quinta-feira, 27 de maio de 2010

10ª Conferência (Mons. Landriot): A mulher e a verdadeira força - II Parte

Nota: A parte em azul (introdução do texto) é um resumo da 9ª Conferência do Monsenhor Landriot, que terá sua continuidade nessa que transcrevo a seguir, ele trata da mulher e a verdadeira força.
Leitura muito frutuosa por sinal.

Décima conferência
(Monsenhor Landriot, Arcebispo de Reims,
feitas às senhoras da associação de caridade, 1877)


Accinxit fortitudine lumbos suos,
et roboravit brachium suum.(Prov. XXXI)

Pôs a força como um cinto em volta de seus rins,
e fortaleceu seu braço.

Senhoras.

A força, já o dissemos, é uma energia da alma, que nos faz suportar com serenidade os enfados e os males da vida, que nos dá a coragem de prosseguirmos nos nossos intentos com inabalável firmeza, e nos conserva um vigor de ação, que os obstáculos humanos não podem deter.

Cada uma das nossas qualidades tem dois defeitos vizinhos que caminham de cada lado, um à direita, outro à esquerda, este pecando por excesso, aquele por privação. Esta máxima aplica-se perfeitamente à força e à firmeza de caráter: a obstinação excede os limites da verdadeira força, porque leva as suas idéias além do verdadeiro e do conveniente tornando-se, por isso mesmo, uma fraqueza perigosa como a locomotiva que descarrila.

A fraqueza, propriamente dita, é, pelo contrário, o defeito de um ser sem consistência que toma as formas que se quer, e que se colore sucessivamente com todas as cambiantes de idéias.
Muitas vezes, este último defeito é apenas o cálculo político das naturezas de camaleão, que variam de cor, segundo a posição e os reflexos do sol; pois, verdadeiros atores, têm sempre meia dúzia de opiniões no seu camarim, vestindo-se do mesmo modo que o histrião muda de trajes.

Entre a obstinação e a fraqueza, caminha a verdadeira firmeza, que se prende às suas idéias, aos seus projetos, tanto quanto é necessário: secundum quod oportet – diz São Tomás – expressão cheia de senso e de amplitude, que não fixa as coisas de um modo absoluto, e que abandona as soluções às circunstâncias reguladas pela sabedoria prática.

Antes de terminar estas diferentes explicações, devo assinalar-vos outro defeito, que se opõe à força e lhe paralisa a ação – a susceptibilidade. Quando se tem febre, a pele torna-se, de tal modo, susceptível, que até é necessário garantir os doentes contra a menor ação do ar: dir-se-ia que, nas naturezas susceptíveis, a pele da alma é trabalhada por uma febre moral, que a mais leve aragem duplica. Quase que se torna necessário encerrar tais temperamentos numa caixa de algodão, e, ainda assim, creio que, à força de se agitarem, acabariam por tornarem irritada a pele.

Continuemos senhoras, este importante assunto e terminemos hoje o comentário ao versículo:
- Ela pôs a força como um cinto em volta de seus rins, e fortaleceu seu braço.”

O animal marítimo tem o seu invólucro, o soldado o escudo, o navio o forro de cobre. A alma deve ser também o seu escudo e o seu cinto; o escudo, que é a firmeza, o cinto, que é a força: Accinxit fortitudine lumbos suos, et roboravit brachium suum.

A força é necessária, tem um uso quotidiano, nem sempre para atuar, mas, sobretudo para suportar, para resistir á ação dos choques exteriores, e das desventuras íntimas. A ponte de granito suspensa sobre um vasto rio, não atua; é imóvel, mas é forte porque suporta tudo, porque resiste á rápida corrente, à ação do ar, ao peso das viaturas e dos transeuntes, e porque se agüenta a si própria: todos estes fardos reunidos formam uma carga enorme, de que só os engenheiros apreciam a gravidade.

Vede ainda a trave: só ela, se fosse sensível, poderia avaliar o peso que tem em cima, só ela poderia queixar-se dele, porque só ela conhece o seu trabalho de resistência. Também para o homem a principal ação da força consiste em sofrer os acontecimentos da vida, e em se suportar a si próprio. Esta ação primária e principal da força é a que exige mais constância e energia: está latente, ninguém a descobre, ninguém a suspeita, mas, muitas vezes, o coração do homem é semelhante a uma trave, prestes a ceder, mesmo quando todos o crêem feliz e isento de tribulações, precisamente porque tudo está misteriosamente oculto e invisível no desenvolvimento da força interior.

Quantas almas não têm feito assim uma quotidiana despesa de coragem! Quantos corações não têm suado continuamente o sangue da sua vida mais íntima, sem que nada tenha transparecido no exterior!

Felizmente o que mais atrai o olhar do Céu, o que os anjos têm como melhor, aquilo que o Senhor mais leva em conta, é a vida íntima que desliza em segredo, longe dos olhos do homem, e que o olhar do mundo não profanou pelas influências da sua vaidade corruptora; é o que cabe, gota a gota, do coração, para ir diretamente ao coração de Deus: - Pater tuus qui videt in abscondito, redd et tibi (Mat., VI, 4).

Sim, há lá em cima um Pai, cujo coração é onipotente de amor, que vê tudo, e tudo sabe; e quando a alma está ligada a esta idéia fundamental, torna-se forte, porque pode dizer com um santo anacoreta: - “Eu saberei, se for preciso, ficar só neste mundo com Deus: Nisi homo dixerit in corde suo: Ego solus et Deus simus in mundo, requiem non habebit. (Apopht. Patr. – Patrol. Graec.)

Quando a força se exerce exteriormente, quando atua, quando fere como o guerreiro, ou vai lutar contra os obstáculos, como o fragata blindada de ferro, ela exige muito menos vigor moral: pois a natureza humana é tal, que a ação excita a coragem, e o movimento de impulso tem a propriedade de desenvolver o vigor; é possível também que mil considerações de amor próprio não sejam estranhas á vivacidade da ação.

A força física, em diferentes graus, é necessária em todos os movimentos do corpo, é necessária a todas as horas do dia. Do mesmo modo, a força moral, é de um uso quotidiano e contínuo. O homem tem necessidade dela para lançar contra as dificuldades da vida, contra os perigos do mundo, os revezes da fortuna, as dores da família, as atribulações íntimas, e contra essas mil formas de sofrimento, de ansiedade e de agonia, que rodeiam o homem desde o berço, e que se ordenam em falange, em volta dele, como os insetos alados que se encontram nos lugares úmidos.

Mas pondo de parte este posto de vista geral, que apenas indico, devo demorar-me especialmente no uso da força na vida das mulheres.

Distinguimos duas espécies de forças: a força que atua e a que suporta: é desta última, sobretudo, que tendes mais necessidade. Falei ainda há pouco de uma ponte, aonde passa todo o mundo, que tudo suporta, a ação do ar, os ímpetos da corrente, o peso de quanto se apóia nela, sem contar a própria carga de granito de que é construída.

Não está nisto uma imagem da vida das mulheres?
A mulher não é uma espécie de ponte na família?

Todos pesam um pouco sobre ela, o marido, os filhos, os criados, não contando os vizinhos importunos: uma grande parte dos cuidados domésticos rola sobre ela, carregando-lhes continuamente os ombros.

Assim, senhoras, quando a lua de mel tiver passado, tereis um marido, cujo humor, caráter, e tendências se vos tornarão antipáticas; e, ainda mesmo que ele menos o pense, ferir-vos-á os nervos, agastar-vos-á por palavras, e só a sua presença excitará, às vezes, a fibra da sensibilidade malévola.

É provável que lhes presteis o mesmo serviço e que o fluído das antipatias se comunique do vosso coração ao dele, pois ordinariamente tais impressões são recíprocas. Longe estou de pretender que este estado seja permanente, e que prejudique, sobretudo, a afeição essencial da família; mas repete-se demasiadas vezes para fatigar, ou, pelo menos, contristar o coração.

Tereis, pois, necessidade de força, não somente para vos não deixardes levar à febre da irritação, não somente para suportardes, senão também para deixardes triturar o vosso amor próprio, para deixardes quebrar, como a oliveira, todas as vossas antipatias, mudando-vos em óleo, e executando em toda a parte os processos benévolos, as operações untuosas da vossa caridade.
Este uso da força que acaba por transformá-la em óleo é o mais seguro dos meios de adoçardes os choques, de temperardes o coração do vosso marido, no momento talvez em que ele ia endurecer-se, e de desenvolverdes entre os dois uma afeição, que começava a gelar-se.

Os filhos experimentarão a vossa paciência: tereis de tratar com naturezas excelentes no fundo, mas de difícil humor, de caracteres ásperos; bons corações, mas más cabeças, cujo ruído bastará para vos fastigar. Tomai em cada manhã e em cada tarde cinco pílulas da força que resiste: sede serenas, mas firmes; doces e vigilantes, pois atuais na tranqüilidade da vossa força.

Os criados completarão o quadro: queixais-vos da sua indocilidade, do seu humor, do seu espírito de independência, e que sei eu? Da sua incapacidade, da sua falta de virtude e do seu caráter intolerável. Estou longe de vos empenhar em que os conserveis sempre, quando os seus defeitos atinjam um certo grau impossível de suportar-se. Não proíbo as representações, as caridosas advertências, nem as correções mais ou menos severas.

Mas, antes de tudo, insisto na força que sofre, na firmeza que espera, pois este meio é, muitas vezes, o melhor e o mais enérgico para chegardes ao fim desejado.

Não são só vossos maridos, vossos filhos e vossos criados os que porão em prova a vossa paciência, serão ainda as vossas amigas, os vossos conhecimentos. Contais com tal pessoa: é uma cana que se vos despedaça na mão, não logo na primeira, mas na segunda vez que vos encostardes a ela.

Onde estão, pois, os amigos deste mundo?

Pretende-se que as mulheres dificilmente encontram uma amiga segura e sólida no coração de outra mulher. Aos naturalistas explicam estas dificuldades por mil considerações sobre as antipatias naturais, sobre as questões secretas da vaidade, em que é raro que duas brilhem igualmente com o mesmo esplendor, sobre o não sei que de frágil que existe na flor e nas construções de vidro.

- “É necessária uma prodigiosa amizade entre duas mulheres – disse Madame Swetchine – para tirar a que é inferior a toda a fraqueza da inveja.”

Admitamos que possais encontrar verdadeiras amigas: mas ajuntemos, para permanecermos na verdade, que são raras. Contais com certo coração como com o vosso: um dia chegar-vos ao ouvido um vago zum-zum, vem em seguida às suspeitas, e, por fim a certeza. Essa pessoa traiu-vos mil vezes dum modo mais ou menos grave, foi infiel no que há de mais sagrado na amizade. Essa nova subida é como a onda violenta contra o navio da vossa alma! Que abalo no coração!

Outras vezes são os vossos parentes; quantas dificuldades nas famílias! Quantas misérias! Quantas antipatias secretas! Cada um produz o seu contingente, e, algumas vezes, os que gritam mais alto não são os menos espinhosos.

Mais longe encontrareis os vossos inimigos, porque, quem é que os não têm na terra? Vós tê-lo-eis, talvez, porque os vossos defeitos vo-los terão atraído, mas esta razão não é a única. Tendes uma inimiga em determinada pessoa, porque lhe prestastes um serviço, e, para certas naturezas, não há crime maior do que o de as condenarem à condição inferior em que as põe o reconhecimento.

Tal pessoa tem-vos inveja: é talvez, porque tendes uma qualidade boa, ou porque brilhais muito para ela.

- Porque me atacas? – perguntava uma vez o pirilampo a um vil animal, tão feio quão venenoso.
- Porque brilhas – respondeu ele.

Esta resposta é a explicação dum grande número de ódios, de vinganças e de irritações. Há tantas baixezas no coração humano, ao lado de tantos instintos de grandeza! Tantas invejas, a par de tanto amor pelo bem e pelas coisas elevadas!

Talvez até que vós tenhais feito demasiadas vezes um vão pacote das vossas qualidades, pois ou as tendes exagerado, ou pelo menos tendes fatigado o público, tende o aspecto de as apresentardes diante deles: e o que mais rapidamente fatiga os homens é a exposição das boas qualidades do próximo.

Perdoar-se-nos-á muito facilmente uma longa exibição dos nossos defeitos e ridículos, porque esta cena coloca o espectador numa posição de superioridade para conosco; mas o mais difícil de se fazer perdoar são as qualidades reais, por muito pouco, ainda assim, que obscureçam a glória dos outros.

Poderia continuar esta descrição e seguir convosco todas as correntes da vida; mostrar-vos em toda a parte as vagas que trabalham na demolição do vosso barco, no seu desconjuntamento, na sua submersão. O vosso navio tem necessidade de ser perfeitamente construído; as peças, formadas de madeira vigorosa, devem estar solidamente ligadas, e, no caso de o destinardes a afrontar certos mares, deveis ainda mandá-los forrar de cobre.

Não chegamos, todavia, ainda, ao vosso inimigo mais implacável, que sois vós próprias. Sim, levar-se a si própria, em certas horas, resistir aos choques da imaginação, aos abalos do coração, suportar a inércia, o torpor do seu caráter, sustentar sua alma em certos dias, em que se pergunta se se vive, em certas semanas, em que mais se sente a prisão do corpo, a dureza do exílio, o peso das cadeias, em que nos torturam mil sonhos chimericos, em que parece que lâminas finíssimas d’agonia nos separam as carnes, o sangue, a alma e o espírito, tal é a hora do combate verdadeiro, o momento em que é necessário o desenvolvimento duma séria coragem.

Suportar-se-iam ainda o marido, os filhos, os criados e os inimigos! Mas este desgraçado eu, muitas vezes tão estranho, tão bizarro, tão inconstante, eis o maior peso, e tanto maior, quanto nem um único instante nos deixa!

Pode-se escapar ao marido, aos filhos, aos amigos e parentes, mas este triste eu é uma esfera pesadíssima que a natureza nos prendeu ao pé, no dia do nosso nascimento, não havendo forças humanas, bastante fortes, que possam romper-lhe a cadeia.

Chego agora a um delicado assunto, de que já levantei aos vossos olhos uma ponta do véu que o cobre, de que já esbocei alguns traços na nossa primeira conferência: - “Como é uma coisa fraca o coração da mulher!” – disse o trágico inglês. (Shakespeare, Julio Cesar, ato I, cena 4ª)

Prestai atenção até ao fim antes de julgardes o que tenho a dizer-vos.

O corpo humano precisa de carnes e ossos; as carnes são naturalmente, e devem sê-lo, mais moles que os ossos. Do mesmo modo, nos planos do Criador, e no magnífico ideal da união do homem e da mulher, eram necessários dois caracteres diferentes, um mais sólido, outro mais frágil: o pecado transtornou esta ordem primitiva, não lhe abalou os fundamentos.

A missão da mulher exige alguma coisa mais doce na alma e nas formas, mais elástico, mais semelhante ao galhardete que se reprega e se torna, assim, mais facilmente o ornamento da árvore na qual está suspenso: a existência somente de partes sólidas neste mundo, produziria o mais solene enfado da imobilidade geométrica.

Depois, a fraqueza do coração; quando é contida nos limites da virtude e da sabedoria, é a mais doce imagem da bondade de Deus. A família seria incompleta, mesmo sob o ponto de vista moral e sob a relação de influências, que devem exercer-se, se não houvesse em casa mais que o caráter viril do marido.

Bem vedes, pois, senhoras, que não sou um severo acusador.

Mas a natureza mais frágil e mais elástica da mulher, pode degenerar, e muitas vezes degenera, sobretudo, na nossa época, em verdadeira fraqueza, em fraqueza mais ou menos culpada, mais ou menos nociva nos resultados. Depende isto da maneira mole e muito fácil com que se educam as meninas, da ausência de verdadeiros e sólidos princípios religiosos? Será necessário acusar a febre de idéias, a agitação dos homens e das coisas, que fazem da sociedade uma vaga sempre em movimento?

É certo que os caracteres estão enfraquecidos, e que, naturalmente, esta fraqueza, esta falta de energia, se fazem sentir, sobretudo, nas mulheres. Será necessário atribuir ainda este triste resultado as leituras enervadoras que amolecem, mais e mais, as almas, aos sonhos chimericos, que são os maiores dissolventes da força moral?

Nós cremos que a reunião de todos estes elementos diversos contribui para a produção do mesmo efeito: e, agora, sobretudo, pode-se, salvo raras e honrosas exceções, repetir com o trágico inglês: - “Como é uma coisa frágil o coração da mulher!”

Esta fraqueza é causa dum outro defeito, que se censura em várias mulheres – a teimosia. – “Eu conheci centos e centos de mulheres – diz Montaigne – às quais mais facilmente faríeis morder um ferro em brasa, do que fazer mudar duma opinião concebida em momento de cólera.”

É provável que a opinião de Montaigne se possa aplicar a todos os países, e que em toda a parte haja, para as mulheres, o perigo de caírem na teimosia. Tanto que uma idéia se lhes apodera da cabeça, deixa-lhe traços indeléveis, e, muitas vezes, não cede lugar a outra, por muito boa, por muito perfeita que ela seja: enroscam-se, e mais fácil vos era quebrá-la do que torcê-las uma linha.

Desconfiai da pertinácia, e por este sinal a conhecereis: - quando sentirdes elevar-se a temperatura da cabeça, aninhar-se o vosso caráter, pularem as vossas faculdades à menor contradição, dizei logo a vós próprias: - Cuidado! Eis os sintomas da febre da obstinação, já lhe sinto as tremuras.

Ajoelhai imediatamente aos pés da cruz e dizei a Deus: - Senhor, defendei-me de mim própria, contra as minhas fraquezas, contra as minhas obstinações; retemperai minh’alma na Vossa graça, afim de que ela se não obstine nunca e conserve sempre a flexibilidade da inteligência e da caridade.

A mulher é fraca por natureza, por compleição; por temperamento, em conseqüência de sua educação: femineum genus plerumque sane est et anima et corpore prorsus imbecillum. (Cyril. Alex. Hom. Pasch. 28).

E, todavia, quando a alma da mulher é excitada por uma generosa dedicação, quando, sobretudo, o amor de Cristo está no seu coração, ela é capaz de quanto há de mais elevado no pensamento, de mais nobre no coração, de mais heróico na coragem, de mais perseverante na luta.

Há mulheres, diz São Crisóstomo, que, não somente tem sido mais corajosas do que os homens, senão que também chegam à impassibilidade dos anjos. Há-as que, semelhantes ao rochedo imóvel são só não têm sido arrastada pela onda, mas que até hão quebrado em volta de si o mar espumante: tinham a solidez do ferro e a límpida dureza do diamante: Ut ferrum, ut adamas.” (De studo praesent. Hom.5)

Sim, senhoras, se a natureza vos não deu no mesmo grau que ao homem, a força moral ativa, a graça pode operar em vós uma obra de transfiguração e comunicar-vos, sobretudo, a força de paciência, a força de inércia inteligente, a força do rochedo à beira-mar, o qual vê as ondas levantadas contra ele permanecendo imóvel, o que faz com que, em breve, as dispersem frementes, e se desfaça, em espuma.

É especialmente esta força de longanimidade que eu vos recomendo: raramente tendes ocasião de exercer a força ativa, e se esta ocasião se apresentar, sabereis, como a mulher forte, fortalecer o vosso braço, e dirigi-lo sabiamente e com energia para a ação; mas mais habitualmente sedes fortes pela vossa impassibilidade, pela abnegação e pelo sacrifício. Tomai ao pé da cruz, nas vossas comunhões, nas vossas meditações, a elástica tenacidade para o bem, que vos converterá em heroínas, no lar doméstico.

Os homens não contarão os diamantes do vosso suor, nem as vossas lágrimas de sangue sobre a pedra duma vida oculta; mas contá-las-á Deus, e os anjos as guardarão. Cada lágrima invisível que cair assim do vosso coração, transformar-se-á numa pérola preciosa. E que felicidade não será a vossa, quando um dia encontrardes no Céu um número incalculável delas, que formarão sobre a vossa cabeça mil diademas de glória e de alegria! Tais diademas serão tanto mais belos e mais gloriosos, quanto mais fraca tiver sido a natureza da mulher vitoriosa: Ibi est corona gloriosa, ubi sexus infirmior. (S. Aug. Serm. nº 281)

Que meios tereis, senhoras, de adquirirdes este espírito de força? Eu não conheço nenhum melhor do que a confiança em Deus, e o recurso a Deus, nas circunstâncias em que sentirdes desfalecida a vossa coragem.

O Senhor é o fundamento da minha vida – diz o Profeta – é o meu refúgio e o meu libertador: Dominus petra mea et robur meum.” (II. Reg. XXXII,2.)

Apoiar-vos em Deus, como vos apoiais no braço, e, sobretudo no coração de uma pessoa dedicada, e nunca vos faltará à verdadeira força. Poderá haver desfalecimento na parte inferior do ser, fadiga na imaginação, perturbação nos sentidos; mas a parte elevada da alma conservará sempre a sua serenidade, e isso é a principal virtude: o resto é um acessório, que, não só não tira nada ao verdadeiro mérito, senão que o aumenta e o torna mais agradável a Deus.

Quando sentirdes as águas da tribulação prestes a submergir-vos, o enfado a ponto de cair sobre vós como um inimigo encarniçado, ide descansar alguns instantes aos pés da cruz. Dizei a Deus: - Sim, tudo aceito, quero tudo quanto quereis, a tudo me resigno, com tanto que não cesse de Vos amar, nem deixe de permanecer unida a Vós!

Levantar-vos-eis sempre com um sentimento de coragem e uma potência de ação, como não podeis supor.

A segurança do justo – diz São Gregório, o Grande – é justamente comparada à do leão, porque quando sente os ataques dirigidos contra ele, interna-se na inexpugnável fortaleza da sua alma: sabe que será o senhor de todos os seus inimigos, porque ama unicamente aquele, que ninguém pode subtrair-lhe.” (Moral, 1.31, c. 28.)

Sede, pois, como o leão, senhoras, tende a sua segurança. Ele tem confiança e não teme: tal é a natureza que Deus lhe deu, e é este caráter de seguridade e de força que Deus imprime aos seus verdadeiros amigos: Justus quasi leo confidens, absque terrore erit. (Prov. XXVIII).




A alma forte pode ainda comparar-se a uma ilha, pobre, nas costas, mas rica, verdejante e imóvel no interior. Sede, senhoras, como a ilha afortunada: no meio das águas amargas que vos rodeiam – e cada uma tem uma boa provisão -; no meio das ondas que solevantam a barquinha da vossa existência, retirai-vos para o interior da vossa ilha, isto é, para a parte mais secreta do vosso coração.

Tornai-vos num santuário oculto de que fechareis a porta, e não ouvireis o estampido das tempestades. Repetireis com toda a segurança o cântico do Profeta: - O Senhor é o fundamento da minha vida, é o meu refúgio e o meu libertador. (Ps. XVII.). É a pedra firme sobre a qual me apoio (Reg. XXII); nunca serei agitado: Non movebor amplius. (Ps. LXI)

(Conferência retirada do livro: A mulher forte, do Monsenhor Landriot)

PS: Grifos meus.
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