terça-feira, 1 de junho de 2010

11ª Conferência (Mons. Landriot)

Nota: A introdução (em azul) é um resumo da 10ª conferência (Mons.Landriot).

Décima Primeira Conferência
feitas às senhoras da associação de caridade
Monsenhor Landriot


Gustavit et vidit quia bona est negotíatio ejus:
non extinguetur in nocte lucerna ejus.
Manum suam misit ad fortia,
et digiti ejus apprehenderunt fusun.

Ela experimentou e viu que o seu negócio é bom;
a sua lâmpada não se apagara de noite.
Pôs a mão em coisas fortes,
e os seus dedos tomaram o fuso.

A virtude da força é cercada de dois defeitos extremos, e deve caminhar pelo meio deles: a obstinação, que leva as suas idéias além dos limites da razão e da sabedoria, e a fraqueza ou pusilanimidade, que muda de idéias continuamente, segundo as influências exteriores, ou segundo os cálculos do amor próprio e do respeito humano.

Entre eles dois defeitos vão à força, com idéias como é necessário: - secundum quod oportet. Ela reflete, consulta e examina, e uma vez tomado o seu partido, vai direta ao seu fim, sem se inquietar dos juízos humanos. Todavia ela recorda-se que o homem, não sendo infalível na terra, deve conservar sempre uma certa flexibilidade e ductilidade de inteligência e de coração, para modificar as suas idéias, receber bons conselhos e retrair-se de um erro voluntário.

Depois de ter indicado alguns meios muito próprios para impedir o erro, tanto quanto o permita a nossa enfermidade, assinalamos um defeito muito comum, e muito oposto à virtude da força – susceptibilidade.

Numa segunda conferência, consagrada à explicação do mesmo versículo, mostramos, por um rápido olhar, sobre a vida humana, e sobre a vida das mulheres, em particular, quanto é necessária a virtude da força, quanto a sua prática devia servos quotidiana, e tanto mais, quanto a fraqueza do caráter e do temperamento moral é um defeito geralmente censurado na mulher, defeito que pode transformar-se em virtude heróica, quando, sob a influência da graça, a mulher põe em jogo as molas vigorosas e tenazes, que se reconhecem na sua natureza. (Cf. 10ª conferência) 

Indicamos, finalmente, confiança em Deus e o abandono à Providência como principal meio de rebitar a força nas suas entranhas, e de fazer, na sua vida íntima uma aplicação contínua destas palavras da Escritura: - “O justo é semelhante ao leão; enche-se de confiança e nada receia: Justus quase Leo confidens, absque terrore erit.”

Vejamos a continuação do texto: - Ela experimentou e viu que o seu negócio é bom; a sua lâmpada não se apagara de noite; pôs a mão em coisas fortes, e os seus dedos tomaram o fuso.

Ela experimentou e viu que o seu negócio é bom.”

A virtude tem a suas provações e atribulações sobre a terra, mas também tem as suas alegrias e íntimas satisfações; e quando estas alegrias permanecem como servas da virtude, e não aspiram a dominar a alma, com prejuízo da senhora principal; quando tudo se relaciona com Deus e para Ele converge, como para o fim ulterior de todas as coisas, a alegria da virtude, e os legítimos contentamentos, que para a alma procuram, a vista das boas obras, e os sucessos dos trabalhos empreendidos, são uma das recompensas concedidas à alma justa, e que a mais severa moral não pode condenar.

- “A alegria é a companheira necessária da virtude – dizia São Tomás – e para se ser verdadeiramente virtuosa é preciso rejubilar-se, fazendo bem...; pois até mesmo, quando a virtude é triste não se pode suportar por muito tempo.” (Ética, 1.1)

A vista do bem dilata o coração, anima a fraqueza, e centuplica a força primaria: a alma experimenta então alguma coisa da soberana complacência que fazia estremecer o coração de Deus à vista da criação: viditque Deus cuncta quae fecerat, et erant valde bona. (Gen. 1-31)

Sim, eu gosto de ver a mulher forte, depois de dias, de semanas, de albores e fadigas, rejubilar-se com o resultado concebido ao seu trabalho, saborear a alegria do dever cumprido, contemplar com felicidade a ordem do seu interior, a regularidade do trem da sua casa, a harmonia e a calma a presidirem ao desenvolvimento pacífico de cada coisa, ao desabrochar de cada natureza.

Ela não somente contempla este espetáculo, mas goza-o, saboreia-o, é feliz com ele: é o que quer dizer o texto: - gustavit et vidit.

Quando o bem nos alegra o coração diz Santo Agostinho isso é um grande dom de Deus: - quando delectat bonum, magnum est Dei donum. (In Os.118, serm.17.)

Também um sábio doutor conclui que é necessário fazer com alegria e expansão, tudo quanto fazemos, e que é este o verdadeiro modo de praticar o bem, e de bem o praticar. (Idem, 81.)

A vaidade, e, algumas vezes, a tolice, podem, sem dúvida, abusar destes princípios e tornar perfeitamente ridículo o que em si é admiravelmente sábio, e conforme as máximas da verdadeira piedade. Encontram-se caracteres, por tal forma vaidosos, que tomam as chimeras do seu espírito como realidades, crendo-se numa maravilhosa posição, quando estão a ponto de naufragarem, semelhantes aos desgraçados, aos quais se fazia sofrer, sem que o pensassem, uma deplorável ilusão, e que tomavam por magníficas e verdadeiras construções os castelos de cartas que se lhes deixavam como sua futura herança.

Sim, o homem tem o triste talento de se enganar a si próprio, ou de consentir que outros lhe imponham, com espantosa facilidade, os erros mais grosseiros, com tanto que eles lhe lisonjeiem o amor próprio. Estes, cujos negócios vão pessimamente, imaginam que estão num estado de prosperidade, que excita a inveja geral: o caráter móvel glorifica-se duma firmeza a toda a prova: o ouriço – animal – julga-se um ser encantador, e a lebre gaba-se do seu valor belicoso.

A lista das ilusões deste mundo seria demasiado longa para caber aqui: cada um vê os erros e as chimeras dos outros, e nem sempre suspeita as suas.

Seja como for, relativamente às misérias incontestáveis da nossa pobre natureza, não é menos verdade que seja permitido o júbilo pelo verdadeiro bem, e a glória em Deus com a modéstia do cristão: qui gloriatur, in Domino glorietur. (II Cor. X, 17).

Por outro lado seria necessário dizer que sendo o nosso olhar sujeito a ilusões de ótica, não devemos nunca parar com a alegria e ventura diante de magníficos quadros, nem perante as belas cenas da natureza. Ninguém, seguramente quereria admitir iguais conseqüências: os erros e o abuso não provam nunca contra o legítimo uso.

Não terminarei a explicação das palavras da Bíblia: “Ela experimentou e viu que o seu negócio é bom”, sem vos dar um parecer muito útil para a vossa tranqüilidade e ventura. Não vos glorifiqueis ordinariamente perante o público, das melhores coisas e mais incontestavelmente verdadeiras: podê-lo-eis fazer impunemente e com utilidade no paraíso terrestre, onde o bem de cada criatura era para as outras um assunto de alegria e um meio de chegar a Deus. Mas no mundo atual, em que a inveja, a maldade, e a perfídia são, em muitas pessoas, as principais qualidades da sua natureza, qualidades postas à disposição dum espírito acanhado e malévolo, aconselho-vos a mais severa prudência e a mais elevada discrição.

Ocultai, tanto quanto poderdes, o bem de vossa casa: há almas, para as quais, a vista do bem e da ventura dos outros é uma causa de ódio e de negras acusações. Escondei os vossos sucessos, ou, pelo menos, fazei-os perdoar, por uma grande modéstia; sede, tanto quanto depender de vós, como o regatosinho que deriva sob a folhagem. Receai as naturezas orgulhosas, para as quais a elevação dos outros é um ataque direto à sua personalidade e à sua sede de engrandecimento. Vivei sob o vosso teto, derramai a alma num pequeno círculo de pessoas amigas, mas tende ainda o cuidado de as escolherdes.

Bem longe está do meu pensamento o aconselhar-vos a misantropia, ou a reserva exagerada, que seria um obstáculo à prática das obras de caridade; recomendo somente a justa ponderação das coisas, o sábio temperamento pelo qual, fazendo todo o bem, tomareis as vossas precauções contra a malícia dos homens, e as pequenas serpentes de vaidade e de ciúmes que se podem encontrar na esquina de cada rua.

O Sábio ajunta que “a lâmpada da mulher forte não se extinguirá de noite.”

Seguindo o sentido literal, seríamos naturalmente conduzidos a falar ainda da atividade da mulher que dorme pouco, que madruga, e se torna assim, o primeiro despertador de sua casa. Este assunto é muito delicado para torná-lo a tomar, e tanto mais, quanto creio que já disse o bastante (Cf. também a 5ª conferência)para converter todas as almas de boa vontade, que não assinaram para sempre o pacto de vida com o travesseiro matinal. Demos, pois, um outro sentido às palavras da Escritura, um sentido que os doutores chamam anagógico, isto é, que vai de baixo para cima, e que sabe dum elemento material para chegarmos a uma conclusão mais elevada.

Ditosa a mulher, cuja lâmpada se não extingue de noite!

Ditosa a mulher que conserva ainda algumas nobres idéias, no meio da invasão de coisas materiais, e cujo coração permanece elevado sobre as plagas monótonas e baixas da vida!

Ditosa a mulher, cuja fé cristã é uma lâmpada que brilha constantemente, na noite deste mundo, nas trevas das paixões e da incredulidade! Non extinguetur in nocte lucerna ejus.

Guardai, senhoras, uma lâmpada em vosso coração, e que ela esteja sempre acessa! Que se conserve nos retiros mais profundos da alma, ao abrigo dos ventos que sopram de todas as partes do horizonte!

Essa luz é a estrela da viagem! É o facho do peregrino, que, de noite, vagueia pela floresta!

Há mulheres que conservam no seu espírito uma luz viva, ardente e calma: é a luz das grandes coisas, dos nobres projetos, das idéias santas. Há outras, ao contrário, que desde muito apagaram a sua lâmpada, e não vos nomearei os lugares onde está sepultada a divina claridade de sua alma.

Há mulheres que têm sempre alguma coisa de fresco no sentimento, de elevado no caráter e na conversação: não são sábias, mas sente-se, depois de alguns minutos de entretenimento com elas, que o seu espírito e o seu coração têm uma morada escolhida nas alturas do mundo intelectual e moral; sente-se que a fé e a piedade cristã regaram a haste que sustenta as flores da sua vida, e que elas lhes deram um porto, ao mesmo tempo, nobre e elevado.


Entre estas duas categorias de mulheres, a minha escolha está feita: e eu desejo que pertençais todas à primeira, que todas levanteis alto a luz da vossa vida, das vossas idéias, dos vossos sentimentos, sem nunca os sepultardes na lama, na malvadez ou no ridículo...
Há-as, ao contrário... que se enterram em todos os ruídos da cidade, em todas as crônicas malévolas, e no cortejo das coisas mesquinhas, pequenas, odiosas, que não só abaixa o nível das almas, mas que também as alimenta com o fel e o azedume.

A mulher forte pôs a mão em coisas fortes, e os seus dedos tomaram o fuso.”

Pôr a mão em coisas fortes não é o exercício da vida inteira? A vida do homem não é um sono sobre um leito de rosas: é um caminho escabroso, em que é necessário pôe continuamente a mãe em coisas fortes e difíceis: Manum suam misit ad fortia.

Consultemos primeiro a história do vosso próprio coração: tendes necessidade de pôr de contínuo a mão nos reparos das brechas do vosso íntimo; tendes necessidade de pôr a mão, e pô-la vigorosamente, para deterdes a tendência do vosso coração, a impetuosidade da natureza e a violência do caráter; para reprimirdes a malevolência, o projeto de vingança, o azedume que se trai em toda a parte, nas vossas ações, nas vossas palavras e até no próprio silêncio.

Vossa alma é um navio agitado por mil vagas ao mesmo tempo, e quando nada o abala exteriormente, levanta-se no interior dele uma legião de ventos tempestuosos, que o ameaçam com uma violenta explosão. Ponde a mão aí, ora à direita, ora à esquerda: - manum suam misit. Esta intervenção contínua será muito necessária para o sustentar em equilíbrio, e embora fosseis como o gigante Briareu, ao qual a fábula dá cem braços, ainda assim teríeis muito que fazer: - Manum suam misit ad fortia.

Vede esta circunstância penosa em que se pode achar vossa família, este escolho aonde podem ir quebrar-se a sua honra e a sua prosperidade: não vos deixeis adormecer; sede prudentes e sábias, mas atuai com prontidão e energia; um só golpe vigoroso, vibrado a tempo, pode salvar tudo: - Manum suam misit ad fortia.

Vossa casa, com um luxo relativamente suntuoso e magníficas aparências, declina visivelmente no interior, e vós não o apercebeis. Sede presentes, armai-vos de coragem: é essa a ocasião em que é necessário pordes verdadeiramente a mão em coisas fortes, e tanto mais, quanto mais se passará tudo na obscuridade de um silêncio pouco favorável ao amor-próprio, mas muito favorável ao desabrochamento das sólidas e verdadeiras virtudes.

Remontai vossa casa desde os fundamentos; lutai contra uma corrente que vos parece dura, lançai a regularidade aonde reina a desordem, contende as ambições de cada um, e assim reconstruireis as bases dela: Manum suam misit ad fortia.

Se por acaso ela desabasse, e por maior desgraça, sobre vós e sobre os vossos, recordai, mais que nunca, a letra da Bíblia: ponde, não somente a mão, mas a cabeça e o coração em coisas fortes e difíceis. Suportai os choques; resisti aos golpes da desventura; sustentai em volta de vós, todas as fraquezas, todos os desfalecimentos; tornai-vos em mastro de navio que sustenta tudo – as vergas, as velas e os marinheiros que sobem : Manum suam misit ad fortia.

Que direi ainda?

Haverá um dia na vida em que a mulher não tenha de pôr a mão n’alguma coisa?
O navio da família e dos negócios não está exposto a avarias quotidianas?
Não é necessário, a cada momento, calafetar a chalupa desconjuntada?

E quando tudo parece felizmente acabado, ainda resta suportar a monotonia dos mesmos atos, e o céu de chumbo que pesa sobre nós, sem que se saibam os motivos, e o balanceamento da existência, que acaba por fazer enjoar o coração.

Ó mulher cristã, ponde continuamente a mão em coisas fortes! Tende sempre embraçado o escudo da paciência, da humildade e da resignação!

A vida é assim e vós não a mudareis!

A experiência é o apanágio inalienável da existência humana, e vós não lhe escapareis, antes irá procurar-vos ao vosso leito, como a maré que sobe, e será bem preciso levantardes-vos para compreenderdes, enfim, a necessidade da luta e da aplicação constante de um mão vigorosa nas coisas da vida: manum suam misit ad fortia.

Os seus dedos tomaram o fuso: ad digiti ejus apprehenderunt fusum.

Seguindo à letra, estaríamos exposto a repetir, ao menos em parte, o que dissemos na nossa conferência relativamente ao trabalho manual (Cf. essa conferência aqui - Muito recomendável); vejamos, porém, se estas palavras são susceptíveis de outro sentido...

Somos nós que preparamos um pouco os nossos destinos. Há, sem dúvida, experiências e desgraças que nos esperarão... apesar da nossa sabedoria, da nossa bondade, do nosso desejo do bem, não escaparemos as contradições, aos ódios, ao espírito de partido, as mentiras e as surdas perseguições.

Sobre isso tomemos o nosso partido como bravos: Nosso Senhor e os santos passaram por esta via, saibamos entrar nela com coragem, e, senão com alegria, ao menos com resignação.


Não haveria indiscrição em vos fazer notar que há mau fiado no vosso fuso? Dizei-me; qual é a causa desta amarga decepção?
Mas que será se, as experiências inevitáveis da vida, ajuntais as experiências, as desgraças ocasionadas pelos vossos vícios, pelas vossas imprudências, e pela falta de sabedoria e guiamento?

A causa sois vós.

Pusesteis no caminho deste negócio o desnorteamento, a má fé, talvez; escutasteis demasiadamente, o amor próprio, a vaidade, os motivos puramente humanos; querieis um futuro brilhante e procuráveis as esperanças mundanas e a glória mentirosa deste século.

Eis a lã que fiasteis: admirais-vos do que se encontra no fuso?

... Ó vós que acusais a sorte! Parece-me que a lã que fiasteis desde a mocidade era negra e de má qualidade. Podereis matar-vos, mas o tecido da vossa vida não será nunca conforme aos vossos desejos.

Engano-me, todavia: - com Deus é sempre tempo de retroceder, de repor lã excelente na trama da existência, e de obter em volta do fuso produtos perfeitos; mas é necessário possuir a coragem de talhar, de cortar toda a lã negra, e de fiar, em seguida, o tecido da existência com lã branca, com a lã do Cordeiro Imaculado, isto é, com a virtude, a sabedoria, a justiça, e a santidade, pois tal é a que cobre o Cristo: Lanam Agni immaculati.

Digamos ainda que a roca, a mão e o fuso representam a vida humana. – A lã é a imagem de tudo quanto forma o tecido da nossa vida. Vede como ele se vai em farrapos: é apanhado pela rápida mão do tempo, para o qual é forçoso que tudo se divida. Tudo gira em volta de nós, tudo se vai, tudo é arrebatado por um movimento que nada detém: fica apenas o fiado enroscado ao fuso, isto é, as nossas boas obras, as nossas virtudes, os nossos bons pensamentos e as nossas santas ações.

Possa a vossa vida, senhoras, ser fiada com lã do Cordeiro Imaculado!

Quando entrardes no céu, ao anjos beijarão vossas mãos com respeito, e exclamarão: - Ditosas mãos, que sustentasteis o fuso com santa habilidade, e que soubesteis fabricar antecipadamente um manto de glória para a eternidade: Et digiti jus aprrehenderunt fusum.

(11ª Conferencia, por Monsenhor Landriot, retirada do livro: A mulher forte, edição 1877)

PS: Grifos meus.