terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mulher e os trabalhos intelectuais

3ª CONFERÊNCIA 


Mulier sensata et tacita, non est immutatio eruditae animae. 
Uma mulher sensata gosta do silêncio: nada é comparável a uma mulher instruída. 
(Eccles., XXVI, 18) 

Senhoras. 

Parece-me que me não distancio do nosso programa, pedindo hoje o meu texto a um outro livro da Sagrada Escritura, que completa o dos Provérbios, sobre as qualidades da mulher forte; e tanto mais, quanto, sendo constante o sopro inspirador da Bíblia, se pode dizer, com verdade, que só se cita um autor. 

Um dos principais deveres da mulher é o cuidado do seu interior, o governo do lar, e tudo quanto se relaciona à economia doméstica. A mãe de S. Gregório Naziano, é sob este ponto de vista um admirável modelo, porque praticava perfeitamente, diz este santo doutor, os conselhos contidos no livro dos Provérbios, fazendo de tal modo prosperar os negócios domésticos, que dir-se-ia não dispor de tempo para tratar das coisas do céu, quando, no entanto, era tão piedosa que parecia estranha a todas as dependências do lar. Estas duas obrigações não se prejudicavam uma à outra, antes pelo contrário reciprocamente se fortificavam e aperfeiçoavam. 

Na passada conferência tratamos especialmente do trabalho manual, dos cuidados no lar e da atividade que a mulher deve desenvolver nele para vigiar tudo, e sustentar todas as coisas em uma ordem admirável, e fixamos as grandes vantagens destas ocupações diferentes, vantagens para a conservação da virtude e da saúde, vantagens para fugir à ociosidade, e, muitas vezes, a uma grande desordem em todos os serviços e interesses. 

Não dissimulei também as objeções que me podiam ser feitas. - Quereis rebaixar a mulher, convertendo-a em um simples instrumento de casa, condenando-a a vigilância da sua cozinha?... Isto não é esquecer o que a mulher pode ter de grande, de nobre na inteligência e no coração? Não é calcar aos pés todos os germes intelectuais, que se acham no espírito das mulheres e que, a final de contas, embora diferentes, nem por isso deviam de valer tanto como aqueles de que os homens se orgulham e vangloriam? 

Neste mundo, senhoras, em qualquer parte se encontra o estreito de Messina: desculpai a comparação geográfica, que só vem para melhor vos fazer compreender a minha idéia. 

Entre a Calábria e Sicília há um estreito de cerca de três léguas de largo: dois mares, cada um deles em sentido inverso, estabelecem ali fortíssimas correntes. Para atravessá-lo pelo centro é necessário que o piloto haja grande perícia. Pois bem, o estreito de Messina representa magnificamente a maior parte das questões humanas: isto é, exagerações e correntes extremas de cada lado. Passar no centro nem sempre é fácil, e tanto mais, quanto das duas margens opostas partem muitas vezes balas ardentes, isto é, cóleras e contradições, mais ou menos violentas. 

Assim, senhoras, na questão que nos ocupa, se recomenda às mulheres que tratem seriamente do seu interior, os partidários da emancipação intelectual e moral delas apresentam-se completamente armados, e exclamam: - Quereis atoleimar a mulher? - A exageração pode vir também da dose da bebida intelectual, da medida na aplicação, da direção dos estudos e das suas conseqüências práticas; pois, como muito bem disse Fenelon: “Tudo está perdido se a mulher para cuidar do seu espírito se desgosta dos cuidados domésticos.”[1] E realmente as mulheres estão tanto mais expostas - permiti ainda esta confidência ao arcebispo de Cambray - “quanto correm o risco de tocarem os extremos em tudo.”[2]

A linha do centro é a linha da sabedoria, diziam os antigos, e essa a que desejo aconselhar-vos neste instante. 

Pode e deve a mulher ocupar-se de estudos, em leituras, na poesia, na literatura, nas artes, na música? 

Seria difícil responder a interrogação, posta, assim, de um modo geral. Há mulheres que evidentemente não podem entregar-se a esta espécie de estudos, umas porque lhes falece o tempo, outras porque a natureza lhes recusou a devida capacidade. Assim, o bom senso, cria-nos o dever de eliminarmos logo certa categoria de mulheres, cuja prática sabedoria, mais ainda que as teorias abstratas deve determinar o número. 

Mas que resposta dar às que dispõem de tempo, e tem em maior ou menor grau a capacidade necessária? 

Antes de entrarmos no estreito e perigoso atalho de uma resposta clara e precisa, será conveniente fixarmos três condições essenciais, que deverão sempre acompanhar o estudo na vida das mulheres. A direção do lar não deverá nunca sofrer, e os negócios da família serão sempre regulados; o estudo não deve prejudicar os deveres principais, e no dia em que eles lhe colocar um obstáculo seria condenado, não em si, mas sim pelo excesso. Se a Providência vos reservou maior liberdade, se, por exemplo, não sois casadas, se não tendes filhos, se sois viúvas, se o trem de vossa casa não é considerável, dai então mais algum tempo à vossa cultura intelectual, e isto será bom; mas uma segunda condição:- consultareis a medida do vosso espírito e não excedereis a dose que ele pode tomar. 

Todo o espírito tem os seus limites e a sua energia, como cada vaso tem a sua grandeza e a sua força de resistência. 

Tentaríeis debalde lançar em um pequeno frasco o licor que encerra uma garrafa, nem fazer passar ondas de vapor, em temperatura elevada, em um tubo de mínimo diâmetro e muito frágil. Consultai igualmente a força do vosso espírito, segundo o conselho de Horácio:- “Experimentai, dizia ele, e vede o que podem os vossos ombros.” Se uma gota é bastante, tomai uma gota só; a ciência sobe ao cérebro como o vinho e embriaga, e produz vertigens. Desgraçadamente, entre os homens como entre as mulheres, o orgulho cega a muitos, sob este ponto de vista. Muitas vezes os espíritos, ao passo que são mais fracos e mais acanhados, têm-se como mais capazes, semelhando os indivíduos cujo cérebro quanto mais susceptível, tanto mais se crê em estado de afrontar impunemente os perigos de um licor pérfido. Meditai, pois, sobre este ponto, altamente essencial para vós; vai nele o vosso bom senso, e algumas vezes a vossa virtude, pois a cabeça uma vez partida, ninguém sabe o que será do coração. 

Há dose em tudo! Muitas vezes o vício não é mais que a infração desta grande regra. A dose! A sabedoria na combinação dos elementos físicos e morais. Se esta máxima se observasse bem, em toda a parte veríamos a ordem tomando lugar à desordem, e renovar-se o prodígio de que reza o poeta: 

Aos accentos d’Amphião as pedras se moviam 
E de Thebas no muro em ordem se mettiam. 

A terceira condição, que me parece indispensável, é a modéstia, é a tímida reserva, é o que Fenelon chamava “o pudor da ciência”.[3] Tal pudor vos dirá o que deveis ignorar; ele vos ensinará a evitar nas conversações o modo afetado, e o ar sentencioso, que mais tem contribuído talvez para desconsiderar o estudo na vida das mulheres. Em vós, até a ciência deve ser simples, graciosa, flexível, cheia de amenidade e de modéstia. 

Depois de postas estas três condições de medida, de tempo e de reserva, para regulamento dos estudos, temos mais liberdade para expormos a verdadeira doutrina, e não devereis esquecer que tais condições são pressupostas nos conselhos que vos vamos dar. 

Podem convenientemente, e devem as mulheres ocupar-se de questões importantes, intelectuais, fora dos seus deveres de família? 

M. de Tocqueville, na sua correspondência, faz uma excelente descrição da vida íntima, e eu recomendo-a às pessoas que são inimigas do estudo e do desenvolvimento intelectual entre as mulheres. 

“O nosso excelente amigo... pede-te o meu parecer a respeito de M.elle... Eis o que sei dela e o que dela penso. É filha de um homem de espírito muito egoísta e de uma devota muito acanhada e tola... Tem, creio, quando muito dezesseis ou dezessete anos. É uma encantadora menina quanto ao físico, mas julgo-a uma nulidade completa e muito chata. 

Tímida, bondosa, doce e limitada: - eis o retrato que, pelo menos, me ficou dela no espírito. Não creio que ali haja, até ao presente, alguma coisa com que fazer mais do que uma mulher estritamente honesta, e não conheço nela ponto que indique menos lados maiores. É, como te disse, muito formosa; gosta de luxo no meio da simplicidade suficientemente estúpida da vida que leva, e manifestou em verdes anos a arte de tirar o partido das menores coisas, das menores ninharias para se adornar e adornar as irmãs. Nunca ouvi atribuir-lhe senão esta capacidade, a qual reunida à pouca extensão do seu espírito, ameaça convertê-la em um pequeno ser muito lindo e muito insignificante. A chateza do espírito é a atmosfera de toda aquela casa... Grandes virtudes burguesas, envoltas em idéias infinitamente pequenas.”[4] *

Este esboçosinho foi como que dirigido aos que pretendiam fazer da chateza uma boa qualidade da mulher, e uma virtude da ignorância e da tolice. Nós não consideramos nunca a pessoa de que M. de Tocqueville nos deixou o retrato, como o modelo da mulher cristã. **

Por outro lado achamos um escolho oposto, que assinalava Madame de Maintenon: - “As mulheres, dizia ela, e talvez com alguma exageração, só sabem metade, e o pouco que sabem torna-as geralmente altivas, desdenhosas, questionadoras, e cheias de desgosto pelas coisas sólidas."[5]

O poeta latino também pedia um larzinho, um teto singelo e sem fumo, uma fonte d’água límpida, a selva do prado e uma mulher que não fosse muito sábia, non doctissima conjux.[6] Fenelon temia, sobretudo, as mulheres muito lidas em teologia e aprovando completamente o verdadeiro e sólido conhecimento da religião, desconfiava da arrogância doutoral que estava em voga nessa época: - "Gosto mais, dizia ele, que a mulher se instrua nas contas que lhe dá o seu criado, do que nas disputas de teologia sobre a graça."[7]

Eu creio senhoras, que é fácil evitar todos os excessos. Uma mulher, depois de ter cumprido todos os outros deveres, pode muito bem ocupar-se com as ciências elementares, com a literatura, com a filosofia até; e aperfeiçoar-se em todos estes contatos cheios de encantos e de luz. As ciências têm diferentes regiões e se nem sempre se chega ao seu cume, pode-se ao menos subir um pouco a encosta para o gozo de um admirável panorama. Nada há tão belo como a filosofia cristã quando é convenientemente apresentada. 

Tendes o coração triste? 

Depois da oração não conheço melhor remédio para tal sofrimento do que algumas horas de leituras nos escritores, cuja nobreza de sentimento e sublimidade de estilo vos transportam às regiões serenas, onde se esquecem os homens e as coisas mundanas. Muitas vezes, em um sonho do espírito, no momento em que é sufocante a atmosfera que nos cerca, diz-se: - Meu Deus! Se eu pudesse refugiar-me em uma alta montanha, descansar ali alguns dias e permanecer sozinho na vossa presença, diante do sol e dos esplendores da natureza, que felicidade não seria a minha! Que vida e que alegria para o corpo e para a alma! 

Para que sonhar assim?

Vós podeis encontrar a desejada felicidade sem que deis um passo fora do vosso gabinete. A leitura e a meditação criam asas: o espírito subtrai-se à matéria, e sobe, e voa, e equilibra-se sobre as montanhas intelectuais, em cuja altura se encontra a paz e a serenidade. 

O estudo tem grandes vantagens: - Eleva o espírito; influi secretamente na mulher fazendo com que ela não viva no meio das ninharias, como diz M. de Tocqueville, e fazendo com que não conserve mais a pequena personalidade que se envolve em pensamentos infinitamente mesquinhos. 

A alma engrandece-se ao contato das idéias; o estudo da literatura dá-lhe um tom gracioso, torna-a flexível e comunica-lhe, simultaneamente, a finura e a firmeza; a poesia inflama-a e inspira-lhe alentos divinos; a música põe-lhe a alma em equilíbrio e dá-lhe o sentido da harmonia em tudo. A cultura das belas artes desenvolve-lhe o sentimento do belo e ao pensamento, horizontes completamente desconhecidos. 

Suponde uma bela alma, uma inteligência distinta em uma organização de mulher, desse-lhe uma educação dirigida sob estes princípios, faça-se com que as Musas e as Graças se congreguem para lhe formarem o espírito e fazerem desabrochá-la no meio de uma doce harmonia de faculdades, consegui que ela conserve sempre, como guardas da sua casa, a virtude e a sabedoria, e eu ousarei apresentar tal criatura como o ideal que eu gostaria de sonhar de uma mulher cristã. Bom seria imitar esse ideal, mesmo de longe. 

A mulher desenvolvida deste modo será o ornamento de sua casa; saberá falar à cozinheira e entender-se com ela a respeito das minudências de um excelente jantar; mas ao subir ao salão, ainda melhor saberá sustentar uma conversação, sem gastar o seu espírito em volta dos objetos de toilette, reservando-o para entretenimentos sérios e interessantes, semeados de notas tão sólidas quanto delicadas. Chego mesmo a não 
excluir o latim dessa educação completa, e se alguém me censurasse pelas muitas concessões à mulher sábia eu invocaria duas autoridades cuja competência ninguém contestará - a de Fenelon e a de Madame Swetchine. Citarei esta última: - “O vosso latim - escreve ela a uma das suas amigas - causa-me, pelo menos, tanto prazer como o resto. A língua da fé não devia ser excluída de nenhuma educação religiosa, e muito menos da que se dá na vossa idade em que se aprende ainda tudo quanto se deseja. O pedantismo não está no que se sabe, está em querer mostrar o que se não sabe”. [8]

Uma mulher formada deste modo não aborrecerá o seu marido, e entre as qualidades do sexo frágil não ponho na última linha a de não enfadarem as mulheres os seus maridos. Ora de todas as fontes do aborrecimento eu não conheço nenhuma, sobretudo para um marido que não fez voto de paciência, mais abundante e perene do que uma virtude acanhada e muito tola, para repetir a frase de M. de Tocqueville. A tolice, sobretudo quando se tem o talento desgraçado de dobrá-la com piedade mal compreendida, têm o privilégio de estragar todas as coisas, mesmo as melhores. Insisto neste assunto porque é essencialíssimo sob o ponto de vista da paz de vossas famílias e da virtude de vossos maridos. 

As qualidades físicas, quando subsistem só têm uma influência temporária e que facilmente se gasta. Depois da virtude nada conheço mais próprio para conservardes a estima e o coração de vossos maridos que a qualidade de um espírito culto, delicado, apanhando em todas as coisas o ponto de vista elevado, amável, gracioso e divino.

Para se conseguir isto não é absolutamente necessário ser um gênio; neste caso seria difícil acreditar com que facilidade esta maneira de encarar as coisas se desenvolve naturalmente, instintivamente, nas naturezas em que a virtude e uma instrução conveniente se dão as mãos para caminharem conjuntamente. É como solo constituído de terra, pela qual os jardineiros têm grande veneração: - as flores brotam nele espontaneamente. O número de mulheres que perderam o coração, e, mais tarde a virtude de seus maridos, aborrecendo-os, é talvez, muito considerável. Vejo, porém, que parecendo dar-vos somente conselhos literários, tive também o pensamento e o desejo de atingir outro alvo, e realmente, dou-vos conselhos religiosos. 

O estudo tem ainda uma grande vantagem para a mulher: o produzir-lhe o desgosto pelas coisas inúteis e frívolas, e por conversações em que quase todas as virtudes cristãs são mais ou menos comprometidas; ele liga-a ao lar e liberta-a de uma multidão de perigos. Como é boa, ao calor do lar, a leitura de um livro interessante, que fale de Deus, da alma e dos deveres da vida! Deste modo facilmente se esquecem os humanos e os contatos com eles são tão difíceis e, muitas vezes, tão penosos! 

“Quando os vivos me aborrecem - dizia o cardeal Cheverus - converso com os mortos.” 

Bem-aventurados mortos! Que deixastes o vosso alento nos livros! Vós valeis mais, ordinariamente que os autores de carne e osso. Perdestes as pontas e as arestas se as tínheis; ficou de vós o espírito encantador, o espírito graciosamente misturado de doce gravidade. 

Vós sois como o licor dos nossos arrabaldes, que depois de limpo de quanto tinha de duro, de espesso e de grosseiro nos resíduos da cepa, toma uma forma substancial, que quase dá o espírito sem a matéria. - Como eu gosto de conversar convosco! Tendes ainda uma outra preciosa qualidade: - Não sois susceptíveis; quando sois abandonados, mesmo injustamente, por capricho ou por frivolidade, não vos zangais; e quando alguém vos interpela tornais-vos tão graciosos como antes. Nunca tão longe foi a complacência e a condescendência que esquece e perdoa. 

Dizia o autor da Imitação de Cristo, que, depois de uma conversação com homens, entrava menos homem em casa. Vós, deixando certas conversações mundanas não vos tendes sentido menos mulher, menos sérias, menos amáveis em casa, menos aplicadas aos vossos deveres? Não vos acháveis mais levianas, mais gastadoras, mais afeiçoadas ao brilhantismo e às superficialidades, mais vaidosas e repletas do imoderado desejo de agradar? 

Se em vez destes entretenimentos inúteis e, muitas vezes perigosos, vos tivesses, durante um quarto de hora, durante meia hora, entregado à leitura, à meditação, teríeis como que sentido palpitar em vós a vida da mulher nobre, dedicada, de sentimentos exquisitos e palavras perfumosas; de virtude, a vida da mulher forte, da mulher cristã. Um autor pagão empenha as mulheres em lerem as obras dos filósofos e os tratados de ciência. Assim - diz ele - não pensarão nunca nas danças, nas frivolidades, porque terão a alma repleta das grandes idéias que encerram os livros dos nossos célebres escritores, e estarão sob a influência de um encanto espiritual. (Plutarco, Preceitos conjugais). 

Eu recomendando-vos a cultura das letras não vos empenho em que estudeis do mesmo que os homens. O vosso espírito, como o vosso corpo, é mais franzino, tem mais flexibilidade, tem as formas mais graciosas, tem alguma coisa de mais fino do que os homens, e falo, pelo menos, em geral, porque é necessário contar sempre com as exceções. Dir-se-ia que a vossa inteligência tem o olfato mais delicado; vedes mais facilmente as malhas mais desligadas das coisas, e quando tem menos profundidade, é ordinariamente mais pronta, vê de um lance e como que por intuição. Ali, onde o homem raciocina, vós pressentis, o que fazia dizer aos germanos, que tínheis na alma alguma coisa de profético: - Inesse sanctum aliquid et providum putant.[9] Outra qualidade - e quantos defeitos a par dela! -: o vosso espírito, se não tendes cuidado, caminha sempre conduzido pelo coração; quando amais alguma pessoa tudo deve ser excelente nela, à primeira vista, e todos os que vos contradisserem neste ponto, não devem, por certo, ter senso comum. Se, sobretudo, está em jogo uma pequenina paixão do coração, quando adotais uma coisa, um projeto, uma determinação, tal coisa, tal projeto e tal determinação, devem ser – sem que haja necessidade de exame – o que há de mais perfeito no mundo, e desgraçado do que ousasse fazer-vos uma objeção! 

É este, senhoras, o lado a vigiar na direção do vosso espírito, porque a verdade acima de tudo, como base dos nossos juízos, a verdade antes do nosso amor próprio, antes das nossas preferências exclusivas, antes das mil paixões que são os ventos do espírito! O defeito que assinalo é tanto mais importante para vigiar, quanto mais é talvez uma das causas principais da versatilidade que não é absolutamente estranha à natureza da mulher. 

Indicando-vos, pois, estas boas qualidades, misturadas de defeitos que dependem da natureza do vosso espírito, dou-vos, ao mesmo tempo, regras para a escolha e método dos vossos estudos. Num jardim, cada flor tem uma posição diferente; no jardim da ciência e das letras desenvolvei- vos segundo a natureza do vosso espírito e a espécie de fruto que deveis produzir. Se Deus vos criou mimosas violetas, não tenteis imitar o arbusto; se sois o lírio deslumbrante pela alvura, não aspireis ao tronco gigantesco do carvalho vetusto; estudai proporcionalmente às vossas aptidões, à natureza da vossa vocação, ao caráter do vosso espírito, e não procureis tornar-vos sábias à maneira dos homens: na criação, cada ser conserva a sua cambiante refletindo a luz do sol. Assim colhereis as rosas da ciência sem lhe tocardes os espinhos, e, sobretudo, os espinhos envenenados que derramam no sangue da alma um suco pestífero, que não é fácil extinguir completamente.

Clemente de Alexandria menciona em uma das suas obras, as mulheres gregas que se deram à literatura, a ciência e à filosofia. O princípio do capítulo tem uma significação muito especial para o assunto que nos ocupa. Quer este padre provar que as mulheres, como os homens são capazes de chegar à perfeição, e parece desejar que se entreguem ao estudo para encherem o quadro da vida perfeita: - “As filhas de Diodoro - diz ele - faziam prodígios na dialética... Várias mulheres seguiam os cursos de Plantão; as lições de Aspásia não foram inúteis a Sócrates, não contando as que brilharam na poesia e na pintura".[10] Disto tira ele a seguinte conclusão: “O estudo da filosofia é, pois, tanto um dever para as mulheres como para os homens, se bem que estes pela sua superioridade ocupam o primeiro lugar”.[11] – e sabe – se que os antigos e particularmente Clemente de Alexandria, entendiam por estudo da filosofia, o estudo de todas as ciências e a prática de todas as virtudes. Nós também lemos nas atas de Santa Catarina [de Alexandria] que ela conhecia toda a literatura sagrada e profana, e ela própria o declarou perante os seus algozes:- “Eu exercitei-me - disse ela - em todas as partes da retórica, da filosofia, da geometria e outras ciências”.[12]

Santa Mônica é ainda um admirável modelo, digno de vos ser citado, sobre este assunto; comprazia-se em discutir com Santo Agostinho e os seus amigos os elevados problemas da filosofia, arcem philosophiae, e fazia-o com uma largueza de vistas e uma elevação de idéias que espantavam os assistentes. Uma vez entrou no aposento de seu filho, no momento em que se tratavam profundas questões, e indagou do assunto da conversação. 

Santo Agostinho pediu ao secretário para que a elucidasse. "Então! - exclama a santa - nunca vistes mulheres tomarem parte nesta espécie de discussões!" - "Eu desprezo o juízo dos orgulhosos e dos tolos - replica o santo - certificai-vos, minha mãe, que vários indivíduos ficarão encantados sabendo que estudais filosofia comigo, e mais satisfeitos do que se nos entregássemos a outra qualquer ocupação séria ou recreativa, pois entre os antigos as mulheres dedicavam-se à filosofia, e a vossa, particularmente, agrada-me muito..." 

Santo Agostinho continua e mostra a sua mãe quanto havia de forte, de elevado e de filosófico no seu caráter. A santa interrompe-o dizendo-lhe que nunca ele mentira tanto e com tanta amabilidade.[13] Em outra discussão semelhante, Santa Mônica animou-se tão calorosamente, e tal impressão produziu a sua palavra, que nós esquecemos - diz Santo Agostinho - que ela era uma mulher, parecendo estarmos algum filósofo ilustre: Ut obliti penitus sexus ejus, magnum aliquem virum considerare nobiscum crederemum.[14]

Mas nada há tão belo e tão sublime como o colóquio de Santo Agostinho com Santa Mônica à beira-mar, no porto d’Ostia. Alguns dias depois o santo devia perder aquela que ele amava com tanta ternura; aquilo era, pois, e sem que o pensassem, um como canto de cisne moribundo. Estavam sós, apoiados em uma janela, contemplando a imensidade. "Conversávamos - diz Santo Agostinho - com inefável doçura, e esquecendo o passado e devorando o futuro, falávamos dos magníficos destinos que nos esperam... Levados por um novo elo de amor para o Ser infinito o nosso coração transpôs o espaço e o firmamento suspenso sobre nossas cabeças: ele procurava a sabedoria incriada... Falávamos assim; de súbito, erguidos pelo amor, pareceu-nos termos tocado, por um vôo do coração, na eterna sabedoria, objeto de nossos suspiros; deixamos-lhes as primícias de nossa alma, e regressamos á terra, onde se ouve o ruído da voz. Mas o que é a palavra humana? Que tem ela de semelhante, ó meu Deus, á vossa palavra infinita?”[15]

Este magnífico diálogo, entre Santo Agostinho e sua mãe é acompanhado de considerações elevadíssimas sobre o tempo e a eternidade, sobre a criação e as suas relações com o Ser infinito. Isto é uma das melhores provas de que as mulheres podem ter lugar na escola de uma grande e bela filosofia, e de que até o êxtase de tal ciência pode ser conhecido delas, o êxtase, a hora dos júbilos serenos e profundos, em que a alma é arrancada a si própria e parece entrever o face a face, de que fala S. Paulo. 

Eu, senhoras, deveria, talvez, antes de terminar, dizer-vos alguma coisa sobre as leituras, mas não teria tempo de tratar convenientemente tal assunto; mas é provável que em qualquer dia das nossas reuniões mensais o possa fazer. Oxalá que hoje tivesse seguido convenientemente o centro do estreito de Messina, sem exageração para um ou para outro lado! Não é minha intenção fazer-vos mulheres sábias, no sentido ridículo da palavra, desejo, sim, que alcanceis o que eleva a inteligência e enobrece o coração. A alma da mulher é da mesma origem que a do homem e também tem necessidade de luz. Não deve estiolar-se esta planta divina, antes é forçoso que produza os seus frutos, que se são diferentes dos que se colhem no jardim do homem, nem por isso são sem valor ***, uma vez que cheguem à conveniente maturação. 

Uma sábia distribuição de luz na alma da mulher nunca lhe fará mal: põe as idéias no verdadeiro lugar, que é a única coisa que, muitas vezes, falta a certas cabeças, retifica o juízo, fortifica a vontade e dá ao andar, no caminho da vida, um passo mais digno e mais firme. Oxalá que possais, depois de fiado o linho e a lã, por vossas mãos engenhosas, tornar-vos igualmente hábeis em seguirdes uma conversação e uma questão séria, em meditardes um livro, cujo principal assunto seja uma idéia nobre e grande. Juntai a isto o que Fenelon chamou o pudor da ciência nas mulheres, e então merecereis que se vos apliquem as palavras na Bíblia, que tomei para texto: 

Mulier sensata et tácita, non est immutatio eruditae animae.[16]
Uma mulher sensata gosta do silêncio: nada é comparável a uma mulher instruída. 

[1] Conselhos sobre a educação 
[2] Educação das meninas 
[3] Educação das meninas 
[4] Correspondência.t 11 

* Ao pesquisar sobre Tocqueville foi possível verificar que ele foi um francês liberal do séc. XIX. Não acreditamos que o texto esteja perdido pelo fato de Mons. Landriot citá-lo, pois o uso (mesmo distorcido) que faz da citação permanece dentro do senso comum e do catolicismo. 
** Neste ponto, a tradução que temos em mãos acrescenta a seguinte frase: "O Deus que adoramos é o Deus da ciência, e se os ignorantes entram no reino do céu isso não é regra." Essa frase ficou fora de contexto, pois como sabemos a ignorância que fecha as portas do Céu é a dos princípios religiosos e isso até os mais "simples" podem aprender. Portanto ao retirarmos a frase ajudamos o autor do texto a não provocar equívocos nos seus leitores. 
[5] Entret. Sobre a educação 
[6] Marcial, Epig 
[7] Conselhos sobre a educação 
[8] Carta t.11 
[9] Tácito, Costumes dos germanos 
[10] Stromat., 1. IV, cap. 19 
[11] Ibidem. 
[12] V.Surius 
[13] De ordine,1.I 
[14] De beata vita, c.10 
[15] Confissões, 1.IX, c.10 
*** A tradução diz: "não são menos excelentes". Ousamos fazer aqui uma pequena alteração, pois a obra intelectual de uma mulher não há de ser igual à do homem. 
[16] Eccles, XXVI, 18