terça-feira, 29 de dezembro de 2009

7ª Conferência - Mulher e os cuidados com os domésticos


7ª Conferência dada para as senhoras da associação de caridade pelo Monsenhor Landriot - Arcebispo de Reims (1877)

Dedit praedam domesticis suis, et cibaria ancillis suis.
“Ela dividiu o trabalho e os alimentos pelos seus domésticos”
(Prov. XXXI,15)

Outrora quando as famílias e as sociedades eram profundamente cristãs, os domésticos, segundo a etimologia da palavra, faziam realmente parte da casa, pois doméstico vem do latim domus, que significa aquele termo.

Outrora uma família formava um corpo onde os próprios domésticos tinham um lugar na organização da família; eram membros secundários, mas pertenciam realmente ao corpo. Deste modo, permaneciam perpetuamente na casa, e ali passavam a vida, e quando já não podiam trabalhar eram tratados com cuidado paternal, e, algumas vezes, filial, e mais tarde ao soar-lhes a derradeira hora caiam de vetustez, como o ramo que fenece sobre o tronco.

Santo Agostinho falava com efusão de uma velha ama, que cuidava da infância de sua mãe, e que até mesmo tinha levado ás costas o pai de Santa Mônica, como as donzelas costumavam levar as criancinhas: - Sicut dorso grandiuscularam puellaram parvuli portari solent”. (Confissões, 1. XI, c.8)

Esta recordação – continua Santo Agostinho – a sua velhice e a excelência dos seus costumes, asseguravam-lhe, numa casa cristã, a veneração dos amos, que lhe haviam confiado seus filhos; mas o seu zelo correspondia a tamanha confiança, e possuía-se da necessidade de um santo rigor para as corrigir, e, sempre, de uma admirável prudência para as instruir.”

Hoje graças ao espírito do orgulho, de independência e de irreligião espalhado por toda a parte, os bons criados são difíceis de encontrar, e igualmente os bons amos; e assim como dois focos, colocados em face um do outro, se aquecem mutuamente, pode dizer-se também que as más qualidades dos domésticos aumentam as dos amos, e vice-versa.

Parece-me que cumprireis muito bem os vossos deveres, com relação a eles (domésticos) se entrardes no espírito desta palavra: “Ela madruga e distribui o trabalho e o sustento pelos seus domésticos”. Vede o sol: reponta no horizonte, e derramando a sua luz, parece distribuir também o trabalho a cada criatura e, como recompensa, prepara de antemão todos os alimentos que devem sustentá-la.

Não é ele quem, esclarecendo o mundo, convida o artista a entrar na oficina, o lavrador a voltar ao campo, o piloto a sair do porto? Não é ele quem prepara os germes no seio da terra, quem os aquece e os conduz sucessivamente ao ponto de maturação, que espera com impaciência o homem de estado e o pobre do campo?

A mulher – diz a Bíblia – deve ser o sol de sua casa, e esclarecer e aquecer como o astro do dia. Ilumina a cada um o que deve fazer; reparte o trabalho, distribui-o em sábias proporções, e quando as coisas são assim reguladas desde amanhã, ela fiscaliza-lhes a execução.

Então tudo marcha admiravelmente, porque tudo é esclarecido pelo espírito de regularidade da dona de casa. O seu olhar, que tudo vigia, projeta a luz e esta luz é o mais forte e o mais insinuante de todos os conselheiros, como também o mentor, alternativamente mais doce e mais severo.

Uma mulher que preside ao movimento do interior da sua casa não tem necessidade de falar; fala por ela a sua presença, e a simples convicção de que tem os olhos abertos, de que toma conta das menores coisas, faz com que tudo vá como sobre os rails de um caminho de ferro.

A mulher, sol da casa, não deve limitar-se a iluminar; deve aquecer, porque a luz deve partir do coração. Deveis, senhoras, vigiar os vossos cria, tomar-lhes contas dos passos, no interior e exterior, vigiá-los, sobretudo, nas suas relações com os vossos filhos, pois demasiadas vezes o espírito e o coração das crianças são perdidos pelos domésticos, e se fosse permitido revelar tudo quanto a história do coração humano ensina, sob este ponto de vista, dir-se-iam coisas espantosas!

Vigiai, pois, os vossos filhos, vigiando os vossos criados. Vigiai as saídas, os passos, as entradas e as relações; vigiai-lhes as palavras e as ações. Mas peço que o façais com bondade, peço que a luz da vossa vigilância tenha o calor de uma afeição completamente cristã.

Amai os vossos domésticos, lembrai-vos que pertencem, como nós, à natureza humana, que eles são as imagens de Deus, e que têm sido resgatados pelo sangue de Jesus Cristo. Falai-lhes com a maior bondade possível; se vos escaparem alguns movimentos de vivacidade, sabei encontrar a ocasião de os reparar por uma sincera benevolência.

Que a vossa vigilância não seja inquieta nem suspeitosa; não andeis sempre a espionar-lhes os passos; muitas vezes fazemos os homens bons, julgando-os bons, e tornamo-los maus, crendo-os maus, ou, pelo menos, ferimos-lhes o coração, e algumas vezes para sempre.

Nada desconsidera tanto a autoridade, como semelhante procedimento; os criados cansam-se, esgotam-se, perdem todo o sentimento de confiança e de afeição, porque vêem que não há nenhum respeito por eles, que os tratam como seres inferiores e sem consideração pelas suas pessoas; nos dias mesmo em que o capricho não domina, não são recompensados senão por modos de arrogância e de silenciosa altivez.

A mulher forte saberá, pois, fazer frente a certos espíritos difíceis, pretensiosos e ridículos nas suas exigências; ela os conduzirá ao seu lugar, quando a sabedoria o requeira...

Uma única palavra doce e filha do coração bastará para dissipar as nuvens, para fazer desaparecer numerosas prevenções, para vos preparar sólidas e profundas amizades no coração dos vossos domésticos. E não valerá isto mais do que as relações forçadas, do que os laços frios e guindados, que gelam o coração e envenenam a vida muito mais do que se acredita?

"A mulher forte divide o trabalho e os alimentos pelos seus domésticos."

Não é somente o alimento e os cuidados materiais que é preciso assegurar aos vossos criados. Como eu gosto de ver a mulher cristã alargar o seu coração maternal e reservar nele um lugar não só para os seus filhos, senão também para todas as pessoas da sua casa! Sim, é necessário que ela note uma afeição maternal a todos , e que o mais ínfimo compreenda que tem um quinhão no calor da alma e no foco do coração dela.

Assim realizará a comparação que sempre me apraz repetir, porque será admiravelmente verdadeira no seu esplendor e na sua simplicidade, e porque ao passo que for examinada se lhe descobrirão novos aspectos: então a mulher forte será o sol de sua casa: Sicut sol oriens.

Embora! – direis ainda. – Falais para os que têm em casa um pessoal considerável, que o meu é muito modesto; uma criada de sala, e quando muito uma cozinheira.

... Os doutores da Igreja ensinam que alma humana, com a sua organização é uma casa completa: nada lhe falta nem mesmo os porteiros. Ali há a inteligência, a alma propriamente dita, a imaginação e os sentidos. A inteligência é como o esposo – diz Santo Agostinho -; a alma propriamente dita é a mulher.

Ajuntarei que a imaginação, com os seus numerosos caprichos representa um pessoal de domésticos tumultuosos, e que os cinco sentidos são como cinco porteiros, dos portões da rua. Fazer ouvir este pequeno mundo pô-lo em harmonia não é coisa fácil!

Quando a inteligência quer uma coisa, o coração quer outra; são marido e mulher, muitas vezes prestes a baterem-se. Depois, a imaginação, com os seus mil fantasmas, com os seus ruídos fantásticos, com a sua algazarra de dia e de noite: julgais que o vosso lar não está em condições excelentes para excitar-vos a paciência?

E os porteiros, os olhos, os ouvidos, esta espécie de batalhões azafamados, que fazem mais barulho que o resto, não, não contando os nervos! Que interior? Que confusão! Que Babel! – Repito mais uma vez o texto da Bíblia: - "Madrugai para dardes trabalho e alimento aos vossos criados, pondo-os em ordem logo de manhã."

Desanuviai a vossa imaginação, para o que será talvez preciso mais tempo e cuidado do que para pentear uma cabeleira desgrenhada! Vede como as vossas idéias vão aos quatro ventos, como a imaginação canta e se torna impertinente, como raciocina, como troveja, como é absurda!

A inteligência quer submete-la á razão, mas é inútil! São fadigas perdidas! Porque ela grita mais alto, e enfurece-se com mais violência e continuidade. Faz tanta algazarra, que se diria, segundo a nota de São Gregório, a voz múltipla de várias criadas, cujas línguas fossem perfeitamente afiadas: Cogitationum se clamor, velut gárrula ancillarum turba, multiplicat (Moral, 1. I, c. XXX)

Eis um belo serviço a ordenar cada manhã!

Fazei a paz nessa algazarra, lançai a harmonia nessa confusão, mas procedei de tal modo que essa harmonia não seja essencialmente perturbada até a noite, e eu vos darei um privilégio, um certificado de excelente dona de casa.

Outrora não se fazia todo esse barulho na pobre cabeça humana, e porque? Porque ela estava submetida a Deus, e neste caso, todas as potências do homem, o espírito, o coração, a vontade, a imaginação, os sentidos, tudo era submetido ao chefe da casa; porque este próprio chefe obedecia a Deus.

Desde a primitiva revolta, que tudo foi transtornado no homem, e a nossa pobre natureza converteu-se numa como casa, onde muitas vezes se batem, marido, mulher e domésticos, isto é, o espírito, o coração e a imaginação. Há um meio muito simples de restabelecer a paz, não completa, mas a mais tolerável neste mundo: trazei Deus para casa, fazei-O Chefe, Ordenador, e presidindo a tudo, e em breve tudo entrará em ordem.

Eu não conheço nada mais próprio para pacificar uma casa, para a pôr em calma, do que, sobretudo pela manhã, um olhar ao céu, como um pensamento de amor que se dirige ao alto e nos traz, descendo, a paz do Senhor. Pela manhã, quando a cabeça está doente, deponde-a aos pés da cruz; quando o coração sofre colocai-o sobre o coração de Nosso Senhor; quando a imaginação tem febre acalmai-a com uma gota de sangue de Jesus Cristo; quando o ser inteiro está em ebulição, dai-lhe um pouco de refrigério, pedindo a Deus que deixe cair sobre vós o orvalho do Céu!

Sedes fiéis a estas recomendações, senhoras, e podereis, por mais longo que seja o dia, repousar á sombra da vossa vinha e da vossa figueira, isto é, podereis gozar da intima ventura que Deus prometeu aos seus eleitos, e que é uma das mais doces recompensas da virtude:

Et sedit unusquisque sub vite sua, et ficulnea sua, et non erat qui eos terreret
 (Mach. XIV, 12)

(Excertos da 7ª Conferência de Monsenhor Landriot, extraída do livro: A Mulher forte)
PS: Grifos meus