quinta-feira, 28 de outubro de 2010

1ª PALAVRA

1ª PALAVRA


Pater, dimitte illis, non enim sciunt quid faciunt.
"Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem".
 (Luc. XXIII,34)

Faz dezenove séculos que, no cimo de um montículo da Judéia, expirava um condenado à morte, e morte de cruz... Faz dezenove séculos que, no alto do Calvário, nas vizinhanças da cidade santa de Jerusalém, entre tormentos indiziveis, entregava sua alma a Deus Jesus de Nazaré, o Messias prometido ao povo de Israel.

Suspenso do infamante madeiro da Cruz, supliciado entre dois reconhecidos malfeitores, que a justiça mandara a morte, expirou Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus.

No decurso dos séculos posteriores a esses acontecimentos lutuosos e terríveis, a humanidade tem experimentado toda espécie de transformações e o mundo tem sofrido toda sorte de abalos. Impérios sucederam a impérios; nações tomaram lugar de outras nações; ergueram-se poderosos condutores de povos, que jogaram, nos campos de batalha, a sorte de milhões e milhões de homens.

A própria face de nosso planeta não escapou às transformações oriundas, parte da ação do tempo, parte da obra do próprio homem.

O quadro político do universo não oferece menores alterações. Várias vezes as raças se confundiram e, no rolar incessante dos séculos, pereceram algumas nacionalidades, perdeu-se a memória de alguns povos.

Dos super-homens, que a humanidade tem produzido, mui pouco conseguiram escapar à ação destruidora do tempo, supremo nivelador das grandezas terrenas.

Em meio desse quadro de renovação constante da nossa espécie, a figura de Jesus Cristo aparece revestida de uma auréola imarcescível, que os tempos apenas tornam mais fulgurante e mais bela.

Quando se perde a memória dos grandes homens de todos os povos e apenas raros conseguem transmitir o próprio nome às gerações modernas, Jesus Cristo, após dezenove séculos de Sua morte de Cruz, Se mostra em pleno fastígio de Seu poder e recebe as adorações mais fervorosas e mais sinceras de todos os povos...

Não será preciso procurar maiores provas e mais poderosos argumentos em favor da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A piedade, que consagramos aos nossos semelhantes, nos faz guardar em nossa alma, as últimas palavras pelos entes queridos, que se partem desta vida terrena... Isso é tão natural e tão espontâneo que, às vezes, até parece que o homem sente um pouco de alívio e de conforto, em transmitindo a outrem as palavras e narrando as circunstâncias da morte de alguém que era objeto de seu mais terno afeto. É a necessidade que sentimos de confiar aos nossos semelhantes os sentimentos que dominam em nosso íntimo, desabafando o que nos vai na alma.

A essa lei geral da nossa vida e da nossa natureza não podia escapar o drama sanguinolento do Gólgota, em que Jesus Cristo deu a vida a troco do resgate espiritual da humanidade.

O Evangelho, por nossa felicidade, guardou as principais circunstâncias dessa morte e registrou as derradeiras palavras do Divino Mestre. A cultura cristã, no decurso dos tempos, tem estudado e meditado, profundamente, o sentido e os ensinamentos do quanto Jesus proferiu do alto da Cruz.

As palavras de Nosso Senhor são espírito e vida e encerram preciosas lições morais e doutrinais (Joan. VI, 64) São verdades, que iluminam nossa inteligência; são normas de conduta, que nos orientam na vida prática.

Conta-nos que Manlio, quando era levado ao patíbulo, o passar próximo do Capitolio, exclamou para os romanos:

"Eis aqui o lugar de onde expulsei o exército gaulês, expondo-me ao perigo de perder a vida para defender a minha pátria: eu, sozinho, defendi a todos e agora não há um só que tome a minha defesa!"

E essas palavras despertaram a gratidão dos romanos e Manlio foi restituído à liberdade.

Assim falou um pagão.

Mui diferente foi a linguagem de Cristo. Foi a palavra de um Deus.

Insultado pela multidão; serviciado pelos soldados e executores da sentença; traído pelos Seus amigos e companheiros; renegado pelos Seus compatriotas, Jesus calava-Se e envolvia em um olhar de compaixão aqueles mesmos que O vilipendiavam na derradeira hora...

Temendo talvez que os céus não pudessem mais suportar a impunidade de um deicidio, o Redentor apressa-Se a implorar o perdão de Seus algozes e dos Seus inimigos.

"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem". Foram essas as primeiras palavras, que Jesus proferiu na Cruz, suplicando misericórdia para aqueles que O tratavam com tamanha crueldade.

Dirigiu-Se ao Pai, ao Seu Eterno Pai, cuja vontade viera cumprir, a risca, aqui na terra. Pediu perdão para os juízes, que O condenaram injustamente; para os esbirros, que O imolavam; para os blasfemos, que escarneciam de Seus tormentos... E o pensamento de Jesus ia muito mais longe...

"É que nem todos os deicidas estavam no Calvário... a Paixão de Jesus Cristo não terminou com o Seu último suspiro. Vemo-la perpetuar-se a nossos olhos, com as suas diferentes cenas de hipócritas traições, odiosas mentiras, revoltantes perfídias, ódios infernais, crueldades selvagens!..."
(Weber - De Gethsemane ao Golgotha. pág. 165)

Em breves palavras Jesus encerrou três atos e três lições:

a) Perdoa aos Seus inimigos;
b) Pede perdão para eles;
c) Desculpa  e escusa, de algum modo, o procedimento dos Seus algozes.

Na derradeira hora de Sua existência mortal, Jesus não podia deixar de ser coerente consigo mesmo e de praticar aquilo que Ele próprio havia ensinado e imposto aos Seus discípulos. Entre as novidades contidas nos ensinos do Divino Mestre existia uma que era motivo de escândalo para os espíritos fracos daquela época: o perdão dos inimigos.

Efetivamente, nada há mais contrário à natureza humana, nada há mais oposto aos nossos sentimentos do que suportar, sem protesto, uma injustiça manifesta, perdoar uma ofensa gratuita. Por causa das injustiças, que se praticam em público e em particular, entre indivíduos e entre sociedades, no recesso das famílias ou nas sentenças dos tribunais, é que se executam horríveis vinganças, se ateiam guerras exterminadoras e povos inteiros são entregues à ruína e á desolação.

"Dente por dente; olho por olho". (Ex. CXXI. V.24)

Foi essa a lei universal e a praxe usual da humanidade. Jesus Cristo foi quem primeiro Se insurgiu contra esses princípios e impôs aos Seus asseclas outro procedimento e outra lei. Ensinava ele coisas muito diferentes:

"Amai-vos uns aos outros"; "Fazei bem aos que vos fazem mal"; "Quando vos ferirem numa face oferecei a outra"; "Amai..."; "Fazei o bem"; "Orai pelos vossos perseguidores...", "para que sejais verdadeiros filhos do Vosso Pai Celeste". (Rom. C.XII, V.10; Math. C.V, V.44; Luc. C. VI, V.29; Math. C. VI. V.12 e Math. C.V.V.45)

Quem tais ensinamentos havia dado, era natural, em tempo oportuno, soubesse perdoar aos Seus inimigos e algozes. Mas Jesus foi muito além... depois de haver perdoado, pediu ao Pai que perdoasse também e, não satisfeito, ergueu a voz e tomou a palavra para defender e escusar a ingratidão humana.

Observa Santo Agostinho que jamais houve um advogado tão engenhoso para livrar um réu da morte temporal, como Jesus, na prece ao Pai, para arrancar os pecadores á morte eterna. Em duas palavras, fez sobressair, simultâneamente, a dignidade do Supliciado - o Filho de Deus -; a bondade d'Aquele a quem Se dirigia a Sua prece - Um Deus que é Pai -; o muito do Seu pedido - um pedido que Lhe sai dos lábios, ao mesmo tempo que o sangue jorra de todas as Suas veias -; a desculpa daqueles que Ele defende - a ignorância, a cegueira e a loucura.

O mundo contemporâneo abisma-se em uma série interminável de competições tremendas, de ódios inextinguiveis, de rivalidades perenes...

Os indivíduos se espreitam mutuamente, desconfiados; as famílias nutrem divergências constantes; as classes sociais se entreolham como rivais; as nações buscam o aniquilamento uma das outras... Para tanta desordem, para tantos males, que ameaçam os povos, só existe o remédio de Jesus: o perdão das ofensas e a fraternidade entre homens, segundo os preceitos evangélicos. E só.

E para mais fácil reconciliação da grande família humana, para que a paz reine entre os povos, comecem os católicos a pôr em prática o primeiro artigo do testamento de Jesus e, na hora extrema, experimentarão os efeitos salvíficos da palavra do Redentor:

"Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!"

(Espírito e Vida, as sete palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Pe. J.Cabral)

PS: Grifos meus.
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