sábado, 17 de abril de 2010

A criança que mexe no alheio - Como educá-la? (Primeira parte)

Nota: Esse capítulo será divido em duas partes.

A criança que mexe no alheio
Como educá-la?
Primeira parte


De todas as faltas infantis é talvez o furto a que mais profunda e desagradável impressão produz aos pais.

Atribuindo-lhe uma importância moral que ela não pode ter, exageram-lhe o aspecto social, temendo a vergonha que se abaterá sobre toda a família, manchada pela presença de um "ladrão". Descarregam, então, sobre a pobre criança os mais severos castigos - os quais, digamo-lo quanto antes, em lugar de remediar, agravam a situação, inclinando mais fortemente ao furto e complicando-o com mentiras e astúcias.

Alguns, ao lado disso, tratam de escondê-lo, quando o mal demanda medidas pedagógicas e médicas, e não silêncio e esconderijo.

A criança que furta merece especiais e imediatos cuidados. Não que ela seja um ladrão, que tenha a noção da propriedade alheia e as consciência moral de que a está violando, não! Esta é uma atitude adulta, aos poucos adquirida e consolidada. Mas porque o furto infantil é indício de insatisfação pessoal, de tendências irrealizadas, de morbidez, ou de sugestões consciente ou inconscientemente absorvidas.

Existem nessa pobre criança móveis (às vezes secretos e profundos) que é preciso atingir para remover - sem o que é impossível a sua cura. Analisá-la é, pois, a primeira necessidade, embora nem sempre seja fácil, mesmo com o concurso imprescindível (veja-se bem: imprescindível) do psicólogo e do pegagogo.

Carências profundas

A imensa maioria dos pais, despreparados para o ofício de educadores, adeptos da "paudagogia", pensando que castigos físicos são o mais eficiente remédio para esse e outros males, rirão do que vou agora dizer:

Antes de furtar, a criança é furtada.

Sim, está é a verdade. Furtada no afeto a que tem direito, ou a que julga ter. Furtada nos brinquedos, que todos ganham, menos ela. Furtada nos doces, que não lhe dão, ou não lhe dão na medida em que deseja, ou não lhe dão aqueles de que mais gosta. Furtada nas promessas que lhe fizeram e não cumpriram.

Furtada no alimento que os pais não lhe podem dar, porque freqüentemente a organização social furta também aos adultos. Furtada na perfeição de seu corpo ou de sua inteligência, como na posição social a que se reputa com direito. E assim por diante.

O furto na criança é, na maioria dos casos, mero reflexo da maneira pela qual ela é tratada. Dele, sem o saberem, sem o quererem, são causadores os pais. Compreendo porque estejam aborrecidos comigo, ou rindo do que lhes digo. Não importa: continuem a leitura, pois a nossa intenção é a mesma - a correção da criança - embora por meios diferentes dos usuais.

Furtada seja em que for, a criança, sentindo vaga e profundamente a sua carência, procura compensar-se, apropriando-se de alguma coisa que a contente. Às vezes, conforme a idade e a maturidade, sabe que está fazendo uma "coisa errada". Outras, nem isto. Guarda cuidadosamente o objeto "furtado", pelo que ele representa para ela, e para que não lho tomem.

Se menorzinha, nem sabe ter reservas: toma a boneca, tanto da irmãzinha como da menina estranha, quer o brinquedo da casa comercial, pede bala ao caixeiro: falta-lhe de todo a noção de propriedade; subsiste apenas o instinto a satisfazer.

Doces e brinquedos

Certas mães exageram e economia de açúcar. Ouviram dizer que doces fazem mal aos dentes (não é o doce, é a falta de cuidados...) Regram demais ...e as crianças ficam sempre insatisfeitas.

Outras vezes, são elas que tentam os filhos. Os doces ficam à mostra, esperando a festa do dia seguinte, ou o jantar. E a criança tem pressa... Se um sorvete ou saquinho de balas nem se fala. Bombons, só nos aniversários dos amiguinhos, donde as crianças voltam indigestadas (aproveitaram...), o que reforça a doutrina de que não devem comê-los!

Não é de admirar que essas vítimas da "lei amarga" cuidem de defender-se como puderem. Tiram doces ou simples açúcar, escondidos. Ou dinheiro para as guloseimas que não lhes dão, ou só lhes dão em doses homeopáticas.

Às vezes, a criança é fraudada nas preferências. Em lugar do doce de goiaba deram-lhe o de abóbora, de que não gosta; e ela furtou, depois, a goiabada.

Promessas descumpridas

Diz o adágio que "a rico não devas, a pobre não prometas". Também a criança. E quem prometer, cumpra.

A) Para contentar a menina visitante o pai disse ao filho que desse a bola colorida que ele traria outra. E não trouxe. O pequeno apanhou dinheiro da mamãe (era do papai...) para comprar outra bola!

B) Em caso idêntico, a criança "furtada" começou a tirar doces, como compensação. (Erram os que obrigam os pequenos a dar o que lhes pertencem ou o que mais lhe agrada, a pretexto de formá-los na generosidade. Como não estão maduros, não entendem o que se lhes pede ou manda. Ficam fraudados. E essa frustração, em lugar de ser aprendizagem de virtude, abre caminhos ao furto.)

A fome

Há muitas maneiras de encarar a fome da criança. Esta, se é filha de pais muito pobres, vive em regime de fome perene. Fome de verdade: subnutrição. Não come o suficiente a suas necessidades (já não falemos da diferença entre o que come e o que vê outras crianças comerem). No dia em que ela tirar uma fruta na feira, o pão da porta do vizinho, dinheiro para comprar doces e balas, é fácil, muito fácil compreender as suas razões.

Aquela, de remediada família, sente outra espécie de fome: não lhe dão aquilo que mais a regalaria. No seu paladar e na sua escolha, é também "faminta" e "furtada".

Descumpam-se os pais, aquele dizendo que não é culpa sua não poder alimentar fartamente o filho, este que não se há de contentar em tudo a criança. O certo é que a criança padece um deficit, e procura cobri-lo.

As inferioridades

De suas deficiências orgânicas ou intelectuais, pode também a criança procurar compensações em furtos. É algo disforme, tem defeito físico que a inibe, que lhe dificulta a participação da vida do grupo, ou de que zombam colegas sem caridade; sente especial dificuldade nos estudos, e não consegue vencê-las, apesar dos esforços... e procura compensar-se no furto.

Outras vezes, é a inferioridade social. Mas vestida, e mal calçada, sem merenda para comer na hora do lanche, procura a criança, com seus furtos, corrigir exterior (e muitas vezes interiormente) a sua situação.

Desfalques afetivos

A mais freqüente causa dos furtos infantis está nos desfalques afetivos. Vítima da falta de afeto - real ou imaginária, pouco importa! - ela corre a buscar uma compensação. Pensa resolver assim o conflito interior.

As causas dos conflitos nem sempre são claras, e freqüentemente as próprias crianças não as ligam a seus pequenos furtos. Alguns leigos em psicologia se negarão a aceitá-las, e continuarão em seus erros. Tanto pior para eles e principalmente para suas próprias vítimas.

Reconhecemos que muitas dessas falhas são cometidas insconscientemente - o que não lhes diminui a eficiência, nem a razão para as desprezarmos. Narrarei alguns casos, absolutamente verídicos, que ilustrarão o assunto.

- Percebendo que a mãe dispensa maiores carinhos ao pai do que a ele, o filho de 8 anos começa a praticar pequenos furtos.

- Filha única durante 7 anos, a menina, enciumada com a chegada do irmãozinho para quem se canalizam cuidados com atenções que antes lhe pertenciam, deu para furtar objetos da mamãe.

- Habituado a dormir com a mamãe (péssimo hábito por vários motivos), passando a dormir sozinho, o menino de 8 anos, além de outras desagradáveis atitudes, deu também para furtar.

- Viajando os pais para a Europa, a filha de 6 anos, que ficou com parentes, praticou uma série de furtos, que cessaram com a volta dos pais e a sua integração no lar. Mas tornou aos furtos, quando a situação anterior se repetiu... Caso típico, pois o furto aparece com a frustração afetiva, desaparece quando ela cessa, e se repete quando ela novamente surge. Assim explicamos vários casos de furto periódicos que surgem e desaparecem "ninguém sabe porque!"

Furtos inúteis

Muitos outros poderia referir, por fracasso na vida escolar, pela separação dos pais, após um castigo mais severo, por uma medida humilhante para ela - por uma frustração afetiva qualquer, uma situação de desajustamento, uma perda ou diminuição de amor, um conflito interior, uma angústia ou um problema espiritual.

Robin, em "L'enfant sans défauts", conta do pequenino de 6 anos que, por não mais lhe ser permitido dormir com a mamãe, furtava as suas meias, e nelas se enrolava, explicando que sem a mamãe não conseguia dormir. É que as meias a simbolizavam.

A ligação entre o furto e a causa é tão evidente que todos a perceberão com clareza, ao menos depois de explicada... Espantam-se, ás vezes, os leigos ao verem que as crianças furtam objetos inúteis para elas. Este caso mostram que o objeto furtado (meias) eram muito úteis, pelo que significavam.

(Excertos do livro: Corrija o seu filho, do Mons Álvaro Negromonte, continua...)

PS: Grifos meus
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