segunda-feira, 12 de julho de 2010

III - O crescimento contínuo

A BELEZA DE MARIA


III - O crescimento contínuo

Para compreendermos bem a extensão e a intensidade deste crescimento, é preciso expor alguns princípios teológios, que formarão a base deste admirável assunto. Reduzamo-los às quatro proposições seguintes:

Primeira proposição:

A inefável Mãe, teve, desde o primeiro instante de Sua Conceição, graças tão eminentes, que a menor delas era mais elevada do que a mais admirável graça do maior santo. A última pedra da cumeada do edifício de todos os santos não é mais que a pedra fundamental do templo da divindade, que é Maria.

Segunda proposição:

Tomamo-la emprestada de S. Bernardino de Sena: "Maria só, diz ele, teve mais graças que todos os santos e todos os anjos, e estas graças ultrapassavam, em excelência como em número, as graças reunidas de todos os homens, porque Ela era a Mãe de Deus".

Terceira proposição:

Sempre e até ao último suspiro de Sua vida, Maria correspondeu inteira e perfeitamente à graça, e Ela agia tão bem em toda a extensão de Suas faculdades e com tanta fidelidade, que Ela duplicava, a cada ação, as Suas virtudes e Seus méritos.

Quarta proposição:

É uma conseqüência das precedentes. Tendo Maria, Ela só, recebido do céu mais favores que todos os santos reunidos, segue-se que Ela era mais amada por Deus do que todas as demais criaturas.

Eis quatro princípios incontestáveis, que elevam a Virgem imaculada acima de tudo o que existe no céu e sobre a terra, e que nos explicam a Sua plenitude de graças.

Experimentemos, depois disto, calcular de que modo crescia sem cessar a nossa boa Mãe, em graças e em beleza, pois esta graça é como que uma luz divina que A envolve e faz d'Ela a "Bem-aventurada, a privilegiada do Altíssimo..."

E, entretanto, esta graça, já no estado da plenitude desde a Sua Conceição, não atinge os limites de Sua perfeição; devia crescer, dia a dia, até à anunciação, o que nenhum teólogo negou nem poderia negar.

Desde a encarnação do Filho de Deus em Seu seio, pretendem alguns, com Duns Escoto, que a graça da Virgem Mãe foi consumada em sua medida, não sendo mais susceptível de uma nova plenitude. Entretanto, Suárez, apoiando-se em São Tomás e, depois dele, em todos os teólogos, é de opinião contrária.

Mostram eles que a graça habitual de Maria cresceu até a Sua morte, pelos atos de virtudes que Ela exercia, e pelos sacramentos que recebia. Ela cresceu em prodigiosa proporção, e o último grau, a que Ela chegou, ultrapassou toda medida.

Vega e mais outros teólogos importantes da Santíssima Virgem julgaram que Jesus, por Sua vida de nove meses após a Sua encarnação, e depois por seu repouso em Seus braços, agia sem cessar sobre Ela "sacramentalmente", como age sobre nós a Eucaristia.

O P. Terrien adota a mesma opinião: "O que Cristo opera nas almas dos fiéis, diz ele, dando-lhes a comer a Sua carne sob as espécies eucarísticas, deve tê-lO feito de um modo mil vezes mais eficaz, quando o corpo virginal de Sua Mãe e o Seu próprio corpo eram, num sentido incomparavelmente mais verdadeiro, um corpo único. E este corpo do Cristo permaneceu nove meses encerrado no seio de Maria perpétuamente no ato de uma amorosa ação de graças. Que comunhão e que frutos!" (Maria, Mãe de Deus, t. II, p. 244)

Assim como a chama transforma em si tudo o que nela toca, o Verbo divino, pelo contato imediato e contínuo de Sua divindade, imprimiu de tal modo Sua perfeição em Sua Mãe Santíssima, que Ele A transformou toda em santidade, em amor e caridade.

De fato, como não se tornaria um fogo de amor Aquela que em si contém o Deus que se chama: "Amor e fogo devorador"?

Escutemos São Tomás de Vilanova: "Das graças passemos agora às virtudes. Mas que podemos nós dizer a este respeito, se Deus favoreceu Maria Santíssima, tanto quanto o pode ser uma criatura?... Assim, pois como no dia da criação o Omnipotente tinha reunido no homem todas as magnificências da natureza, para fazer dele o rei do universo, Ele concentrou no coração da bem-aventurada Virgem todas as perfeições que brilham na santa Igreja e nos eleitos que estão no céu.

As virtudes que louvamos em cada um deles em particular, honramo-las todas ao mesmo tempo em Maria. Nela admiramos a paciência de , a mansidão de Moisés, a fé de Abraão, a castidade de José, o zelo de Elias. Nela brilham a pureza dos anjos, a força dos mártires, a piedade dos confessores, a ciência dos doutores, a mortificação dos anacoretas". (Sermo 3 de Nat. B. Vir.)

E ajunta ainda o mesmo santo: "Encontravam-se reunidos em Maria os sete dons do Espírito Santo, indicados pelo próprio Isaías (11,21) e os demais dons particulares concedidos para a utilidade do próximo, tais como os menciona o apóstolo das nações, na sua primeira epístola aos fiéis de Corinto" (I Cor 12,7 ss).

"Eis por que os santos padres costumam dizer que Maria é este palácio construído pela sabedoria divina, e sustentado por sete colunas, querendo deste modo significar os sete dons do Espírito Santo que, como pilares inequebráveis, serviam de apoio a esta morada inteiramente celestial." (Cfr. Prov. 9,1. S. Ildef. serm. 3 de Assumpt)

E quem dirá o número de atos de virtude que praticou Maria para pôr em prática estes tesouros da graça? Ele supera as areias do mar e as gotas de água do oceano!...

Não se passou sequer uma hora, nem um minuto, nem um segundo, quer durante o sono, quer durante o dia, sem que Ela não aumentasse os Seus méritos. Quanto aos méritos dos atos de virtude, depende sobretudo da perfeição substancial destes mesmos atos. Mais excelente é a virtude em seu objeto, mais meritório é o ato desta virtude.

Ora, foi tal a perfeição dos atos que a Virgem Mãe devia produzir, que nada se pode imaginar de mais perfeito.

Que resignação! Que força, que heroísmo precisava ter a alma de Maria para manter-se intrépida sob a aluvião de provações que sobre Ela se desencadeou, com uma persistência que só foi igualada pelo Seu amor a Jesus e o Seu desejo de Se assemelhar a Ele!

Depois que a espada Lhe atravessou a alma a primeira vez, na ocasião da predição de Simeão, até ao último suspiro de Seu divino Filho, quantas virtudes, que imenso e incessante heroísmo Ela devia praticar!

Disso falaremos, e basta-nos recordá-lo, para compreendermos a razão do crescimento contínuo que n'Ela teve a graça.

O aumento da santidade e dos méritos está ainda em relação com o fervor dos atos, com a caridade que os anima e a intenção e o desejo de agradar a Deus.

Deus, diz um piedoso autor (Petitalot), olha menos o que nós fazemos do que o amor com que o fazemos; a caridade é o mais eminente dos dons celestes, a plenitude da lei e a perfeição da virtude. Daí conclui-se que todos os atos da bem-aventurada Virgem - embora tivessem eles sido substancialmente imperfeitos e indiferentes em si mesmos - teriam sido ainda dum valor quase incalculável por causa da caridade perfeita de que procediam.

Nenhuma ação exterior da Virgem, assim como nenhum dos Seus movimentos deixou de ser meritório e interior, pois Ela agia sempre com toda a força da graça, com o hábito da caridade; cooperava inteiramente aos socorros divinos, e retribuía a Deus, o quanto possível, amor por amor.

Além desta primeira e principal causa da graça sempre crescente em Maria, que os teólogos chamam - ex opere operantis - há ainda uma outra, que produz esta graça "ex opere operato".

E a santidade produzida deste modo multiplicou-se em Maria em três modo, como nos indica Suárez:

1. Pelo remédio empregado na lei antiga, contra o pecado original, e que conferiu a Maria um novo grau de graça.

2. Por gratificações divinas em certas circunstâncias, como na natividade de Nosso Senhor, em Sua morte, em Sua ressurreição, na descida do Espírito Santo, etc.

3. Pelos sacramentos da nova Lei, que Maria podia receber, tais como o batismo, a Eucaristia, a confirmação, e talvez, até a extrema-unção.

Pelo batismo, a Virgem, embora já inteiramente imaculada, recebeu o direito aos outros sacramentos.

Pela Eucaristia, que Ela recebia todos os dias, com o privilégio de conservar em Seu coração a sagrada hóstia de uma comunhão a outra. Não tendo ainda Nosso Senhor um tabernáculo, em que se conservasse o Seu corpo sagrado, e querendo Ele permanecer perpétuamente, sem interrupção, entre nós, fez do coração de Maria o Seu primeiro tabernáculo e o Seu primeiro cibório.

Pela confirmação, que a Imaculada recebeu no dia de Pentecostes, com os apóstolos. Embora essa confirmação não fosse ainda o sacramento propriamente dito, encerrava, entretanto, toda a virtude desse sacramento.

Pela extrema-unção, enfim, embora haja quem o contradiga. Entretanto, Santo Alberto Magno, Santo Antonino e Suárez sustentam que Ela a recebeu, porque a forma deste sacramento não supõe necessariamente que haja faltas, mas apaga aquelas que há e aumenta a graça quando não há faltas.

Ó Maria, crescendo Vós sem cessar em graça e em beleza sobrenatural, possa Vossa beleza sempre crescente deslumbrar os nossos corações, cativá-los e torná-los capazes de também crescerem incessantemente em graça e em amor!...

(Por que amo Maria, pelo Pe. Júlio Maria, continua com o post: Quae est ista?...)
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