quarta-feira, 21 de abril de 2010

Donzela cristã e a economia

Donzela cristã e a economia


O ouro e os bens temporais, principalmente, têm sem dúvida a sua grande importância para cada indivíduo, para a família e para a vida social. Se o cristão, antes de mais nada, deve dirigir seus cuidados para a consecução dos bens celestes, não pode, todavia, mostrar-se indiferente aos bens terrenos e temporais.

Há de esforçar-se por adquiri-los pelo emprego de meios lícitos e de maneira justa, deve sobretudo usar deles conscienciosamente, e de acordo com a vontade de Deus. Não pode, portanto, dissipá-los; cumpre que os empregue com economia.

Sobre a economia desejo agora dar-te uma breve instrução.

1º - A religião cristã exige de ti a economia.

A economia pertence ao número das virtudes que são mais desprezadas e criticadas. Quem não sabe distinguir devidamente a sua renda e as suas despesas e por isso nunca "chega a um ramo verde" (como dizem os alemães), é precisamente o que murmura da economia daqueles que a aconselham e os difama como sovinas.

Eis porque não raro acontece que a gente se envergonha da economia e procura escondê-la quanto possível aos olhos do mundo. No entanto, ela merece, como as outras virtudes, todo apreço e cumpriria que a praticassem fiel e retamente todos os cristãos. Sim, mesmo os ricos, até os milionários, devem ser econômicos, naturalmente de maneira diversa da dos burgueses comuns.

O Cristianismo exige de todos nós uma sensata economia. Diz-nos que Deus é o altíssimo Senhor e Proprietário dos nossos bens terrenos, dos quais só nos confiou o uso e administração.

Nesta administração e neste uso devemos acomodar-nos à sua vontade infinitamente santa e sábia, que sem dúvida reprova uma dissipação leviana e insensata dos nesmos bens, e que será denunciada, perante o Seu divino tribunal.

Eis porque prescreve a Sagrada Escritura: "Tudo quanto entregares conta e pesa: e tudo anota do que deres e receberes". (Ecli. 12,7). E assim nos exorta outro passo: "No tempo da abundância, lembra-te da pobreza, e das necessidades da indigência no dia das riquezas". (Ecli. 18,25).

Mas, ainda mesmo, no tempo em que possuímos grandes riquezas e abundâncias, não devemos ser arrogantes e perdulários, cumprindo-nos antes pensar nos pobres e necessitados.

O próprio Divino Salvador, certa vez numa ocasião solene, publicamente recomendou a economia. Acabara de saciar milagrosamente, no deserto, uma multidão de 5.000 pessoas, mais ou menos; disse depois aos Seus discípulos: "Recolhei os pedaços que sobejaram, para que não se percam" (Jo. 6,12).

A que vinha esta ordem do Senhor, esta solicitude por aqueles fragmentos? Teria podido abandoná-los àquela gente, para que fizessem de tais restos o que bem quisessem. No entanto Ele mesmo justifica a Sua ordem com estas palavras: "para que não se percam".

Cuidado e carinho com o que é pequeno, atenção para o que é pouco, prudente economia, é o que Ele queria incutir, daquele modo, no coração de todos nós.

2º - A economia cristã é uma virtude útil e cheia de bênçãos para a vida doméstica.

Preserva, primeiro, a família de muitos embaraços. Nem sempre o sol brilha claro e alegre. Para muitos lares chegam também os dias graves e tristes, ocasiões em que os negócios não prosperam como de costume e as fontes de renda se vão secando cada vez mais, horas em que a doença ou acidentes imprevistos exigem maiores gastos. Que bom não será então se, pela economia e previdência, se houver guardado alguma coisa!

Ao contrário, que grande não será o aperto e até mesmo a desgraça, se nos dias de prosperidade não se houver pensado na economia, mas somente em viver à larga!

A economia conduz também à riqueza.

Uma gota une-se a outra gota, e assim se forma o regato; um grão de areia junta-se a outro, e deste modo se levanta a colina. Um centavo acrescenta-se a outro centavo para perfazerem uma bela soma.

Com um cajado, que representa todo o seu cabedal, transportou-se o Patriarca Jacó por sobre as águas do Jordão para um país estranho, e volvidos alguns anos, enriquecido, com dois grandes e preciosos rebanhos, tornava à sua pátria. Por onde se vê que, se alguém começou a economizar tostão a tostão, chegará finalmente, a uma considerável abastança.

"Os bens que se colhem pouco a pouco, multiplicar-se-ão" (Prov. 13,11).

A economia cautelosa tem um alto valor moral. Não reúne apenas bens materiais, mas ainda proporciona vantagens morais. Conserva a família na honestidade e na ordem; preserva-a de leviandade, fazendo-a evitar gastos desnecessários; garante-lhe certa alegria e confiante disposição, pelo aumento cabedal; faculta-lhe aquele espírito de indepêndencia, que é o sinal de uma livre e forte burguesia.

Econômicos e frugais não se resguardarão os filhos adultos de todos os perigos, em que, desgraçadamente naufragam tantos? Refiro-me sobretudo aos gozos e prazeres desordenados, ao luxo excessivo e paixões que consomem tanto dinheiro e desbaratam ainda mais as forças morais.

A família, onde reina uma prudente economia, não está em melhor condição de praticar as obras cristãs de misericórdia? Quantos auxílios não poderiam dispensar aos indigentes, às igrejas pobres, às missões, ou a outros fins nobres os que quisessem evitar gastos de todo supérfluos?

De maneira que não é somente para a administração, mas, ainda para a vida moral, religiosa e social qu tem a economia sua alta importância, tão mal conhecida infelizmente.

3º - Como adquirir o hábito da economia?

A economia deve, antes de tudo, ser razoável. Cumpre, pois, examinar onde e quando se há de eonomizar ou não. Os gastos para tudo o que requer uma vida social são razoáveis, como também para o que proporciona descanso e recreio moderados, são plenamente autorizados e permitidos, contanto que se tenha em vista a posição social e as possibilidades do capital.

São, pelo contrário, proibidos todos os gastos feitos apenas para desafogo de uma inclinação pecaminosa, de um luxo exagerado, para satisfação de prazeres excessivos, e sobretudo, de paixões baixas. Não esbanjes no luxo exagerado e no prazer ilícito as tuas riquezas.

Enquanto permaneceres em casa de teus pais, deves também ajudá-los a economizar. Portanto, nada exijas que lhes seja difícil fazer ou conceder, ou que exceda as suas posses. Não os atormentes com pedir-lhes vestidos, adornos e diversões que não podem satisfazer, por lho vedar o dever de uma sensata economia.

Do que te dão, usa também com cuidado, para que em pouco tempo se não deteriore e seja preciso reformá-lo. Quantos pais não lamentam as pretensões das filhas, que estão sempre a transpor os limites, com suas ambições descomedidas!

Há razões sobejas para se censurar estudantes que vivem à larga nas academias, enquanto os pais carecem do necessário em casa. Não merecem igualmente grave censura as filhas que, com suas exageradas pretensões em matéria de apresentação externa, obrigam os pais a verdadeiras privações?

A tua economia há de ser, em segundo lugar, sobrenatural. Deves praticá-la, não por afeição desordenada ao dinheiro e aos bens terrenos, mas por um princípio superior, isto é, para cumprires fiel e conscienciosamente a vontade de Deus, que um dia te pedirá conta da administração e do uso dos bens terrenos.

Ainda que rica e opulenta, não penses nem diga jamais: por que fazer economia? não preciso de economia; tudo tenho em abundância.

Convence-te de que também tu, que és rica, darás conta a Deus do reto uso dos teus bens.

Finalmente seja a tua economia amorosa e benéfica. Certo que, em fazendo economia, deves pensar no futuro e empenhar-te em cuidar dele. Deves querer também, por meio de economia, aumentar os teus haveres, de maneira justa e reta; ser-te-á, porém, meritório, se empregares para fins de beneficência, parte das tuas economias.

Se fores econômica, bem depressa estarás em condição de auxiliar os outros e tornar-te benfeitora ainda que menos rica.

As obras de caridade cristã: igrejas, hospitais, abrigos para os pobres, estabelecimentos de instrução, etc., são fundados e mantidos ordinariamente com os donativos da economia. Para poderes, portanto fazer o bem, sê econômica.

No governo da tua vida, pensa numa sólida parcimônia e moderada simplicidade; nada deixes sem a devida atenção e evita os gastos supérfluos, até mesmo nas coisas pequenas coisas, pois na consideração destas pequenas coisas está o segredo da economia.

(Excertos do livro: Donzela cristã, do Pe. Matias de Bremscheid)

PS: Grifos meus