e termino: - Se alguma coisa quereis fazer seriamente, madrugai. De manhã não se está alterado, está-se cercado de calma, de uma doce solidão, e com mais facilidade se dá expediente a todos os negócios e serviços. Podereis ocupar-vos no comércio, no arranjo da casa, na leitura, no trabalho intelectual se amais o estudo; depois de alguns anos será incalculável o resultado que colhereis assim.

Levantando-vos duas horas mais cedo em cada dia, no fim de quarenta anos tereis ganhado mais de vinte e nove mil horas, isto é, mais de sete anos, contando somente às doze horas do dia, em as quais se trabalha. Ora aumentar a vida em sete anos por quarenta, é enorme, e o que se pode fazer durante este tempo continuo, acaba por tornar-se incrível. “É preciso – diz Clemente de Alexandria – arrancarmos ao sono a maior porção de vida possível.” (Pedag., I. II, c.9)

O sono é um verdadeiro ladrão que nos rouba as maiores riquezas; é um ladrão que se não pode repelir completamente, mas ao qual se pode ganhar algum terreno, impedindo-o de invadir a verdadeira vida. – “Nós só vivemos metade do tempo da nossa existência – dizia Plínio, o Antigo-; a outra metade passa-se num estado semelhante à morte... não contando os anos da infância, em que ainda não há consciência das coisas, nem o tempo da velhice que só vive para sofrer.” (Idem, I. VII, c. 51)

Tenhamos, pois, a coragem de subtrair todos os dias alguma coisa a este irmão da morte que assim divide em duas a nossa vida, reservando para si a melhor parte; demos a natureza o que lhe é necessário, mas não façamos nenhuma concessão à indolência.

O tempo mais favorável para se fazer este furto, são as primeiras horas da manhã. “A qualidade do tempo é diferente a essa hora – diz Madame Swetchine.” (Cartas, t. II) Uma hora pela manhã vale duas da noite, porque o espírito está fresco, naturalmente mais recolhido, não tem ainda as forças gastas, nem está exausto pelas fadigas do dia. As horas da manhã parecem-se, para a agilidade do espírito e para as forças rejuvenescidas da alma, com a primeira hora do corcel que é atrelado a uma viatura. Do mesmo autor que nós gostamos de citar aconselhava a levantar cedo, “a fim de se reservarem, custasse o que custasse, algumas horas de inteira solidão pela manhã.” – “não era somente – continua uma das suas amigas- para consagrar a Deus as primeiras horas do dia que ela o começava tão cedo, era também para dispor de tempo em favor do estudo."

Ela disse-me um dia que o prazer que nisto sentia tinha aumentado com os anos: “É justamente, me disse ela, quando me aproximo desta mesa para continuar o trabalho, que o meu coração pulsa de alegria.” (Ibidem.) Ela própria confessava, “que quando não fazia assim o resto do dia estava em pilhagem.” (Idem, p. 126) se não quereis estar fora de horas, senhoras, madrugai; fareis então o que quereis, ninguém vos virá causar transtornos; consagrareis o que tendes de mais íntimo em vossas forças, aos deveres mais sérios e mais verdadeiros da vossa existência. E quando soar à hora da pilhagem, a hora em que é necessário dividir a vida em pequenos fragmentos para dispensá-las em mil nadas mais ou menos urgentes, vós tereis, ao menos posto em segurança o melhor e o mais precioso. Se vos levantardes tarde, tereis a vida em perpétua pilhagem, e pertencerá ao primeiro que vier arrancar-vos um fragmento. (Diário de Melle Eugenie de Guerin, p. 24)

Platão, e não deveis achar severa a moral dum pagão, Platão diz nalguma parte: - “É vergonhoso que a dona de casa se faça acordar pelos seus domésticos, não sendo a primeira a acordá-los.” (As leis, I. VII) Esta frase parecerá talvez uma exageração; entretanto, se as coisas pudessem passar-se assim não iria tudo melhor no interior da família? A mulher, dissemo-lo com o Espírito Santo, é o sol de sua casa, mas é o sol quem soa em toda a parte a hora do despertar da natureza. É o primeiro a repontar no horizonte e tudo se levanta logo no universo – a planta, o animal, o homem. O sol não se faz despertar pelos seus satélites, é ele próprio que dá o sinal. Seja assim a mulher forte:

Sicut sol oriens mundo in altissimis Dei, sic mulieris bonae species in ornamentum domus ejus. (Eccles., XXVI)

(A mulher forte, pelo Monsenhor Landriot, versão da 10ª Edição francesa por Alfredo Campos, livraria Internacional, 1877)

PS: Grifos meus.
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